Gildo Rocha: a história de um crime racista

Nesse ano de 2017, no dia 6 de outubro, completam-se 17 anos do assassinato do militante do PSTU-DF, Gildo Rocha, durante uma atividade de preparação da greve dos garis do SLU (Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal), que teve início no dia seguinte ao seu assassinato.

Esse crime bárbaro cometido por dois policiais civis (um deles falecido antes do julgamento e o outro inocentado pelo tribunal do júri em 2011), foi marcado durante todo esse período pela tentativa dos agentes policiais, com anuência da direção da Polícia Civil do DF, de falsificar os fatos que culminaram na morte de Gildo. Manipularam a cena do crime e tentaram manchar a imagem do militante, na tentativa de justificar o crime dos policiais.

O crime
No dia 6 de outubro de 2000, Gildo e outros dois companheiros garis do SLU, saíram à noite pelas ruas de Ceilândia (maior cidade do DF, região periférica que abriga uma das maiores favelas da América Latina) promovendo um ação da tradição das greves do SLU (Serviço de Limpeza Urbana), cortando os sacos de lixo para dificultar a ação dos fura-greves.

Durante essa atividade, no centro de Ceilândia, enquanto Gildo aguardava no carro e os outros dois companheiros do SLU cortavam os sacos de lixo, foram abordados por um carro (sem identificação policial) e por 3 agentes da polícia civil à paisana. Nesse momento, os dois colegas de Gildo foram rendidos e Gildo deu a partida no carro e saiu. Dois agentes da polícia civil iniciaram a perseguição ao carro de Gildo. Os policiais acertaram 17 tiros no carro de Gildo, um desses tiros atingiu suas costas e o matou. A perseguição dos policiais só cessou no momento em que Gildo perdeu a consciência e seu carro se chocou contra um poste.

Os agentes da polícia, depois de levarem Gildo ao hospital, voltaram à cena do crime, plantaram uma arma e um cigarro de maconha em seu carro, e desferiram um tiro contra o radiador do próprio veículo conduzido pelos policiais. Tudo isso para alimentar uma versão mentirosa dos fatos, que tentava enquadrar Gildo como um traficante que atirou contra os policiais numa tentativa de fuga.

A farsa montada pelos agentes da polícia civil
Desde o início, a luta pela condenação dos culpados e pela justiça se enfrentou com a posição corporativista da Polícia Civil do DF, que tentou acobertar o crime cometido pelos agentes policiais. Gildo deixou 2 filhos e uma esposa, que até hoje não receberam indenização por parte do Estado, pois o juiz considerou que Gildo foi responsável por causar a própria morte, no processo cível que foi movido pela viúva Gleicimar de Souza contra o GDF.

Os laudos periciais, apesar da manipulação da cena do crime, não tiveram como esconder o fato de que não havia vestígios de pólvora nas mãos e nem nas roupas de Gildo, nem puderam esconder que Gildo não havia consumido nenhum tipo de droga. Esses fatos desmentem categoricamente a versão dos policiais que justificaram sua ação criminosa sustentando que Gildo, além de ter atirado contra os agentes, estaria consumindo drogas ilícitas no centro de Ceilândia quando foi abordado.

Os policiais organizaram toda sua linha de defesa baseada nessa versão mentirosa, com a ajuda da direção da Polícia Civil. A versão mentirosa sustentada pelos policiais não conseguiu esconder a verdade sobre o assassinato de Gildo, mas revela a motivação racista desse crime.

Um crime motivado pelo racismo institucionalizado nos órgãos policiais

Reportagem sobre Gildo no Correio Braziliense

O motivo que levou os policiais a fazer a abordagem a Gildo e seus companheiros numa região da periferia do DF, à noite, e depois organizar uma caçada contra Gildo até conseguir matá-lo, é a ideologia racista entranhada nas instituições policiais do país. Na visão dos policiais, três homens negros nas ruas de uma periferia, tarde da noite, não podiam fazer outra coisa a não ser “cometer crimes” e por isso era preciso abordá-los. Promoveram uma caçada no centro de Ceilândia contra uma pessoa e se acharam no dever de desferir 17 tiros contra o seu carro, baseado numa suposição alimentada por uma ideia racista.

E não bastasse toda essa covardia, quando se deram conta do que haviam feito, manipularam a cena do crime e criaram uma versão mentirosa para manchar a imagem de Gildo e ganhar a opinião pública com o discurso de que eles, os policiais, estavam corretos ao assassinar um homem que era um “criminoso envolvido com o tráfico de drogas”. A política de “guerra às drogas” mantida pela Estado como mote para o assassinato em massa da juventude negra da periferia das grandes cidades é a saída construída pelos policiais e pela Polícia Civil do DF para tentar justificar o assassinato de Gildo.

O julgamento
Em 2011, depois de 11 anos de uma longa espera, finalmente um dos acusados, Arnulfo, que conduziu o veículo que perseguiu Gildo, foi a julgamento, no júri popular (o policial que atirou no carro de Gildo, faleceu em 2009 num acidente e não chegou a ser julgado).

A estratégia do acusado para sua defesa, com apoio direto da Policia Civil do DF foi, em primeiro lugar, mudar o local do julgamento, inicialmente marcado para ocorrer no Fórum de Justiça de Ceilândia, com um júri composto por moradores da própria cidade.

No dia do julgamento, centenas de agentes da Policia Civil, devidamente uniformizados e armados, e dezenas de viaturas da corporação cercaram o fórum de Ceilândia e promoveram uma verdadeira algazarra com buzinas, sirenes ligadas o tempo todo e a formação de um “corredor polonês” na entrada do fórum com o objetivo claro de intimidar as testemunhas e o júri.

Diante do caos instalado dentro do fórum, o juiz determinou a mudança do fórum, a pedido da defesa de Arnulfo, que foi remarcado para outra data no Tribunal de Justiça do Plano Piloto. Assim, Arnulfo teve a primeira vitória na sua estratégia de defesa que era impedir que moradores de Ceilândia, com uma experiência muito concreta com a truculência policial, pudessem decidir sobre seu caso. Dessa vez, um júri composto por pessoas do Plano Piloto (área nobre do DF) seriam os responsáveis pelo seu julgamento.

Durante o julgamento, toda a defesa de Arnulfo foi centrada na caracterização de que ele cumpriu seu dever ao perseguir Gildo, participando diretamente de seu assassinato, pois a “fuga” e a atitude “suspeita” de Gildo, juntamente com as “provas” no seu carro (todas elas plantadas pelos próprios policiais) justificam a ação dos agentes. Infelizmente, o júri inocentou Arnulfo e manteve livre um dos assassinos de Gildo.

Assim como Amarildo e DG, o militante do PSTU, Gildo Rocha, foi também uma vítima da violência racista praticada pelo Estado. Nestes 17 anos de seu assassinato, denunciamos seu covarde assassinato pela polícia e lembramos de sua memória, presente e viva mais do que nunca em nossa luta.