Exército utiliza pretexto do roubo de armas para ocupar favelas

No dia 3 de fevereiro, o Exército brasileiro iniciou uma operação nas favelas do Rio de dar inveja à ocupação militar que seus colegas travam no Haiti. As imagens também não diferem muito: a população pobre, majoritariamente negra, acuada ante a invasão dos soldados. A ocupação das favelas ocorreu após o roubo de 10 fuzis e uma pistola no Estabelecimento Central de Transportes, do próprio Exército, na madrugada do dia 3. Ancoradas numa decisão judicial, as Forças Armadas invadiram e ocuparam as favelas com o total apoio do presidente em exercício e atual ministro da Defesa, José Alencar, que justificou a ação militar: “O Exército está com autorização judicial buscando o que lhe é de direito”.

Nove favelas da região metropolitana do Estado estão cercadas pelo Exército: o morro da Providência (Centro), Nova Brasília (no complexo do Alemão), Vila dos Pinheiros (Complexo da Maré), além dos morros do Dendê e da Mangueira e das favelas do Jacarezinho, Manguinhos, Jardim América e Parque Alegria. Além das do Rio, tropas de Brasília e Goiânia se deslocaram para a região numa ação que reúne 1.500 homens, mais do que o contingente de soldados no Haiti (1.200). A comparação com o Haiti não pára aí. Muitos dos militares que compõem a missão estiveram no país, invadindo favelas em Porto Príncipe, invadindo casas e atirando a esmo. Estas cenas, mostradas pela televisão, motivaram inúmeras denúncias e investigações contra a ação do Haiti, que agora repete-se no Rio de Janeiro.

Primeira vítima
A população vem denunciando a ação do Exército, que está colocando barreiras, revistando automóveis e, como faz a Polícia Militar, agredindo moradores pobres. Na manhã do dia 6, um estudante foi morto com um tiro no peito. Eduardo Santos, de 16 anos, assistia a ocupação militar no Morro do Pinto quando foi assassinado. Segundo amigos, o estudante segurava um guarda-chuvas que teria sido confundido pelos militares com um fuzil.

O Exército afirmou que permanecerá nos morros até as armas serem recuperadas e conta também com o apoio da Polícia Militar do estado. Mais do que uma trágica demonstração de incompetência das Forças Armadas, a invasão das favelas expressa o real caráter do exército. As populações pobres são tratadas em suas residências como inimigos de guerra. Além disso, a ação abre um grave precedente pro Estado utilizar, sempre que julgar conveniente, o Exército para reprimir conflitos internos de caráter social.