Ex-funcionário da CIA denuncia Big Brother do imperialismo


Brasil foi um dos países mais espionados por programa norte-americano

Parece até roteiro de filme hollywoodiano. Mas é um desses casos em que a realidade supera a ficção. No início de junho, o mundo se chocou diante da revelação da existência de um mega sistema de espionagem comandado pela CIA e que é capaz de interceptar qualquer mensagem eletrônica ou telefonema em qualquer parte do mundo. Apesar de haver suspeitas dessa capacidade do governo norte-americano, nunca havia se comprovado.

A denúncia saiu no jornal norte-americano “The Washington Post” e no britânico “Guardian”, causando furor no governo dos EUA e na direção do serviço secreto do país. Dias depois foi revelada a identidade da fonte do vazamento: o ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA na sigla em inglês), Edward Snowden, de 29 anos. A NSA foi montada durante o período da Guerra Fria e reforçada pelo governo Bush em sua política de “guerra ao terror” e avanço sobre as liberdades dos países e cidadãos.

A NSA criou uma infraestrutura que permite interceptar praticamente tudo e capturar a imensa maioria das comunicações humanas de maneira automática e sem selecionar objetivos. Se, por exemplo, eu quero ver os seus correios eletrônicos ou o telefone da sua mulher, a única coisa que preciso é usar métodos de interceptação que me permitem obter correios, contra-senhas, registros de telefone, dados de cartão de crédito“, revelou Snowden ao jornal. O sistema, cujo principal programa é chamado de “Prism”, seria articulado entre grandes empresas da Internet, como Microsoft, Google, Skipe, YouTube, Facebook, Yahoo, Aol, entre outras.

Segundo matéria publicada pelo jornal O Globo desse dia 7 de junho, o Brasil foi um dos países mais monitorados pelo serviço secreto dos EUA. Segundo o jornal, foram nada menos que 2,3 bilhões de telefonemas e mensagens bisbilhotadas pelo governo norte-americano só em janeiro, colocando o país como o mais espionado da América Latina. O Brasil só perderia em volume de mensagens rastreadas, para países do Oriente Médio, incluindo os que estão ocupados militarmente pelos EUA, como Iraque e Afeganistão.

Snowden afirmou que se decepcionou com a postura do governo Obama que, contrariando suas expectativas, avançou na política de espionagem aos cidadãos em nome do “combate ao terrorismo”. Obrigado a reconhecer a existência do esquema de espionagem, o presidente norte-americano utilizou o mesmo argumento de Bush, de que seria abrir mão de certos direitos e liberdades em nome da segurança. “Não se pode ter 100% de segurança e 100% de privacidade. É preciso fazer concessões, e estas pequenas concessões nos ajudam a prevenir ataques terroristas”, afirmou à imprensa.

Se o mundo conhecia ali a audácia e a força do imperialismo norte-americano no atentado à privacidade das pessoas e à soberania de países em todo o mundo, iria conhecer agora a maior caçada internacional já realizada pelos EUA a um cidadão de seu próprio país.

Cerco imperialista
A fim de se proteger de retaliações do governo norte-americano (se preso, ele pode ser condenado à pena de morte por traição), Snowden se refugiou primeiro em Hong Kong, na China. Após os EUA terem pedido a extradição do ex-analista, ele conseguiu sair do país, refugiando-se na Rússia. Snowden permanece no aeroporto de Moscou, numa área de trânsito, um limbo jurídico e diplomático de onde pediu asilo político a uma série de países. Foi a partir daí que o mundo pôde perceber a pressão esmagadora dos EUA sobre países que, teoricamente, seriam “independentes” e até seus inimigos.

O presidente russo, Wladimir Putin, chegou a ironizar ao dizer que Snowden poderia entrar no país caso parasse de “tentar prejudicar nossos parceiros americanos”, fazendo questão de completar: “por mais estranhas que essas palavras pareçam ditas por mim”. O presidente do Equador, Rafael Correa, que abriga o criador do WikiLeaks, Julian Assagne, na embaixada do Equador na Inglaterra, recuou de conceder asilo a Snowden após um misterioso telefonema do vice-presidente dos EUA, Joe Biden.

Ataque à soberania da Bolívia
Mais vinte países recusaram asilo político a Snowden, incluindo o Brasil (leia abaixo). Mas nada se comparou ao grave caso envolvendo o presidente da Bolíva, Evo Morales na Europa. Na madrugada do dia 3 de junho, o presidente boliviano sobrevoava o continente após uma reunião dos países produtores de gás na Rússia.

Ao requisitar pouso técnico em Portugal para reabastecer o avião, o país fechou seu espaço aéreo a Evo, temendo que Snowden estivesse escondido no avião. Posição que foi repetida pela Espanha, França e Itália. Foi só em Viena, na Áustria, que Evo Morales conseguiu pousar. O avião teria sido então vistoriado pelas autoridades austríacas quando estava no solo.

A fim de agradar os EUA, Portugal, Espanha, França e Itália pisotearam todas as convenções internacionais que garantem imunidade a chefes de Estado, chegando a colocar a vida do presidente boliviano em risco. O ato foi, na prática, uma agressão do imperialismo à soberania da Bolívia. Foi desmascarada aí a condição de subserviência dos países europeus ao imperialismo norte-americano.

Após o escândalo do caso, Snowden recebeu ofertas de asilo da Venezuela e Nicarágua, além da própria Bolívia, claro.

Dilma nega asilo a Snowden
Em mais um episódio vergonhoso de completa submissão aos interesses dos EUA, o governo brasileiro foi um dos países que negaram asilo político ao ex-técnico da CIA, Edward Snowden. Apesar de o norte-americano ter enviado carta pedindo o asilo político devido à perseguição das autoridades de seu país, o Itamaraty sequer respondeu ou se pronunciou sobre o caso. Nem diante da violação dos países europeus à soberania da Bolívia.

O governo Dilma se limitou a emitir um comunicado condenando a agressão, algo como 15 horas após o caso e depois de todos os países da América do Sul.

Publicado originalmente no Opinião Sociaista 463