Manifestantes fazem cerco a departamento de Polícia

Desde domingo, 11 de abril, centenas de pessoas têm tomado as ruas e se confrontado com a polícia de Brooklyn Center, uma pequena cidade nos arredores de Minneapolis (no estado de Minnesota, no centro-oeste dos EUA), em protestos contra a mais recente vítima do racismo e da violência policial no país. No dia anterior, Duante Wright, de 20 anos, foi assassinado pela policial Kim Potter, num episódio absurdo, pra dizer o mínimo.

Parado por uma blitz de trânsito, Duante foi assassinado a sangue frio pela policial Kim Potter, que alegou ter feito o disparo “acidentalmente”, ao confundir sua pistola automática com um “taser” (uma arma de eletrochoque).

Ninguém engoliu a desculpa esfarrapada, até mesmo porque o assassinato foi cometido a apenas 16 quilômetros do tribunal onde está acontecendo o julgamento do ex-policial Derek Chauvin, responsável pela brutal e covarde morte de George Floyd. E, além disso, Potter tem nada menos do que 26 anos de experiência policial, recebeu várias condecorações e já até foi presidente da Associação Policial da cidade.

Como é típico do Partido Democrata, o presidente Joe Biden se declarou “indignado” diante de mais este crime racista. Uma indignação cuja sinceridade tem o mesmo valor de uma de suas principais promessas durante a campanha eleitoral – a de criar uma comissão de supervisão da polícia dos EUA, para coibir a violência racial. Uma medida insignificante, que mesmo assim já foi arquivada.

O que faz com que seja completamente compreensível o porquê do povo de Minneapolis e de um número crescente de localidades dos EUA não tenha dado ouvidos aos pedidos de “paz e calma”, também feitos pelo presidente norte-americano, já havendo registros de protestos em outras cidades, como em Portland (no estado do Oregon, no Noroeste dos EUA), onde também houve um forte enfrentamento com a repressão, e na Filadélfia (na Pennsylvania, no Nordeste do país).

Duante Wright e seu filho

Sem justiça, não há paz!

Katie Wright, estava falando com seu filho ao telefone, quando ele foi parado pela polícia porque tinha os purificadores de ar pendurados no espelho retrovisor. “Um minuto depois, liguei e a namorada dele, que estava como passageira, atendeu e disse que ele havia levado um tiro”, declarou a mãe do jovem, que deixou um filho recém nascido.

Logo que o assassinato foi noticiado, o povo começou a sair às ruas, atropelando, inclusive, as orientações do prefeito da cidade, Mike Elliott, que, em entrevista à rede “CBS News”, pediu para “todos e todas ficassem em casa”, esperando para que a “justiça seja feita pelas cortes e tribunais”. Vale dizer que Elliot é negro, imigrante da Libéria, e chegou ao cargo graças à composição étnico-racial de Brooklyn Center que, com apenas 30 mil habitantes, tem uma maioria não-branca: 29%, de negros; 16,3%, de asiáticos e 13,5%, hispânicos; contra 38% de brancos(as).

Essa diversidade étnico-racial também se expressou dentre as centenas que cercaram o Departamento de Polícia local, desafiaram o toque de recolher imposto tanto pelo prefeito quanto pelo governador (em toda região que cerca a cidade) e fizeram ouvir, novamente, os gritos de guerra que há tempos têm sacudido os EUA: “Vidas negras importam! Sem justiça, não há paz!”.

E, enquanto Biden e Elliott falavam de paz e justiça, o governador do estado, o também Democrata Tim Walz, ao mesmo tempo em que lamentava por “outra vida de um homem negro levada pela polícia”, mandou a polícia para cima dos manifestantes com apoio das forças federais – a temida Guarda Nacional –, repetindo as cenas de truculência e violência já vistas em protestos anteriores.

Na noite de ontem, dia 12, o prefeito Mike Elliot (vestindo um emblemático capacete militar, diga-se de passagem) foi obrigado a tentar apaziguar os manifestantes pessoalmente, não sendo exatamente bem recebido, até mesmo por defender a presença da polícia e da Guarda Nacional, em nome da “proteção de todos”.

Uma declaração bastante hipócrita, quando se sabe que, apenas na madrugada de ontem, 40 pessoas foram presas na cidade e outras 13, na vizinha Minneapolis; seja por violarem o toque de recolher (imposto entre às 19 horas e às 7 horas da manhã) ou por participarem de protestos.

Diante da força dos protestos, a policial Potter e seu chefe, Tim Gannon, pediram demissão na segunda-feira, dia 12. Elliott, aliás, foi eleito pelo Conselho Municipal para comandar diretamente o Departamento de Polícia local. A aposta é que ele consiga conter a situação apoiado em sua etnia e popularidade. Contudo, isto também o coloca como responsável direto por qualquer coisa que venha acontecer.

E não é improvável é que vejamos uma nova onda de protestos. Na cidade, os manifestantes estão mantendo o cerco do Departamento de Polícia e protestos começaram a pipocar país afora. Uma situação alimentada não só pelo ódio contra a violência policial, mas também porque a população não-branca continua sendo a mais diretamente atingida, numa escala completamente desproporcional, pela combinação da pandemia da Covid-19, que já ceifou 563 mil vidas no país, e da crise socioeconômica.

Segundo uma pesquisa da APM Labs, publicada em 05/03/2021, enquanto entre brancos (60% da população) registram-se 150,2 mortes para cada 100 mil habitantes; entre negros (cerca de 13%), a taxa é 179,8/100 mil e entre os povos originários (3% do total), é ainda maior, com 256 mortes para cada 100 mil.

Além disso, os dados oficiais sobre desemprego (que, desde o início da pandemia, atingiu 74.7 milhões de norte-americanos), apontam que a taxa entre negros, em 2020, chegou a 11,4%; enquanto a média nacional foi de 8,1%. Por fim, segundo o “Human Right Watch”, o número de domicílios chefiados por negros e latinos vivendo com “insuficiência alimentar” é o dobro daquele registrado dentre os brancos.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”

O verso, como se sabe, é título de uma música da banda “O Rappa”, mas serve tanto para cá quanto para os Estados Unidos. Ao aceitar a demissão da policial e seu chefe e, por tabela, o comando das forças de repressão, o prefeito Mike Elliott se declarou confiante de que, agora, irão “virar uma nova página” na História, uma declaração que poderia soar ingênua, se não partisse de alguém que conhece muito bem os meandros do racismo norte-americano, particularmente do seu sistema judiciário e de como ele se manifesta na atuação das polícias.

Algo que conhecemos bastante bem, aqui no Brasil. Mas, é preciso considerar, também, as proporções. Por isso, valem algumas observações sobre a relação entre assassinatos, população carcerária e “raça” em ambos os países.

Aqui, onde negros e negras formam 56,1% da população, segundo o “Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020”, oito a cada dez pessoas mortas pela polícia em 2019 eram negras, a enorme maioria (74,3%), jovens com até 29 anos. Índices superiores, inclusive, ao que definem aquilo que já chamamos de genocídio da juventude negra, considerando que, no mesmo ano, negros foram 74,1% das 39.561 pessoas mortas em homicídios em geral.

Só no ano retrasado, policiais assassinaram 6.357 pessoas. E para aqueles que insistem na tese de que há uma “guerra” em curso, vale lembrar que, se tal coisa existisse, só poderia ser chamada de uma “guerra suja”: em 2019, 172 policiais civis e militares foram mortos (apenas 62 deles durante o serviço), o que significa 37 civis mortos para cada agente da repressão.

E mais: esse número cresceu sem parar, independentemente do governo de plantão. No início do segundo mandato de Dilma, em 2013, policiais assassinaram 2.212 pessoas; ao final do governo da petista, em 2016, o número havia duplicado, chegando a 4.240. E, aqui, não cabe a “desculpa” de que o Governo Federal não tem nada a ver com esta história macabra. Tem, sim, na medida em que é o carro-chefe, no país, da manutenção da “ordem” capitalista que, em defesa da propriedade privada e dos privilégios da burguesia, alimenta a “lógica” racista das forças de repressão.

O mesmo podendo ser dito em relação à população carcerária. Ainda segundo o “Anuário 2020”, no ano de 2019, havia 755.274 pessoas encarceradas no país. Dessas, 66,7% eram negras e 32,3% brancas. E vale dizer que o dedo do PT também pesou nesta história. Em 2005, o total de presos negros representava 58,4% da população carcerária e o aumento do índice tem muitíssimo a ver com a famigerada “Lei Antidrogas”, aprovada por Lula, em 2006.

Se a situação no Brasil já é inaceitável; nos EUA, onde a população negra corresponde a cerca de 13% da população, o descalabro é ainda maior. Como noticiado no portal da UOL, em 13 de abril, em um artigo intitulado “Quatro fatos que ajudam a explicar tensão entre negros americanos e polícia”, há razões mais que suficientes para que jovens como Duante temam sequer uma batida policial.

Por exemplo, um estudo de 2020, feito pela Universidade de Stanford (em base a análise de 100 milhões de abordagens no trânsito por parte dos departamentos de polícia) constatou que motoristas negros tinham cerca de 20% mais chances de serem parados do que os brancos; sendo, ainda, que, uma vez parados, os motoristas negros eram revistados até duas vezes mais que os brancos, embora fossem estatisticamente menos propensos a transportar itens ilegais.

Além disso, em 2018, cerca de 750 em cada 100 mil afro-americanos foram presos por abuso de drogas, em comparação com cerca de 350 em cada 100 mil americanos brancos. Já um estudo da ONG União Americana pelas Liberdades Civis revelou que negros têm 3,7 vezes mais probabilidade de serem presos por porte de maconha do que os brancos.

O resultado não poderia ser outro. De acordo com dados de 2019, negros são presos a uma taxa cinco vezes maior que a dos brancos e o dobro da dos norte-americanos de origem hispânica (18% da população). Naquele ano, negros formavam cerca de 13% da população dos EUA, mas representavam quase um terço da população carcerária do. Já os brancos eram cerca de 30% da população carcerária, apesar de representar mais de 60% da população total dos Estados Unidos. Em outras palavras, havia 1 mil prisioneiros negros para cada 100 mil residentes afro-americanos, em comparação com cerca de 200 presidiários brancos para cada 100 mil membros desta etnia.

Por isso, lamentavelmente, não causa surpresa que Duante Wright tenha encontrado o mesmo fim que Eric Garner (que morreu, gritando “eu não consigo respirar”, em julho de 2014, em Nova York), Michael Brown (de 18 anos, assassinado em Ferguson, Missouri, um mês depois), Tamir Rice (12 anos, morta em novembro do mesmo ano, em Cleveland, Ohio), Breonna Taylor (assassinada com oito tiros, aos 26 anos, por policiais que invadiram seu apartamento em Louisville, Kentucky, em março de 2020), duas semanas antes do assassinato de George Floyd. Isto para citar apenas alguns dos casos.

Todos eles são parte de uma mesma estatística macabra. Nos Estados Unidos, mesmo sendo pouco mais que um décimo da população, a taxa de mortes de negros desarmados, provocadas por policiais, é três vezes maior do que de brancos.

Pra “virar a página” é preciso derrotar este sistema

Mike Elliott que tornou prefeito na esteira de suas atividades como “empreendedor negro” e defensor da possibilidade de combater o racismo por “dentro do sistema” e em aliança com os “donos do poder”, agora, está confrontado com a realidade nua e crua.

Desde domingo, suas ações para tentar apaziguar os ânimos não surtiram muito efeito. Pelo contrário. A população de Brooklyn Center e arredores continuou nas ruas, com saques e ataques a 20 empresas e locais simbólicos das desigualdades socioeconômicas e raciais. E, como vimos, há a concreta possibilidade de que as manifestações se intensifiquem e se alastrem pelo país.

Na cidade, as aulas já foram suspensas, como também foi paralisado todo o sistema de transporte público na região metropolitana de Minneapolis-Saint Louis. Além disso, a Associação Nacional de Basquetebol (NBA), a Liga Nacional de Hóquei e a Liga Central de Basebol emitiram notas em solidariedade à família e à população e cancelaram todos os jogos programados para o estado de Minnesota durante esta semana.

Estamos diante de uma nova onda de protestos como a que vimos nos anos anteriores, principalmente sob o governo Trump? É difícil prever. Contudo, é certo que negros e negras norte-americanos, como também seus aliados na classe trabalhadora e no povo empobrecido do país, percebem, cada vez mais, que o problema não está em que os representa no governo, mas, sim, no sistema ao qual seus governantes servem.

O que pode, de fato, fazer com que esta triste lamentável página da História seja virada é, na verdade, a retomada de outra, já escrita há muito tempo, e sintetizada numa frase de Malcolm X: “não há capitalismo sem racismo”. Não há como por fim a este verdadeiro genocídio e à violência racista, sem colocar um ponto final no sistema cujas raízes se confundem, desde o início, com a tentativa de “coisificação” de negros e negros, com a brutalidade da escravidão e com o assassinato, em nome do “progresso”, que caracterizou toda história do capitalismo.