Espanha: “Somos os netos dos operários que voces não puderam fuzilar na Guerra Civil”

Detalhe de acampamento em Madri
Henrique Carneiro

HENRIQUE CARNEIRO, professor de História da USP, esteve na Espanha, onde acompanhou a chegada das diversas marchas a Madri, no dia 23 de julho. Nesta entrevista para a revista Vírus Planetário, mostra como a Plaza Del Sol tornou-se o centro da luta na EurComo foi a chegada das marchas dos indignados?
Henrique Carneiro – Eles percorreram distâncias de até 600 km, de seis pontos do país. Iam passando em cidades médias com as bandeiras do movimento 15-M. E iam informando, ao longo do percurso, com celulares, smartphones….

Quando chegou em Madri, eram milhares. No mesmo dia, à noite, foi feito um grande ato, na Puerta del Sol. No dia seguinte, a passeata reuniu 40 mil. A Puerta del Sol é o marco zero de Madri. É o ponto central de todas as distâncias e centro político. Foi o local de reuniões públicas, da grande rebelião liberal do começo do século XIX. Enfim, é uma praça de grandes tradições políticas.

Outro detalhe é a questão etária. Eu me surpreendi com muita gente de idade. Vi muito cabelo branco. Há muita gente atingida com cortes na aposentadoria, lutadores de outras gerações. A Espanha é um país de muita tradição de luta. Havia veteranos da Guerra Civil, como uma velhinha, de 88 anos, derrubada pela polícia.

A Praça estava ocupada completamente desde o início, em 15 de maio (15-M), em uma intensa movimentação política e cultural. Gente tocando tambores, dançando, festa… Um clima que chamam, depreciativamente, de “perro flauta”, equivalente ao “bicho-grilo”. Tinha esse ar, até porque havia muitos jovens, desempregados e até andarilhos. Gente com condições para seguir a marcha. Que não estava trabalhando…

Tempo é algo de sobra hoje, com o desemprego…
Henrique – Sim. A taxa na juventude é mais de 40%, e a média, 21%. É o setor mais atingido, com perspectiva de decadência social, de viver pior do que os pais…

A geração anterior era chamada de “ni-ni”, algo como “Nem trabalha, nem estuda”. Depois virou “nem PSOE, nem PP”, partidos com uma mesma política. Os “socialistas” executam as políticas dos banqueiros, o que cria uma desilusão… Eles gritavam: “Onde está a esquerda? No fundo, à direita”. A esquerda oficial está no governo.

No Egito, havia uma juventude com muita escolaridade, doutorado, e sem emprego. Isso se repete na Espanha?
Acho que até mais. Imagino que o Egito tenha um grau de desigualdade mais típico dos países periféricos, e a Espanha tem uma série de conquistas e direitos.

Um lema da juventude de Portugal diz: “É preciso estudar para ser escravo”. É um fenômeno continental, mundial, de que o capitalismo não tem mais como absorver esses setores. Um cenário sombrio, de perda de conquistas.

A Espanha vive uma rebelião no sentido integral. A idéia de que é preciso mudar tudo… em um sentido semelhante ao que eu imagino ter sido 1968. Algo como: “dormíamos. Agora despertamos”. Há um clima de certa epifania… De que é possível uma ação que mude a rotina, o cotidiano.

Um retorno da paixão pela política…
Sim, pela política das ruas. De mostrar como basta você reunir algumas centenas, milhares de pessoas que você faz história, consegue mudar a agenda do sistema.

Há também o anti-clericarismo. Na Espanha, a Igreja é muito identificada ao fascismo. E a tradição da guerra civil desperta. Teve uma pequena cidadezinha, que teve um conflito sobre as tumbas de mártires da guerra civil do lado republicano. O prefeito, do PP, quis tirar. O pessoal do 15-M foi lá, com cartazes dizendo “somos os netos dos operários que voces não puderam fuzilar”. Todos exigem a República e há muitas bandeiras republicanas nos atos.

Como os manifestantes se organizam, como são os debates?
Tive uma impressão limitada. Nos debates um pouco todo mundo fala o que acha. É uma ideia de Ágora, de democracia direta, de você tomar a palavra, falar. E também de não se estender, há toda uma gestualidade…

Não tem muita paciência para discurso longo….
Nada. Poucos minutos. O pessoal evita até aplaudir, agita as mãos quando concorda, e levanta cruzado, quando são contra. Evitam vaiar, acham ruim.

Há uma cultura de participação, mas pouco executiva no sentido de uma alternativa, um programa. Há gente que propõe participação eleitoral; Constituinte; outros acham que o regime não vai mudar por aí… Alguns propõem que o 15-M vire partido. Há muito debate, e não há posição definida. Funciona muito por consenso.

O anticapitalismo é muito presente e também o ataque aos bancos, ao sistema financeiro. Eles cantam: “anti, anti, anticapitalistas”. Mas o que fazer, o que pôr no lugar, não há um projeto ainda.

Como é a presença dos trabalhadores?
Os trabalhadores são maioria, mas são extratos, que não representam as camadas organizadas do proletariado industrial ou de setores de base sindical, convocados por centrais. Os sindicatos estão completamente ausentes do movimento porque são cúmplices do governo. Há exceções, claro, mas os principais são aliados do governo. Já os manifestantes chamam o tempo todo a greve. Cantam: “o que falta, o que falta? uma greve geral”.

O que está acontecendo lá se repete em Portugal e na Grécia, com ocupações de praças.
Não só na Europa. Ocorreu no norte da África, no mundo árabe, Israel, Chile.. É uma reação em cadeia como não se via em muitas décadas. E com várias facetas. A violência na Inglaterra é um sintoma do que ocorre nas grandes cidades, de exclusão social, miséria. E há o exemplo de Grécia, Espanha e Portugal, com o movimento de massas.

E há outro pólo, que é a extrema direita, deste gesto terrível, no ataque no dia 22, em Oslo. Falava-se muito disso em Madri.

O terrorista da Noruega é obcecado pela Espanha, pela Reconquista e pelo fascismo espanhol. O ataque mostra que as saídas radicais vão cada vez se tornar mais presentes na Europa, cujo momento histórico não tem mais nada a ver com o período do pós-guerra, do crescimento. É de crise econômica e de a imigração como bode expiatório, um pouco como os judeus, para o nazismo.

A ameaça fascista não deve ser desprezada. Na Noruega, tem 23%. O norueguês não é um louco solitário, mas um sujeito que lançou um Mein Kampf, que se articula com uma extrema-direita europeia em crescimento. Então o tema Revolução ou Fascismo assume a sua máxima atualidade. As saídas de centro, do PS, PP, são idênticas: salvar bancos e atacar as massas.

São momentos muito importantes. Estamos vivendo um ano de uma intensidade poucas vezes vista.