Equador em pé de guerra

Há duas semanas protestos tomam conta do Equador. Camponeses, indígenas, trabalhadores e estudantes estão realizando passeatas, bloqueios de estradas e marchas sobre a capital Quito contra a implementação do Tratado de Livre Comércio (TLC), negociado pelo governo Alfredo Palácio com os Estados Unidos.

A CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador) fez o chamado a suas bases e os camponeses indígenas iniciaram os bloqueios das vias de acesso às cidades mais importantes do país. O objetivo é mostrar ao governo e aos empresários exportadores, os beneficiados pelo TLC, que os maiores prejudicados pelo acordo serão os produtores de alimentos para a população, os pequenos camponeses.
Um estudo da CEPAL conclui que das cerca de 850 mil unidades produtivas agrícolas do país, quase 50% produzem alimentos ameaçados pela entrada de produtos americanos, principalmente milho, arroz e batata.

Segundo a CEPAL, aproximadamente 20% dos postos de trabalho seriam perdidos nessas unidades. Mesmo assim Palácio, que assumiu prometendo implementar a consulta popular sobre o TLC, como fiel representante do poder diz que o acordo vai entrar em vigor, custe o que custar.

As reivindicações
As principais reivindicações do movimento são: suspensão das negociações do TLC com os EUA e convocação de uma consulta popular sobre o tema (antiga exigência dos movimentos sociais do país); cancelamento do contrato e expulsão da petroleira norte-americana Occidental Petroleum, a Oxy; nacionalização do petróleo e chamado a uma Assembléia Nacional Constituinte.
Segundo o presidente da CONAIE, o objetivo é chegar a uma consulta popular sobre a assinatura do TLC.

Sobre a Oxy, todas as opiniões, como a do procurador geral de Justiça e da empresa Petroecuador, é de que existem provas suficientes de ter passado por cima de vários pontos do contrato. Também teria prejudicado o meio ambiente e atentado contra os povos indígenas amazônicos. Ainda assim, o governo continua adiando a decisão.

As mobilizações
No dia 13 de março começaram as mobilizações em 9 das 22 províncias do país, impedindo o trânsito de veículos nas rodovias. Enquanto isso, marchas de indígenas saíam de várias regiões em direção a Quito. Os primeiros a chegar foram os da Federação dos Indígenas da província de Imbabura, mais próxima da capital equatoriana.

Da região amazônica chegou a Quito, no dia 20, uma marcha iniciada na província de Pastaza. Nos dez dias de caminhada, a marcha enfrentou a polícia e o exército.
Um dos participantes explica como driblavam as dificuldades: “Nossa reação era esperar até que eles mesmos se cansassem e aí aproveitávamos para passar, seja pela rodovia ou por caminhos alternativos, mas chegávamos ao lugar previsto”.
Nessas duas semanas, enquanto uma parte do movimento continuava bloqueando as rodovias, camponeses indígenas não paravam de chegar a Quito, em marchas com adesão da população urbana.

Os manifestantes tentaram chegar ao palácio do governo, mas foram barrados por centenas de policiais e bombas de gás. Na frente do Congresso Nacional, os indígenas de Pastaza, com caras pintadas e lanças, ocuparam a praça e fizeram a polícia recuar.

Também é importante destacar a participação da juventude, entre os indígenas e também entre os mestiços da cidade, os mais radicalizados.
As palavras de ordem mais entoadas são: “No queremos y no nos da la gana de ser una colonia norte americana, si queremos, si nos da la gana, América Latina, socialista y soberana” , e “La patria no se vende, la patria se defiende”.

Estado de emergência
Ainda que o governo tenha tentado desmoralizar o movimento nos meios de comunicação reacionários do país, os efeitos dos bloqueios começaram a se fazer sentir. Os mercados já não têm alimentos. Falta também combustível, provocando grandes filas nos postos.

Diante da força do movimento, o governo, em mais um ato de violência, decretou no dia 21 estado de emergência em cinco províncias, restringindo os direitos dos trabalhadores, camponeses, indígenas e da população em geral.
Em três dias de estado de emergência, houve vários feridos e presos nas províncias, pois enquanto o exército tentava limpar as rodovias, os camponeses indígenas voltavam a bloqueá-las.

Estado de rebeldia contra Palácio
A implacável repressão do governo obrigou o movimento a fazer alguns policiais de reféns, pedindo a liberdade de ativistas presos. No dia 23 a direção da CONAIE chamou os indígenas a uma trégua.

Num discurso em Quito, o presidente da Ecuarunari (Federação dos Indígenas da Serra Equatoriana) e o presidente da CONAIE, Luis Macas, informaram a proposta de voltar às províncias. Anunciaram também que, diante do autoritarismo do presidente Palácio, desconheciam o governo e se declaravam em estado de rebeldia.

Entretanto, parte da base e dirigentes regionais presentes em Quito, gritando “Fuera Palácio”, se rebelaram, decidindo permanecer até a vitória.
Algumas nacionalidades indígenas já começaram a retornar a suas províncias, mas outras permanecem em Quito, mantendo as manifestações. A consigna de derrubar o governo, que não fazia parte dos atos, começa a ganhar peso.

Solidariedade internacional
Pela disposição demonstrada, as bases não recuarão e tudo indica que as mobilizações devem continuar.

Ainda que o governo permaneça duro, os manifestantes persistem e a medição de forças seguirá. Por isso, a favor dos lutadores equatorianos, é fundamental a manifestação de solidariedade dos trabalhadores e ativistas de todos os países, para fortalecer essa luta.

A derrota do TLC com os EUA seria uma vitória para todos os trabalhadores, camponeses e juventude da América Latina.

*colaborou Efrén Calapucha (dirigente da CONAIE da região de Pastaza).
Post author Helena Souza, do Movimientoal Socialismo (MAS), partido equatoriano filiado a LIT-QI *
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