Entre acordos e reféns, qual a saída para a Colômbia?

Burguesia colombiana e imperialismo dividem-se entre os que desejam uma vitória militar sobre as Farc e os que apostam em uma solução política e a institucionalização da guerrilha. Trabalhadores precisam derrotar regime autoritário de Álvaro Uribe e exigiAs Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) entregaram no dia 21 de fevereiro mais quatro reféns que estavam detidos por mais de seis anos. Os reféns foram entregues ao um grupo de funcionários do governo venezuelano. No mesmo dia eles desembarcaram em Caracas, onde foram recebidos por familiares e pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Chávez voltou a dizer que continuará “fazendo tudo o que pudermos para liberar até o último dos seqüestrados” , apesar do presidente colombiano Álvaro Uribe ter encerrado em novembro sua mediação entre Bogotá e as Farc, fato que gerou uma crise entre os dois presidentes.

O episódio da libertação dos quatro reféns foi semelhante ao de 10 de janeiro, quando foram soltas Clara Rojas e Consuelo González.

A opinião pública foi mantida na expectativa durante dezembro e janeiro, quando ocorreu a liberação de outros reféns das Farc. Na ocasião, pela via do chamado “Acordo Humanitário”, foi libertada a mãe da criança Emmanuel, nascida durante o período em que ela esteve em poder da guerrilha. Ainda seguem as negociações sobre a libertação de Ingrid Bittencourt, ex-candidata à presidência da Colômbia, seqüestrada em 2002. Como tem dupla cidadania (francesa/ colombiana), o governo de Sarkozy também está envolvido na negociação.

Por trás destes fatos, entretanto, se desenvolve um duro enfrentamento entre aqueles que pretendem esmagar militarmente a guerrilha e os que vêem como saída a negociação política para desarmá-la.

Contra a guerrilha ou contra Uribe?
O debate que tem produzido uma forte crise entre Uribe e Chávez esta em torno do que fazer com a guerrilha e como acabar com os seqüestros e libertar os reféns. Para isso existem duas estratégias: a de Bush e seu lacaio Uribe, acompanhado de um setor da burguesia latifundiária e narcotraficante, dispostos a destruí-la militarmente, apoiados nos resultados da política de “Segurança Democrática”, que infligiu duros golpes às Farc.

Para fortalecer essa política, foi realizada no dia 4 de fevereiro uma marcha convocada pelos grandes meios de comunicação da burguesia colombiana, com o propósito de legitimar a política de “Segurança Democrática”. Sob o chamado de libertação dos reféns e de um pedido de paz, ocultava-se o apoio à intervenção do imperialismo por meio do Plano Colômbia, ao genocídio perpetrado pelos paramilitares e à repressão do regime político contra os trabalhadores.

O Partido Socialista dos Trabalhadores, seção da LIT-QI na Colômbia, chamou a não participação nessa marcha por entender que ela fortalecia apenas o governo Uribe e seu regime repressor.

A segunda opção política é levantada por outro setor do imperialismo e da burguesia colombiana, que não confiam na estratégia militar e apostam pela saída política, ou seja, por um acordo de paz e incorporação dos dirigentes da guerrilha ao regime político. Tais setores não esqueceram a história, e lembram que muitas vezes a guerrilha na Colômbia quase foi aniquilada, mas logo renasce, pois sua base social, os camponeses pobres, são perseguidos e massacrados sem trégua.

Os proponentes do acordo têm a experiência no desmonte das guerrilhas da América Central, pela via da negociação. Algo que já foi amplamente realizado nas décadas de 80 e 90, com a Frente Farabundo Marti de El Salvador, o M 19 da Colômbia e outros movimentos armados.

Hoje ex-comandantes guerrilheiros participam do governo e do parlamento em vários países do continente. Como em El Salvador e na Nicarágua. Seus dirigentes foram incorporados ao regime e hoje ajudam a implementar os planos neoliberais, inclusive, em muitos casos, assimilando as práticas dos políticos burgueses, como a corrupção.

Essa política ganha forma no acordo humanitário impulsionado pelos governos da França, Venezuela, Argentina, Brasil, Bolívia e Equador, e por setores da burguesia colombiana representados pelos ex-presidentes Pastrana e Samper.

O programa das Farc
As Farc têm como proposta programática um governo de unidade nacional (governo burguês) e um regime de Estado de Direito (um regime burguês). O ELN (Exército de Libertação Nacional, segunda maior guerrilha no país) em essência, também levanta o mesmo programa com a formulação de um governo de nação, incluindo ainda a necessidade de seus guerrilheiros se incorporem ao exército, ou seja, a principal instituição do regime burguês, ao final do processo.

As principais diferenças entre o governo reacionário com a guerrilha e sua base camponesa têm a ver com a questão da propriedade da terra, muito concentrada na Colômbia, e os métodos bárbaros que são utilizados pelos latifundiários para se apoderar dela, reflexo de um regime político profundamente autoritário que historicamente não deu nenhuma margem à oposição política legal. O maior exemplo disso foi o extermínio da União Patriótica (UP). Esse partido foi fundado logo após as negociações entre as Farc e o governo de Belisario Betancurt (1984). No decorrer dos anos, foram assassinados quase 3.500 de seus militantes.

Silêncio sobre os crimes dos paramilitares
Embora a imprensa preencha seus espaços com entrevistas e notícias sobre os seqüestrados, o mesmo não é feito para registrar os crimes praticados pelos paramilitares contra os camponeses pobres que diariamente são expulsos de sua terra ou mortos.

Nenhum jornal ou emissora de TV fala das quase 10 mil vítimas dos paramilitares enterradas em valas comuns. Não exigem castigo aos empresários e políticos que participaram da orgia de sangue contra os sindicalistas, lideranças e ativistas populares. Nem pedem extradição de multinacionais como a Chiquita Brands, produtora de frutas que por anos patrocina assassinatos de sindicalistas.

A impunidade é reinante. Chefes paramilitares confessam cinicamente seus milhares de crimes, pois sabem que, caso sejam condenados, suas penas são equivalentes à de um ladrão de galinhas. Os parapolíticos (políticos que tem relações com os “paras”) gozam da mesma impunidade. É o caso de Dieb Malof, que foi condenado a apenas quatro anos de cadeia, sendo que em sua confortável moradia.

Por outro lado, o governo de Bush não tem nenhuma autoridade para qualificar as Farc de terroristas e exigir o respeito pelos direitos humanos. Basta ver os escândalos da prisão de Guantánamo, em Cuba, e de Abu Ghraib, no Iraque.

Como fica Chávez?
Para Chávez, é conveniente o acordo humanitário. Com as mediações, o venezuelano procura se demonstrar “mais confiável”. Dessa forma, pretende conquistar projeção como o “homem do diálogo”, necessário para a mediação política na região.

Ao longo do episódio, Chávez defendeu que “os atores da guerra na Colômbia se sentassem para falar de paz”. Mas de que paz Chávez está falando? Ele realmente acredita que é possível algum tipo de paz com o governo de Álvaro Uribe e o imperialismo?

É correto o método do seqüestro?
O método do seqüestro usado pela guerrilha é equivocado e o movimento operário e os setores populares devem propor que os guerrilheiros abandonem tais métodos e se juntem à luta pela revolução socialista, que só poderá ser conquistada com os métodos do movimento operário.

Os seqüestros apenas alimentam a campanha da mídia sobre a situação dos seqüestrados, doentes, mal alimentados e deprimidos, que certamente sensibiliza a população e produz um ódio contra as Farc. Um ódio que também é estendido – dissimuladamente ou não – para toda a esquerda, organizações operárias e qualquer um que ouse protestar contra o Uribe.

Por outro lado, não se pode permitir que isso seja aproveitado pela burguesia e o imperialismo para fomentar o ódio contra guerrilha, sendo que, na verdade, são eles os principais responsáveis pela desigualdade social e a expropriação das terras dos camponeses. A perseguição aos camponeses pobres explica o porquê de a guerrilha ter resistido por todos esses anos.

Para acabar com a luta guerrilheira é necessária uma saída de fundo: uma reforma agrária que exproprie os latifundiários e distribua a terra aos camponeses, além da conquista de liberdades democráticas para que a guerrilha se incorpore à vida civil e atue livremente na política.

Contudo, sob o governo de Uribe e seu regime autoritário, não é possível conquistar essas medidas. Com o atual governo só haverá mais expropriação e concentração de terra nas mãos de poucos. Confiar em Uribe pode significar a repetição do genocídio da União Patriótica. Mais do que ódio contra a guerrilha e mobilizações reacionárias – como a de 4 de fevereiro – , é necessário organizar a luta para derrubar o governo e seu regime repressivo e antidemocrático.