O Brasil está com quase 4 milhões de casos de COVID-19, registrando quase 123 mil óbitos em seis meses de pandemia. Para se ter uma ideia do descalabro, nosso país tem 3% da população mundial, mas registra 15% dos casos de COVID-19 no mundo. Nesse cenário escabroso, tem-se a perda diária de mil vidas em média, o que tornará o Brasil um dos países com mais mortes por milhão de habitantes. Não há fake news que oculte essa triste realidade, embora fake news sejam produzidas aos montes pelo governo Bolsonaro e seus seguidores.

Esses números podem ser ainda maiores. No Brasil, a pandemia corre solta, e o país não testa. Por isso, é difícil saber o tamanho exato da tragédia. Uma indicação pode ser o crescimento inexplicado de 30% nas mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) não diagnosticadas. Segundo o Ministério da Saúde (Boletim 28), do total de 610.958 casos de hospitalizados com início de sintomas de SRAG, de janeiro até 16 de agosto, 51,9% (316.814) foram confirmados para COVID-19, mas 33,1% (202.378) por SRAG não especificada. Isso significa que podemos ter de 30 a 40 mil mortes por COVID-19 que não foram diagnosticadas.

Essa situação é responsabilidade direta do governo Bolsonaro, que menospreza a doença e faz campanha para que a economia retorne para evitar maiores danos à sua popularidade; que divulga fake news e medicamentos totalmente ineficazes contra a doença, isso quando não ajudam a piorar a situação dos pacientes, como atestam inúmeros estudos científicos. Essa situação é responsabilidade desse governo que sempre foi contra o isolamento social e jamais garantiu uma política de quarentena para valer, isto é, com garantia de renda e proteção ao emprego dos trabalhadores. Pelo contrário, fez milhares de trabalhadores pegarem ônibus lotados, numa roleta russa diária sob risco de infecção e morte. Afinal, não se vê alternativa diante da negativa de acesso ao auxílio emergencial ou da insuficiência deste para satisfazer as necessidades básicas das famílias.

Recentemente, Bolsonaro chegou a dizer quem ninguém é obrigado a tomar a vacina, que ainda está longe de ser descoberta e distribuída de forma ampla. Acontece que qualquer vacina só funciona quando ela é aplicada na grande maioria da população, criando um efeito coletivo de imunidade. Esse é, portanto, mais um crime desse governo genocida que, com suas declarações, pode até tornar inútil uma futura vacinação, prolongando essa terrível agonia que mata milhares de pessoas.

E vem em aí mais uma fake news. Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro deu início, junto com o general Eduardo Pazuello, a uma estratégia de colocar na praça uma nova narrativa para ser replicada por apoiadores: quer trocar o papel de “genocida”, que lhe cabe muito bem, pelo de “salvador de vidas”.

Governadores são cúmplices

Não é só Bolsonaro que é responsável por essa triste situação. Os governadores e os prefeitos também são. No começo da pandemia, alguns chegaram a confrontar Bolsonaro, como João Doria (PSDB), governador de São Paulo. Porém logo flexibilizaram as medidas de distanciamento social e permitiram a reabertura da maior parte do comércio.

Todos sabem que a vida voltou ao normal, com ônibus e trens lotados, restaurantes e bares cheios, engarrafamentos de trânsito e muita gente nas ruas. A culpa é do povo ou é dos governos que nunca enfrentaram para valer a pandemia, adotaram algumas medidas paliativas e agora pensam em retomar até as aulas nas escolas públicas?

A naturalização da pandemia é resultado das ações dos governos que salvam os capitalistas e mandam os trabalhadores para o abate. Por isso, mais do que nunca, é necessário lutar por renda, emprego e quarentena geral. Chega de mortes!

 

EM DEFESA DA VIDA

Volta às aulas só depois da vacina

O retorno às aulas está na pauta da maioria dos governos e prefeituras. Tal medida ampliaria o contágio e o número de mortes e seria mais um sinal do “liberou geral” para toda a população.

Em Manaus (AM), em apenas 15 dias da volta às aulas, 342 professores da rede pública de ensino tiveram teste positivo para o novo coronavírus. Os dados resultaram de exames aplicados em 1.064 profissionais da educação da cidade, o que equivale a 32,2% de contaminação. Ao todo, a rede pública estadual tem 30 mil educadores. Desde o dia 11 de agosto, os professores amazonenses entraram em greve e tiveram seus salários cortados pelo governador Wilson Lima (PSC).

Em São Paulo, os professores continuam lutando contra o retorno das aulas, realizando atos e ameaçando decretar uma greve caso Doria determine a volta. A pressão para a retomada das aulas vem dos empresários e dos donos de escola. Afinal, como disse o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeep), Benjamin Ribeiro da Silva, “a economia voltou. Onde as pessoas vão deixar as crianças?”

Um relatório da Unicef publicado em agosto escancara a realidade das escolas brasileiras. Menos de 40% têm acesso a saneamento básico; cerca de 61% têm acesso a água potável; e ainda cerca de 5% das municipais e 5% das estaduais não têm nem sequer banheiro. Ou seja, a maioria das escolas não consegue garantir nem o acesso à água potável, medida mínima e necessária para a higienização. Retornar às aulas significa ampliar o genocídio numa escala bem maior do que podemos imaginar. Volta às aulas só depois da vacina!