Em dia de mais acidentes, dois corpos dos operários foram resgatados na obra que desabou em Belém

Leia entrevista com Atnágoras Lopes, dirigente da CSP-Conlutas e trabalhador da construção civil de BelémNesse dia 2 de fevereiro foram resgatados dos escombros da obra do Real Cless, no Bairro de São Brás em Belém (PA) os corpos de dois operários vítimas do desabamento no último dia 29.

Os corpos foram encontrados, resgatados e identificados após quatro dias de buscas. Na ocasião do desastre eles estavam trabalhando, juntamente com outros quatro companheiros que haviam saído do local pouco antes do acidente.

A vida mudou completamente para moradores daquela região que foram atingidos pelo desabamento. Em Belém o clima é de consternação. Os trabalhadores da construção civil estão em comoção e exigem a punição dos responsáveis pelo desastre.

Na última terça-feira uma manifestação, que parou as atividades de cerca de 40% dos canteiros de obra de Belém, foi organizada pelo sindicato da categoria, filiado a CSP-Conlutas. Durante a manifestação, além de prestarem o apoio e solidariedade às famílias das vítimas, os trabalhadores levaram uma pauta de reivindicações emergencial aos empresários e ainda um conjunto de denúncias, aprovadas durante a assembléia, com inúmeras indicações de problemas na execução de dez outros canteiros de obra na cidade.

O sindicato organiza para esta quinta-feira uma paralisação de toda a categoria para que os trabalhadores possam prestar sua homenagem aos dois trabalhadores que morreram.

Mais acidentes
Na tarde deste dia 2, em outro canteiro de obras, dois trabalhadores ficaram debaixo de escombros em decorrência do desabamento de parte da obra. Os dois foram resgatados com ferimentos, enquanto o Corpo de Bombeiros também analisava o grau de risco da construção.

Confira abaixo entrevista com o membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas, Atnágoras Lopes, também diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Belém, que esteve na cidade durante as manifestações:

Como se encontram os trabalhadores da construção civil de Belém hoje após o resgate dos corpos dos dois companheiros?
Atnágoras– Há um cenário generalizado de apreensão nesse momento na categoria, mas o sentimento mais forte é de solidariedade às famílias das vítimas e por isso a categoria vai paralisar suas atividades para prestar sua homenagem no sepultamento dos companheiros.

Durante as manifestações de segunda-feira foi realizada uma assembléia dos trabalhadores, onde foi aprovada uma pauta reivindicações e denúncias foram registradas junto ao sindicato dos empresários, quais os principais pontos dessas reivindicações?
As reivindicações imediatas foram: o abono dos dias de todos os trabalhadores presentes na manifestação; apoio e pensão às famílias dos trabalhadores soterrados; estabilidade no emprego para todos os empregados da Construtora Real Engenharia e o pagamento de periculosidade a todos trabalhadores da construção civil de Belém; além da liberação de toda a categoria no dia do sepultamento dos dois companheiros. Também solicitamos que seja feito e publicado um laudo pericial em todas as obras em execução na cidade.

E as denúncias?
Tínhamos na assembléia cerca de 2500 trabalhadores de dezenas de canteiros de obras localizados na área central da cidade. O que motivou a categoria a mobilizar-se foi, em primeiro lugar, demonstrar o apoio às famílias das vitimas e exigir punição aos responsáveis pela tragédia. Durante a assembléia vários trabalhadores passaram a apresentar notícias de indícios de problemas na execução de várias obras de grandes construtoras da cidade. Registramos todas as informações e as relatamos ao Sinduscon (Sindicato dos empresários do setor) na mesma ata em que registramos as reivindicações.

Que tipo de problemas eles citaram?
As denúncias informadas foram de rachaduras em vigas, pilares, paredes e revestimentos de vários prédios que estão em execução. Há ainda situações apontadas onde estão sendo realizados “encamisamentos” (reforços) de pilares, concentração de muito peso de entulhos em único pavimento de uma determinada obra e ainda a falta de técnicos de segurança em uma obra com mais de 500 operários, por exemplo. Ao todo foram citados supostos índicos de problemas estruturais em oito grandes obras e outras duas com denúncias de outra ordem.

Qual tem sido a reação dos empresários frente a essa situação?
Primeiro negaram-se a nos receber, mas depois, pressionados pela mobilização tiveram de nos atender. Na prática, como era de esperar, não atenderam de forma objetiva nenhuma das reivindicações e se “comprometeram” em realizar uma assembléia dos empresários para dar-nos o retorno em relação a nossa pauta. Demos publicidade do conteúdo da pauta e agora estamos providenciando as iniciativas jurídicas para cada tema.

Qual o resumo e a perspectiva que você faz e tem para esta situação?
O resumo é desastroso, é de uma situação que revela o grau de ganância desses empresários e o seu permanente descaso pelas nossas vidas. Eles se apóiam na confiança na impunidade, como ocorreu no Caso do Ed. Raimundo Farias, que há 23 anos desabou em Belém, matou 39 pessoas e até hoje ninguém foi punido. Minha expectativa é de que, apoiados na força da mobilização dos trabalhadores de nossa categoria, nós façamos desse momento um marco, não só de dor, mas de organização, de luta e de avanços nas condições de trabalho e que resulte na punição aos responsáveis, pelo menos é isso que vamos exigir das autoridades e dos órgãos competentes.