Eleições na Bolívia golpeiam planos do imperialismo

neste artigo, escrito antes da eleição em segundo turno, de Sánchez de Lozada como presidente da bolívia, é analisada a grande votação alcançada pelo candidato do MAS, o dirigente cocalero
Evo Morales. As eleições demonstraram a força do movimento operário e camponês no país

No dia 30 de junho, a TV da Bolívia anunciava uma “surpresa” nas eleições presidenciais: a votação massiva de Evo Morales Ayma, do Movimento ao Socialismo (MAS), que obteve 21% dos votos e elegeu 35 parlamentares. Com este resultado, Evo disputa no Congresso, em 4 de agosto, a Presidência do país com Gonzalo Sánches de Lozada, candidato do principal partido burguês, o MNR (na Bolívia, quando nenhum partido alcança a maioria absoluta o Congresso escolhe entre os dois mais votados).
Semanas antes das eleições, a imprensa burguesa dava como certa a vitória de Manfred Reyes Villa, do partido de centro-direita NFR. Suas pesquisas apontavam o MAS em quarto ou quinto lugar. Após as eleições, os meios de comunicação e os partidos burgueses culparam o embaixador norte-americano Manuel Rocha de haver provocado um efeito bumerangue ao polarizar a votação, uma semana antes do pleito, declarando que se a população apoiasse Evo Morales perderia a “ajuda econômica“ dos Estados Unidos. Mas, se as declarações tiveram efeito, foi porque já existia um contexto polarizado.

Resultados refletem luta de classes

A votação no MAS é a expressão eleitoral do processo de ascenso que vive a Bolívia no contexto das lutas latino-americanas contra os planos do imperialismo. As lutas, encabeçadas pelos camponeses cocaleros e progressivamente acompanhadas pelos setores do movimento operário e popular das cidades, não só conquistaram reivindicações, como também em várias ocasiões, ameaçaram seriamente a continuidade do governo de Banzer. Sequer as eleições estavam garantidas. Pois em junho de 2001, foi necessária a colaboração da Igreja Católica e das principais direções sindicais para acordar a realização do pleito, através da chamada “Ata de Entendimento“.
Contudo, essa concessão não enfraqueceu a luta. Em janeiro e fevereiro deste ano, camponeses e cocaleros bloquearam as principais estradas e tiveram enfrentamentos com o Exército, conseguindo impedir a proibição do comércio da folha de coca e o processo judicial contra Evo Morales. Em março e abril, os professores fizeram tremer as ruas do país com suas manifestações por aumento salarial e em maio e junho, setores indígenas chegaram em marcha até La Paz em protesto contra a agressão a seus territórios por parte das transnacionais. A luta mais significativa foi a greve dos mineiros de Huanuni, que arrancou do governo a reestatização dessa mina e da empresa de fundição de estanho Vinto.
Foi nesse marco que ocorreu a votação em Evo Morales e, em menor escala, Felipe Quispe (do MIP, que obteve 6% dos votos e elegeu seis deputados). As massas expressaram nas urnas o que vinham fazendo nas ruas: seu rechaço à fome, ao desemprego, à entrega do país às transnacionais imperialistas e aos planos do FMI.

A questão do poder

A votação do MAS não foi só cocalera e camponesa, como quer mostrar a imprensa burguesa, mas generalizada, aparecendo com força a votação operária e popular. O MAS ganhou em quatro das cinco cidades e províncias com maior presença de trabalhadores: La Paz, Cochabamba, Oruro e Potosí e obteve importante votação em Santa Cruz. Por isso, podemos dizer que os resultados são uma contundente vitória dos trabalhadores do campo e da cidade e um golpe nos planos do imperialismo e de seus servos nacionais.
Pretendeu-se utilizar essas eleições para desviar a atenção do ascenso e sanar a crise política da burguesia. Entretanto, os resultados eleitorais aprofundaram a crise pela divisão entre os partidos burgueses e o fortalecimento de uma corrente operária e popular forjada nas ruas e agora também expressa no Parlamento. As massas trabalhadoras, ao colocar Evo Morales e o MAS como a segunda força política do país, obrigaram a burguesia não só a disputar a Presidência no Congresso, como também apontaram objetivamente para a luta pelo poder real no período que se abre.
Post author Jaime Gutiérrez e Emilio Madrid,
do Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), da Bolivia
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