Duas marchas, um mesmo erro

Nos dias 16 e 22 de novembro, irão ocorrer duas marchas do movimento negro a Brasília. A Secretaria de Negros e Negras do PSTU não estará presente em nenhum desses eventos e isso merece uma explicação.

Os dois “atos” são chamados de Marcha Zumbi + 10 (uma referência ao ato que reuniu 20 mil pessoas, na Capital Federal, em 1995), mas ambos incorrem no mesmo erro: querer transformar um dia de luta numa “festa” para celebrar as pífias medidas adotadas por Lula em relação à questão racial.

Desde as primeiras reuniões de organização da Marcha, o caráter governista do evento foi questionado por inúmeras entidades, inclusive por nós do PSTU. A existência de dois atos não foi motivada por isso e, sim, por questões burocráticas.

No dia 16, tendo à frente o senador petista Paulo Paim, algumas das principais ONG’s negras – como o Geledés, o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) –, com o apoio de vários governos municipais e estaduais, irão a Brasília para entregar “uma pauta de reivindicações” ao governo e ao Congresso. Na verdade, pretendem transformar o ato numa grande festa para comemorar a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, proposto por Paim e aprovado em uma comissão do Senado, no último dia 9.

No dia 22, será a vez da CUT, da UNE, do Conselho Nacional de Entidades Negras (dirigido pelo PT), da Unegro (PCdoB) e de setores do Movimento Negro Unificado (MNU) confraternizarem-se com a Secretaria Especial de Políticas para Promoção da Igualdade Racial (o Seppir). Contando com apoio da direção do PT, o ato tende a ser outra grande festa, com a participação de membros do corrupto governo Lula.

Sabemos que é muito provável que negros e negras que se opõem ao governo, desavisados do real caráter das Marchas, participem delas. Contudo, é importante que estes setores saibam que não terão sequer o espaço democrático para expressar suas posições, algo que já ficou evidente nas reuniões preparatórias.
Por essas e outras, consideramos um erro engrossar as fileiras de atos que têm como principal objetivo legitimar uma farsa: a de que o governo tem feito alguma coisa no real combate ao racismo.

Muito pelo contrário, Lula não é nosso aliado nesta luta. Sob o governo petista, negros e negras continuam recebendo os piores salários, são a maioria dos analfabetos, dos desempregados e dos “sem-carteira”, daqueles que moram em condições de risco e não têm acesso à saúde digna.

Por mais que alardeie, a existência do Seppir ou a realização de uma Conferência Nacional, a verdade sobre esse governo é que ele contribui para o aumento do abismo racial no país ao aplicar medidas neoliberais que aprofundam a miséria dos trabalhadores, afetando particularmente aqueles que foram historicamente marginalizados.

Por mais que fale em igualdade racial, Lula e seus capachos promovem a desigualdade ao desviarem verbas para seus bolsos e para o FMI, para o grande empresariado e os banqueiros.

Lula, seu governo e aliados pisoteiam a História de nosso povo ao promover a entrega do quilombo de Alcântara aos estrangeiros e ao ocupar o Haiti, símbolo da luta do povo negro contra os sistemas opressores.

Por isso, não temos nada a comemorar. Muito menos ao lado de representantes deste governo. Com eles, não há “acordo” possível.

Faremos, sim, homenagens a Zumbi e a João Cândido, mas nos marcos das lições deixadas por eles: na luta contra o sistema e todos aqueles que se beneficiam dele.

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