Donizete de Almeida: ‘Esse é um dos maiores atentados contra o movimento operário’

Donizete falando aos operários durante a greve da Revap
Diego Cruz

Após um dos mais violentos atentados contra o movimento sindical desde a ditadura militar, a Conlutas e os operários da Revap atacados a tiros fizeram uma reunião para debater o fato. O objetivo era organizar uma campanha de repúdio ao crime e de exigência de apuração e punição exemplar dos responsáveis. O Portal do PSTU entrevistou Donizete de Almeida, um dos alvos dos bandidos. Ele teve todos os seus documentos roubados pelos criminosos. Donizete é diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e membro da Conlutas. Esteve na mira por ter sido um dos principais apoiadores dos operários da Revap durante a greve, enquanto o sindicato virava às costas à categoria.

Portal do PSTU – Você foi um dos principais alvos do atentado à sede da Conlutas. Como foi isso?
Donizete de Almeida
– Eles invadiram às 18h do dia 1º de agosto. Nós estávamos fundando a Associação de Ajuda Mútua e solidária dos Trabalhadores da Revap da Construção Civil do Vale do Paraíba e do Litoral Norte. Era um grupo de pessoas de alta estatura, fortes, armadas. Alguns estavam, inclusive, encapuzados. Uns vinte entraram no local onde estava se realizando a assembléia de fundação da associação, soltando foguetes e atirando nas pessoas. Foi baleado um companheiro cipeiro, dirigente da comissão da greve. Eles deram um tiro em mim que por pouco não acertou na cabeça. Destruíram o caminhão de som do Sindicato dos Metalúrgicos, o carro do sindicato que estava comigo e o carro de uma professora de informática, de uma escola que fica próxima ao local.

Levaram toda a documentação relativa à fundação da associação: ata, edital, estatuto, lista de presença. Hoje nós já tivemos as primeiras vítimas. Três candidatos a cipeiros da empresa Santa Bárbara, que assinaram a lista, foram demitidos hoje às 9h30, confirmando que há um quarteto neste processo do atentado à nossa sede e à fundação da associação: entre o Sindicato da Construção Civil, a Central Única dos Trabalhadores, as empreiteiras e a Petrobras.

Eles chegaram a me agredir, mas o tiro não me acertou. Eles acertaram o companheiro Bahia, deram cadeirada e tudo. Atiraram em outros companheiros, acertaram as paredes. O povo se dividiu em vários grupos. Um grupo foi para baixo do caminhão de som. Foi quando eles arrebentaram o caminhão. Outro grupo foi para trás dos carros e um outro entrou na sala. Quebraram toda a nossa sede. O tempo que eles levaram para fazer essa ação foi de cinco minutos. Em cinco minutos, eles fizeram tudo isso.

A que você atribui esse crime?
Donizete
– Esse é um dos maiores atentados contra o movimento operário. A gente não tem lembrança de um atentado parecido. Ele vem no sentido de intimidar tanto a Conlutas quanto os trabalhadores da construção civil que estavam se organizando para poder resistir, defender seus direitos, lutar por melhores condições de trabalho. E os suspeitos de tudo isso estão entre o sindicato da construção civil, de quem nós já exigimos uma explicação pública, a Central Única dos Trabalhadores e, também, as empreiteiras e a Petrobras, que estavam dentro do processo de conflito, realizando demissões. Nós exigimos dos presidentes da CUT nacional, estadual e regional, uma explicação categórica, condenando esses métodos e afirmando que a central não tem nada a ver com isso.

Como está o clima entre os trabalhadores depois disso?
Donizete
– Nós estamos tocando a vida. Fundamos a comissão no mesmo dia, nós conseguimos concluir a fundação. Agora nós estamos conversando com os trabalhadores e a luta continua. O que está preocupando muito a todos nós é a segurança tanto dos dirigentes da Conlutas, quanto dos trabalhadores que estão a frente desse processo. Mas nós não vamos parar nosso trabalho com esse atentado. Pelo contrário, estaremos nos precavendo, tomando todas as medidas necessárias, inclusive exigindo das autoridades, do governo Serra, do governo Lula, do ministro Tarso Genro, uma investigação que condene e pegue os culpados.

O método do vale-tudo, de resolver as diferenças e as divergências na bala, no cacetete e com assassinatos não é o nosso método e nós condenamos isso. Nós não vamos aceitar. Chamamos todos aqueles que têm o mesmo pensamento da Conlutas a se somarem a nós, independentemente de filiação ou não política. Isso tem de ser repudiado, investigado, punido com toda a força possível.

A reunião de ontem definiu alguma ação?
Donizete
– Ontem a tarde, dois procuradores do Ministério Público Federal entraram com uma ação exigindo a suspensão de todas as demissões, multando a empresa em R$10 mil por trabalhador demitido e R$50 mil de indenização por danos morais contra os trabalhadores. Também cobra uma multa de R$50 mil por dia de obra parada pela empresa. Nos estamos com uma reunião marcada quinta-feira, dia 8, na Câmara dos Vereadores, devido ao pedido que nós fizemos para que os vereadores convocassem a Petrobras para dar uma explicação.

Amanhã a gente tem uma audiência do interdito proibitório, em que a gente vai entregar um dossiê, inclusive denunciando o atentado e cobrando das empresas uma explicação pública. O julgamento vai ser amanhã às 8h30 da manhã. No dia 20 de agosto, vamos realizar aqui na Câmara Municipal um ato condenando esse episódio, este triste acontecimento. Queremos protestar contra os interditos proibitórios e a criminalização dos movimentos sociais e das lutas. Queremos convidar entidades de todo o país, personalidades e, também, delegações internacionais que possam comparecer.

Matéria atualizada em 6/8/2008, às 13h08