Doenças do trabalho denunciam o aumento da exploração

Algumas doenças que afetam os trabalhadores

Sintoma da superexploração em pleno século 21, as doenças do trabalho afetam praticamente todas as categorias de trabalhadoresNa GM, o trabalho de um metalúrgico da MVA (Montagem de Veículos Automotores) lembra as famosas imagens do filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, capa desta edição do Opinião. É neste setor que o carro vai ser montado. Os operários vão soldando e “rebitando” as diversas partes. O carro vai passando e cada um vai colocando uma parte. O ritmo é alucinante.

No filme de Chaplin, o operário não consegue acompanhar o ritmo e vai caindo sobre os demais, atrasando a produção. Volta e meia, um encarregado aparece e grita com ele. Na MVA, o “berro” é eletrônico. Quando um operário não consegue acompanhar o ritmo, primeiro uma luz acende num painel, anunciando que há algo errado na linha. Cinco minutos depois, caso o “problema” persista uma música irritante dispara em toda a linha.

Na década de 1990, a General Motors produzia 48 carros por hora. Essa era a meta. Clóvis Fernandes de Souza, ou “Cobrinha”, como é conhecido, entrou na empresa nesta época, em 1997. Com uma empilhadeira, ele abastecia o setor de funilaria. “O ritmo é alucinante e o peso é muito excessivo”, conta Clóvis. Como todas as montadoras, a empresa passou por um processo de reestruturação da produção. A produção aumentou e a GM passou a produzir 53 carros por hora. Ele começou a sentir dores nas costas, desenvolveu lesão nos ombros e perdeu parte da audição do ouvido esquerdo.

Clóvis procurou o médico da empresa, que constatou a lesão. Mesmo assim, Clóvis foi mandado embora em 2003. “Quando a empresa descobriu que eu estava doente, pelos atestados que eu levava, ela partiu para a ignorância e me mandou embora”. O metalúrgico, assim como outros lesionados, encabeçou a lista de 600 operários demitidos naquele ano. “A gente se sente discriminado. Para a empresa você não serve mais, é descartável”, reclama. O sindicato conseguiu reverter a demissão e o operário foi reincorporado à empresa em outra atividade.

Explodem os casos de doenças ocupacionais
O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos realizou, recentemente, uma pesquisa na fábrica da GM sobre doenças do trabalho. Os resultados são assustadores. As Lesões por Esforços Repetitivos se generalizam. Do universo de 574 pesquisados, 67% apresentam dores no pescoço e nos ombros, 54% lesões no ombro e 39% com problemas de coluna.

“Os problemas mais comuns entre os metalúrgicos são lesões nos ombros e colunas”, afirma a advogada especializada em Saúde e Segurança do Trabalho Maria Elvira Mariano. Na planta da GM em Gravataí (RS), considerada a “planta modelo”, a mais moderna do país, a situação é ainda mais alarmante e nada menos que 30% dos trabalhadores são lesionados.

Precarização em São Bernardo do Campo (SP)
Doenças de trabalho, estresse e até mesmo acidentes com mutilações fazem parte da dura realidade dos operários da Volkswagen de São Bernardo do Campo (SP). Em 1996, a empresa impôs o banco de horas. A medida foi apoiada pelo sindicato ligado à CUT. Como conseqüência, mais de 12 mil postos de trabalho foram eliminados.

Carlos (omitimos o nome verdadeiro para evitar retaliação) trabalha na Volks há 20 anos. Desde novembro, porém, ele está afastado por problemas de coluna. Até agora não sabe se vai retornar ao trabalho. Ele acredita que está lesionado devido aos esforços repetitivos no trabalho. “Estou lá há quase 20 anos. No começo trabalhava na área de motores e câmbio, onde se carregava muita peça pesada. Você trabalha num ritmo acelerado e acaba adquirindo esses problemas”, disse. Seu caso se soma aos inúmeros outros que existem na fábrica. “Quando vou ao médico encontro muitas pessoas da Volks com esse problema, de vários setores”.

O operário explica que, além de fazer sua jornada normal, muitas vezes tinha de trabalhar mais. “Antigamente, eram horas extras, hoje é o banco de horas. Eles pedem pra gente trabalhar um pouco a mais nos sábados ou estendendo um pouco mais nossa jornada.”

Bancários sofrem com pressão
As doenças ocupacionais não são exclusividade dos metalúrgicos. De acordo com dados divulgados recentemente pelo Ministério da Previdência, os bancários lideram os pedidos de auxílio-doença. A categoria sofre com a pressão cada vez maior nos locais de trabalho, a exigência de metas de vendas e a imposição de horas extras. Só em 2006, foram concedidos 414.591 benefícios além de 260.211 aposentadorias por invalidez. Os principais problemas que afetam os bancários é o trabalho repetitivo em excesso, má postura e estresse.

A precarização das condições de trabalho dos professores, principalmente da rede pública, faz com que a categoria esteja sujeita a diversos tipos de doenças, principalmente doenças mentais provocadas pelo alto nível de estresse. Afinal, os ataques dos governos ao ensino provocaram salas de aula superlotadas e aumentaram o trabalho do professor, seja em sala ou preparando aulas e corrigindo provas. No Piauí, por exemplo, uma das doenças que mais afetam os professores é a síndrome de Burnout, marcada por um estado de completa exaustão física e emocional.

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