Direto do Egito V: A mesa de negociação e a praça

Membro do Comitê dos Artistas Revolucionários exibe desenho com Mubarak deixando o país em um avião
Luiz Gustavo Porfírio

A negociação entre grupos de oposição e o vice-presidente Omar Suleiman gerou especulações de todo o tipo. No entanto, a equação básica pareceu desaparecer na maioria das análises. Os auto-intitulados “homens sábios”, partidos da oposição e a Irmandade Muçulmana só sentam-se agora à mesa devido a uma revolta tremenda, que ameaça o poder. O poder negocia porque quer parar a revolta. Os negociadores da oposição, portanto, tem de conseguir cessar os protestos, como contrapartida. Ou eles são capazes de fazer isso, diretamente, ou esperam contar com seu gradual esvaziamento.

Na praça, artista mostra desenho onde Mubarak deixa o país em um avião
Intrigado por essa matemática, voltei à praça nesta segunda. Uma extensão ampla de barracas e lonas esticadas dava a impressão de uma presença persistente. Mas ainda ficava a dúvida se, com o sol mais alto, a praça chegaria a encher: não era dia santo e muitos teriam que retomar o ritmo habitual, com comércio e serviços funcionando. Ao meio-dia, o fôlego aumentava com a primeira grande reza, e até o fim da tarde o volume de manifestantes afastava o risco de esvaziamento.

Porém havia outro elemento, essencial: os manifestantes aceitariam a proposta? Com luvas médicas, em uma barricada, o estudante de medicina Mohammed Laban pareceu concordar… “Se houvesse pessoas nossas na transição, aceitaria”, afirmou ele, sem nem mesmo se importar em deixar Mubarak mais alguns meses. “Ele é um fantasma, quando acabar seu mandato irá evaporar e estará morto para o povo egípcio”, garantiu, mas lembrou: “As pessoas que negociam por nós têm que saber que odiamos a polícia e o ditador.

Essa declaração contrasta com todas as faixas, cânticos, expressões de raiva e revolta com Mubarak. A praça continuava fervilhando de agitação espontânea, velhos fazendo discursos inflamados, pais e mães carregando cartazes com as fotos de seus filhos mártires, jovens em todos os lugares preparando cartazes com frases criativas, grupos de teatro, com sátiras ao ditador, o último faraó.

“Ninguém aqui vai negociar em nosso nome, se não for só depois que Mubarak cair!”, gritou indignado Sherif Mickawi, dirigente do grupo estudantil do movimento 6 de abril e também do grupo Keffayah (Basta!). Eu insisti, perguntando o que poderia acontecer se ele cair: “Está tudo em aberto, tudo em aberto.”

Eram perspectivas melhores. Mas não bastaram. Ainda pouco acostumado a um ato sem bandeiras de partidos e panfletos de cada grupo, me inquietava também a aparente ausência de um grupo de direção. Se o vácuo de poder não existe no Estado, muito menos existiria em uma mobilização de massa ameaçada por este.

E foi por esse raciocínio que tomei uma bronca de Ola Shahba, uma jovem que faz parte da Coalizão da Juventude da Revolução, que reúne seis grupos de juventude. “Estamos há um mês e meio em reuniões semanais, e diárias desde que viemos para a praça. Nós que chamamos isso tudo. Nós que organizamos o som desse palco. Que criamos as brigadas para limpeza, provisões, atendimento médico!” Havia direção, estava claro. E sobre a pouca aparição no debate sobre a transição? “Não nos interessa aparecer ou negociar enquanto Mubarak não cair”, foi a resposta decidida.

No que depender da massa ali hoje, pelo 14º dia consecutivo, Ola será atendida. E outros partidos da oposição que tentam falar em nome do movimento talvez também tenham que reconhecer a mensagem. Hoje, o Partido Nasserista foi o primeiro a se retirar da mesa de negociação. Outros o seguirão, ao descobrirem que não podem entregar o peixe que venderam.

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Ainda não satisfeito com o material dessa reportagem, liguei pouco antes de fechar para um dirigente do movimento 25 de Janeiro, que também integra a Coalizão. “Há 1 milhão e meio de egípcios na praça, falando uma única coisa simples, e você quer ouvir 5 que estão numa mesa de negociação?”. Depois da última bronca do dia, ouvi dele que na sexta-feira a coalizão teria novidades para o mundo.

Luiz Gustavo é historiador, pesquisa a causa palestina e a luta do povo árabe, e viveu no Líbano e outros países da região. Luiz é militante do PSTU e da LIT-QI e está no Egito desde o dia 2, como enviado especial do jornal Opinião Socialista. A cobertura será feita através de textos e conversas por telefone, disponíveis no portal do PSTU e no blog http://umbrasileironoegito.wordpress.com. Além disso, pequenos informes serão enviados pelo twitter, na conta @diretodoEgito.
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