Direto de Londres, o dia-a-dia dos protestos

O Reino Unido vem passando por uma série de manifestações contra a agressão imperialista. Com a contra-ofensiva de Blair e Bush para invadir o Iraque, várias manifestações ocorreram. Com a queda de Bagdá, elas continuam. Acompanhe o relato e as opiniões e veja as fotos de Milton Sattler, um estudante brasileiro que mora em Londres, acompanha as manifestações e colabora com o nosso site.

  • Quinta-feira, 1 de maio

    `FotoDuas manifestações foram convocadas para o Primeiro de maio em Londres. A Our May Day foi chamada por um movimento que reuniu diferente facções, chamando ações independentes contra o capitalismo, tendo como alvo empresas de petróleo, bancos, armamento, empresas americanas e governo). A coalizão Stop War convocou uma passeata e depois um ato político. O dia primeiro de maio foi um dia ‘normal’ de trabalho e o feriado aconteceu na segunda dia 05 de maio – aqui todos os feriados são comemorados às segundas.

    Cerca de 3.000 pessoas compareceram ao ato do Stop War na Trafalgar Square. O eixo era contra a ocupação do Iraque e a privatização da saúde. Achei o ato convocado pelo Stop War o mais calmo primeiro de maio que eu presenciei aqui em Londres. Parecia que a prática de fazer passeatas tinha se perpetuado. Era só caminhar, gritar meia duzia de palavras-de-ordens, ouvir os discursos da direção e voltar para casa, sem ações mais concretas contra o governo.

    A própria direção não compareceu em peso no ato. Era também as eleições gerais para os Concils (Espécie de Administração Regional). E George Galloway, um dos membros mais destacados da direção do movimento, está sendo acusado de receber dinheiro de Saddam Hussein através do programa Comida por Petróleo, desenvolvido pelas Nacoes Unidas. O estranho é que os misteriosos documentos apareceram nas ruínas do Ministério de Informação iraquiano e foram descobertos por um jornal burguês, o Mail Telegraph. A imprensa burguesa fez grande barulho com essa informação, falsa ou nao. Ele será investigado por uma comissão do New Labour (partido de Tony Blair) que poderá expulsá-lo, e pelo governo, que poderá condená-lo por traição.
    De fato, Galloway tem sido um dos mais ferozes defensores contra a guerra e tem atacado publicamente Blair e Bush. E esses documentos podem ter sido forjados pelo Mail Telegraph, ou pela CIA, ou pela polícia secreta de Israel. Agora é esperar o desenrolar das investigações.

    A programação do Our May Day era o que a polícia e a imprensa burguesa vinham chamando de radical. Eles prometiam transformar o Primeiro de Maio em dia de luta e protesto contra o capitalismo. O protesto começaria às 10h30, na frente da Dolce & Garbanna, contra a crueldade contra os animais; às 14h, em frente do escritório da LockHeed Martin, a maior companhia vendedora de armas do mundo, e depois no Ministério do Interior. Às 16h, todos iriam para o escritório central da Shell. O último protesto seria às 21h, em frente à sede do Canal 4, por este ter vetado a transmissão de um documentário sobre a violência policial chamado ‘Injustice’. Os estudantes também se reuniriam para protestar contra o aumento das mensalidades.
    Ja eram 15h30 e eu me sentia muito mais assistindo a uma missa do que em um ato de Primeiro de Maio. Eu sabia que estava no lugar errado. Fui procurar saber aonde era o prédio da Shell. O prédio não era longe da Trafalgar Square. De repente uma multidão estava convergindo para aquela direção. De longe eu podia avistar o cordão de isolamento da polícia. Fui me aproximando e já dava para ouvir a batucada do que parecia uma escola de samba. A polícia cercava de um lado e de outro. Ninguém entrava ou saía. A polícia estava tentando empurrar os manifestantes para a Trafalgar Square. Os manifestantes conseguiram escapar por uma das ruas laterais e foram correndo para as bandas da Picadilly Circus, área de cinemas e shoppings e com muitos turistas. O grupo se dividiu e a polícia ali marcando corpo a corpo com os manifestantes. A tática da policia é tentar concentrar todos na Trafalgar Square. Com esse propósito eles iam fechando ruas que não convergissem para lá. A polícia estava violenta e provocativa. Muitos deles tinham tido seu dia de folga cancelado para reforçar o contingente policial colocado nas ruas.

    Acabei voltando para a Trafalgar com os manifestantes, mas esses já estavam dispersos. De novo ouvi um tumulto e era outro grupo de manifestantes vindo de outra direção, no meio de policiais que os mantinham isolados. A rua se transformou numa rave. Alguém trouxe uma bicicleta com toda uma aparelhagem de som. Em torno dela se reuniu um grupo grande para dançar. Aos poucos a polícia foi relaxando e as pessoas podiam sair e entrar sem maiores problemas. Por outro lado a policia vinha anunciando que depois da 19h05, se a rua não fosse desocupada, todos seriam presos. Ninguém deu bola e se encarava o fato com ar de deboche.

    `FotoPouco depois, todos correram em direção a loja da Boots (uma das maiores redes de farmácia). Tentaram invadir, a polícia meteu o cacete e fez algumas prisões. Eu estava atrás fotografando. De repente outro cordão policial veio por trás e cercou. Ninguém podia sair ou entrar. Foram uma hora e meia encurralados em um corredor estreito de um lado a outro da rua. Esse tempo parecia interminável. Tentei me manter juntos com outros repórteres e saber quais eram as nossas perspectivas. Foi chegando a tropa de choque e substituindo a policia. De repente a tropa de choque invadiu no meio da rua e colocou todos contra a parede. Ninguém entendia exatamente o que estava acontecendo. Suponho que queriam prender alguém que estava ali no meio.
    Tivemos a informação que seriamos liberados de dois em dois. O que aconteceria depois ninguém sabia e eu estava com medo de perguntar. A vulnerabilidade de ser estrangeiro é barra.

    De onde eu estava, vi a tropa de choque formando um corredor. Começamos a caminhar em direção a saída e tínhamos que passar de cara com os policiais da barreira. O medo de que algum tulmuto acontecesse nesse momento e eles descessem o cassete era grande. Mas nao havia opção. Quando chegou a minha vez de sair, senti um frio na barriga. Se fosse no Brasil provavelmente iam descer o cassete na gente. Quando pisei no corredor um policial agarrou meu braço e me levou até dois policiais militares que me escoltaram até o fim de uma das ruas. Eu já esperava a prisão. Mas no fim estavam liberando todo mundo. Provavelmente so iriam deter quem havia se destacado na manifestação. Cerca de 30 pessoas foram presas.
    No final me senti aliviado. Essa foi por pouco!

  • Sábado, 12 de abril

    “Bush, Blair e CIA quantas pessoas vocês mataram hoje?”

    `Foto
    A queda de Bagdá deixou-me com um sentimento de tristeza. Foi frustrante ver os aliados derrotarem as tropas do Iraque. Não que isso não fosse provável, mas sempre restava uma esperança de o imperialismo levar uma lição como no Vietnã.
    Achei, que com isso, a manifestação nacional contra a guerra, convocada para o dia 12 de abril, seria esvaziada. Mas para a minha surpresa a manifestação foi bastante forte e teve dois pontos de partidas. Um próximo a Estação Victoria e outro na de Waterloo. As duas se unificariam em frente do parlamento e da residência oficial do governo. Ali se simularia a morte dos milhares de iraquianos nessa guerra e também se levariam flores para serem deixadas em memória dos mortos. Também foi feito um minuto de silêncio.
    Tem ficado cada vez mais clara a forma de dirigir o movimento e de mobilizar, da direção do Stop War, e que não e muito diferente da Articulação no Brasil. Substituindo a mobilização da classe trabalhadora, como greves e ocupações, por ações participativas e pragmáticas na sociedade. É preciso se mobilizar, mas ao mesmo tempo, manter a estrutura política burguesa. Senão, como participar das eleições?
    Quando cheguei em Waterloo percebi que o sentimento contra a guerra e a invasão do Iraque continuava forte e fui vendo muita gente chegando. Era um dia lindo e ensolarado em Londres e muita gente estava lá para dizer não à guerra, não à invasão, não à Bush e Blair. Mas do que tudo dizer não a globalização e suas futuras guerras. A manifestação reuniu cerca de 200 mil pessoas que marchariam ate Hyde Park para o ato político.

    As manifestações têm se tornado algo constante na vida de Londres. Tem um grupo acampado permanente na frente do Parlamento (onde fica o Big Ben e é um dos pontos altos do turismo), ali também a Women Strike (Mulheres em Greve ) instalou um microfone (de segunda a sexta das 5h30 as 19h) para quem quisesse falar contra a guerra, mas a prioridade era para as mulheres falarem. Têm manifestações ocorrendo em diferentes partes do país, inclusive em frente às bases aéreas que abastecem os B52s. No encontro entre Bush e Blair na Irlanda, foram cerca de 3.000 manifestantes e pelo menos sete foram presos. Pretendia se discutir a questão da paz na Irlanda, mas no final tiveram que se concentrar apenas nas questões da Guerra, como a reconstrução do Iraque.

    Enquanto caminhava na manifestação, recebi uma convocatória para o Primeiro de Maio. Por acaso durante a semana tinha lido um artigo reacionário na imprensa burguesa que alertava para a existência de um grupo de pessoas que estavam organizando um Primeiro de maio mais radical e que a polícia estava monitorando-os. Com alguns alvos como LookHeed Martin (a maior companhia de arma do mundo), Shell UK e o Home Office (o queria o nosso ministério do interior) eles prometem serem bem mais ousados. Confrontando-se com a convocatória do Stop War para um ato dentro da ordem. Esse Primeiro de Maio promete ser bastante agitado por essas bandas.

  • Sábado, 05 de abril

    `FotoO ato contou com a presença de pelo menos 3.000 pessoas, que se reuniram na frente da sede da BBC, contra a maneira mentirosa que esta vem apresentando as notícias sobre a Guerra. A tv estatal inglesa cobra uma taxa anual de £101 (cerca de R$ 540) para as pessoas poderem ter TV em casa. Quem tem TV e não paga, se for pego tem que pagar uma multa de £1000 (cerca de R$ 5.400). O ato marchou até a embaixada norte-americana. A polícia agiu de forma repressiva impedindo que os manifestantes ficassem na rua ou mesmo na praça em frente da embaixada. Os manifestantes foram isolados de um lado da rua por grades e um cordão policial. Dessa forma a polícia pôde garantir que o tráfego pudesse funcionar normalmente. Ali mesmo foi montado um palanque para que a direção do movimento pudesse falar. Foi bastante ressaltada a posição dos parlamentares ingleses que votaram pela Guerra, a postura surda de Blair e os gastos dessa guerra em comparação com o que se gastou em ajuda humanitária – só os EUA gastam 120 vezes mais em bombas do que em ajuda humanitária para o Iraque.

    Apesar de ter defendido a desobediência civil, ocupação de locais de trabalho e escolas, a direção reformista do movimento (Stop War) não tem feito nada para concretizar isso. Em vez de aproveitar a oportunidade para desafiar esse governo entreguista e sua polícia repressiva, a direção mais uma vez aproveitou a via democrática e garantiu o seu espaço na calçada. Após o ato político, mais uma vez a proposta era voltar para casa e organizar a próxima atividade.

    `FotoMas para um setor, a luta contra essa guerra imperialista não terminaria ali. Os manifestantes foram caminhando em direção da estação do Metrô de Bond Street, como se cada um fosse tomar o caminho de casa. Não se sabe como começou. Mas as pessoas foram se reunindo e sentando no chão. Parou-se o trânsito nos dois sentidos da Oxford Street, uma das ruas comerciais mais movimentadas de Londres, e na rua que cortava a mesma. A polícia chegou logo e agiu de forma violenta e enérgica. Eles fizeram um cordão de isolamento entre os manifestantes sentados e os que estavam na calcada. Os pedestres foram parando e também foram gritando e aplaudindo os manifestantes que mostravam faixas e cartazes contra a Guerra. A polícia primeiro tentou convencer os manifestantes a deixarem o trânsito livre, mas as ameaças não eram suficientes para intimidar aquelas vozes contra a opressão imperialista. Começaram a chegar mais policiais e se falava em prender todos. Outro cordão policial foi feito em torno do já existente. Aí a polícia começou a pegar na marra os manifestantes e joga-los na calçada. Pelo menos uma pessoa foi presa e será enquadrada pela lei britânica.

    Acontece essa semana algumas manifestações regionais e no sábado, dia 12, a manifestação nacional. Agora é esperar que essa vanguarda supere essa direção reformista e construa uma alternativa de direção real para o movimento.

  • Quinta-feira, 27 de março
    Hoje ocorreu uma manifestação na frente da Embaixada dos Estados Unidos. Eram cerca de 500 estudantes, gritando slogans com “Blair e Bush, quantas pessoas vocês já mataram hoje?“ e “Fora Blair“. A manifestação contou com forte pressão da polícia, que queria desbloquear a rua e liberar o tráfego. Nao houve incidentes, mas os estudantes tiveram que ficar na praça em frente.

    Entre as várias pessoas que discursaram, estava um representante da NUS (National Union of Student) e um iraquiano. Durante todo o protesto, o microfone esteve liberado para quem quisesse falar.

    Para amanhã estão programadas algumas manifestações regionais em Londres, como a do sul da cidade, organizada pelo pessoal dos bairros daqui. Uma nova manifestação nacional está sendo convocada para o dia 12 de abril.

  • Sábado, 22 de março
    `MuçulmanosA manifestação contra a guerra reuniu pelo menos 750 mil, segundo os organizadores. A maior desde que começou a Guerra. O movimento está se fortalecendo e se politizando cada vez mais. O sentimento contra os Estados Unidos está crescendo. O que antes era um sentimento tímido, já esta sendo assumido pela direção do movimento. Também cresceu o sentimento em defesa da Palestina. O setor mais dinâmico da manifestação tem sido a juventude, mas todas as idades e setores têm se juntado. A participação dos muçulmanos tem sido massiva também.

  • Quinta-feira, 20 de março
    `TodasDe novo foi a vez dos estudantes serem a vanguarda. Foram milhares de estudantes parando suas escolas e marchando até o parlamento ao meio-dia. Alguns percorreram quilômetros para chegar. No seu caminho se juntaram os trabalhadores de alguns setores que aderiram ao movimento. Muitos não aderiram devido a pressões da chefia. No total foram 20 mil pessoas que passaram no Parlamento para protestarem ao longo do dia. O Parlamento e a residência de Tony Blair foram cercados e isolados por tropas policiais.

  • Quarta-feira, 19 de março
    Uma manifestação na casa do Ministro do Exterior, Jack Straw, teve repercussão nacional. Às seis horas da manhã, manifestantes, a maior parte com manchas nas roupas imitando sangue, acordaram Straw com barulho de bombas e sirenes, imitando os sons que a população iraquiana tem escutado desde o início dos bombardeios.

    Também neste dia foi as vez dos estudantes demonstrarem seu repúdio à Guerra. Cerca de 10 mil estudantes abandonaram as salas de aulas para protestar na frente da residência oficial do governo. Crianças do ensino primário se engajaram em parar suas escolas. Um pai orgulhoso contou a atitude de sua filha. Primeiro ela paralisou a sua sala e, depois, toda a escola saiu com ela para se juntar as outras escolas que já estavam parando. O diretor da escola chamou a polícia para prender a menina, de apenas 11 anos. O protesto se espalhou pela High School (Ensino secundário) e nas universidades. Os estudantes foram criando uma rede de informações na web para se comunicarem. Em outra escola, alunos começaram a desenhar mensagens contra a Guerra em suas mãos.

  • Terca-feira, dia 18 de março
    A votação no Parlamento para a participação do Reino Unido na guerra foi um momento difícil para Tony Blair, que viu seu partido dividir-se. Foram 122 parlamentares que votaram contra o Labour Party, partido de Blair. Ele só ganhou a votação porque o Partido Conservador votou em peso com ele. O presidente do partido no Parlamento renunciou. Blair ameaçou se demitir se a moção em favor da guerra não fosse aprovada. Outros parlamentares e ministros se demitiram. Todos os analistas políticos dizem que ele está arriscando sua carreira política. Do lado de fora, milhares de manifestantes gritavam “Não à Guerra e FORA BLAIR!”.

    Aparentemente o gabinete de Tony Blair está rachado e em crise. Não e só a guerra que tem deixado o governo Blair desgastado. A população também está insatisfeita com o colapso do sistema de saúde, o aumento de impostos e do preço das universidades, a ineficiência e lotação dos transportes públicos, etc. Como se não bastasse, o governo também enfrentou uma forte greve dos bombeiros. Foi esse sentimento contra o governo Blair que se materializou no um milhão nas ruas no dia 15 de fevereiro na maior manifestação da história do país.