Descaso natural: tragédia e hipocrisia em Santa Catarina

Cem dias de chuva. Cem dias para que os governantes evitassem o pior. Jeferson Choma, do Opinião Socialista, estava em Santa Catarina quando as águas começaram a tomar conta das cidades. Na estrada e em cidades como Florianópolis e Balneário Camboriu, ele escutou pedidos de socorro, viu pessoas deixando suas casas e acompanhou pelo rádio a tragédia e a hipocrisia das autoridades.

As águas começaram a recuar nas cidades atingidas pela enchente em Santa Catarina. Mais de uma centena de pessoas foram encontradas mortas em decorrência da chuva. Mas há inúmeros desaparecidos e é provável que o número possa aumentar nas próximas horas. Os desabrigados chegam a 78 mil, mas o número de pessoas afetadas é de 1,5 milhão, um quarto da população do estado. Os prejuízos humanos e materiais são incalculáveis. As imagens divulgadas pela imprensa dão a exata dimensão da tragédia.

Pela BR101, era possível ver cidades inteiras debaixo d´água. Pequenos barcos cruzavam ruas e avenidas, desviando de carros, postes e placas de trânsito. Fábricas e fazendas também estavam tomadas pelas águas. Em Itajaí, uma das cidades mais atingidas, foi possível avistar pessoas tentando fugir pela rodoviária inundada. Mulheres, velhos e crianças caminhavam com águas pelos joelhos entre contêineres e carros cobertos pela água. Cenas que lembravam muito o desastre causado em 2005 pelo furacão Katrina, em New Orleans, nos EUA.

Dias depois, a população faminta e desesperada realizou saques em supermercados. Na edição de 26 de novembro, o jornal O Globo chamou os saqueadores de ladrões. O que o jornal não disse é que faltam cestas básicas, e muitos comerciantes tentam se aproveitar da situação para cobrar mais pelos alimentos e pelos galões de água.
Desesperados com a falta de água e alimento, moradores de Itajaí procuram comida para a família até mesmo no lixo. “A realidade e é que não está chegando comida para todos”, reconheceu um major do Corpo de Bombeiros.

A cidade de Blumenau foi declarada pelos bombeiros como uma imensa área de risco, devido aos danos causados pelas chuvas. Pelo menos 95% da população da cidade ficou sem água potável. Ao menos 22 pessoas morreram e comunidades inteiras estavam isoladas no município.

Como em todo o estado, a população preocupa-se agora com os deslizamentos e com as doenças que poderão vir das enchentes, como a leptospirose, transmitida por ratos, e a própria dengue. Apenas no Estado do Rio de Janeiro (onde as chuvas também recomeçaram) a dengue atingiu 250 mil pessoas este ano, matando mais de 170.

Demagogia
Na medida em que as águas cedem, surgem não apenas as várias histórias de horror daqueles que perderem tudo, inclusive suas famílias. A responsabilidade dos governantes também começa a vir à tona.

Prefeitos e governadores não medem esforços para fazer populismo diante da tragédia. Como informa Alexandre Schwarz, morador da cidade de Navegantes, o governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) chegou a surgir num estúdio na TV com um colete salva-vidas para fingir que estava ajudando no resgate. Isso depois de pedir para que os turistas ficassem tranqüilos.

Também não foi possível acreditar no que ouvia, quando o governador do Estado deu uma entrevista à rádio Band, na manhã do dia 26, dizendo que Santa Catarina sofre com as conseqüências da poluição atmosférica e até de bombas atômicas.

Mas a tragédia enfrentada pelos catarinenses tem a ver com outras razões que estão além da mudança climática prevista pelo aquecimento global.

Chovia há mais de cem dias no estado. As chuvas se intensificaram a partir da sexta-feira, dia 21. Não era necessário ser um especialista para saber que desastres poderiam acontecer. Ainda mais numa região que possui um largo histórico de desastres causados pelas chuvas, como as enchentes de 1983. As autoridades e governos tiveram 100 dias evitar o pior, removendo a população de áreas de risco e mobilizando o possível em infra-estrutura para atender os desabrigados. Nada foi feito até as águas inundarem cidades e avalanches de lama arrastar residências.

Cortes
Embora Santa Catarina tenha registrado constantes desastres naturais – seis tornados e um ciclone desde 2004 -, as previsões de verbas estaduais para prevenir as conseqüências de desastres naturais caíram entre 2004 e 2011, (período de gestão de Luiz Henrique).

Em 2004, as verbas previstas foram de R$ 10,2 milhões. Em 2007, o valor caiu para R$ 9,6 milhões. A diferença representa uma redução de 6,7%.

O governo federal não revela o quanto destinou ao estado em verbas para a prevenção. Mas o total dos recursos disponibilizados nacionalmente é de insuficientes R$ 372,9 milhões. Insuficiente para construir, apenas em Santa Catarina, diques de contenção, canais e algum sistema de alerta eficiente que previna muitas mortes e prejuízos, se acionado em tempo hábil.

Como informa o Sindicato dos Trabalhadores da UFSC (SINTUFSC), “os projetos de engenharia necessários à prevenção de novos desastres na região de Blumenau são velhos conhecidos que nunca saíram do papel”. O sindicato também denuncia a continuidade dos desmatamentos que facilita os deslizamentos de terras. “Com dinheiro na mão, qualquer empresário compra licenças ambientais para seus empreendimentos especulativos na região litorânea”, diz.

Já depois da tragédia, o governo federal anunciou que vai liberar R$ 1 bilhão ao estado. Mesmo assim, a população está tendo de dividir as poucas cestas básicas que chegam. O curioso é que para salvar as montadoras – que tiveram altos lucros nos últimos anos – o governo abriu os cofres prontamente para liberar R$ 4 bilhões. Para salvar os bancos foram R$ 160 bilhões.

Além disso, dos 14 municípios de Santa Catarina que registraram mortos, apenas Itajaí assinou algum convênio com a União sob o governo Lula.

Na tarde do dia 27 de novembro, o presidente Lula viu de seu helicóptero o resultado desta política.

Solidariedade de classe
O maior desastre de Santa Catarina mobiliza a solidariedade de milhões. De todo o Brasil são enviadas doações de alimentos e agasalho para as vítimas da tragédia.

Muitos sindicatos e categorias também estão fazendo campanhas para ajudar a população do estado. Os servidores da Justiça Estadual do Rio de Janeiro, que acabam de sair de uma greve de 65 dias, prestaram seu apoio às vítimas das enchentes de Santa Catarina. Os servidores de Madureira, na capital, recolheram roupas e produtos de higiene pessoal, que foram entregues ao sindicato no dia 26 e serão enviados aos moradores das cidades atingidas. Os servidores de Petrópolis e Itaipava, região que costuma sofrer com as chuvas e deslizamentos, seguiram o exemplo. O Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro e o Sindicato dos Trabalhadores da UFSC (SINTUFSC) também tomaram medidas de apoio às vítimas das enchentes de Santa Catarina.

Toda essas justas ações de solidariedade devem vir acompanhadas da denúncia permanente das autoridades, entre elas o governo Lula, que age em favor das empresas e dos bancos, e não agem para prevenir tragédias como essa.

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