‘Depois que todos se forem, Mubarak, Suleiman… aí veremos’

Nesta terça, 8, na Praça, conversei rapidamente com lideranças da Juventude do Movimento 25 de Janeiro. Este movimento reúne vários outros grupos e movimentos de juventude, unidos desde o ataque dos bandos de Mubarak para resistir na Praça Tahrir. Nesta entrevista, eu converso com os estudantes Mustapha Fager e Asmaa Mohamady e com a atriz Mastoura. Nenhum quis entrar em detalhes sobre os protestos que serão feitos na próxima sexta-feira, 11, dia em que os manifestantes escolheram para ir até o palácio do governo. Foi uma conversa muito rápida, e, como em todas as entrevistas, há muito cuidado dos ativistas nas respostas, em não falar nada além do necessário. A tensão permanente mostra a responsabilidade destes jovens, que há 16 dias dormem em barracas e fizeram da Tahrir um símbolo mundial de resistência. Eles estão felizes com esse “governo paralelo”, que coordena o movimento dia e noite, num pulsar constante. Mas a tensão também existe, diante dos desafios dos próximos dias. Sobre a transição, os três reafirmaram que não reconhecem as negociações e não querem que o vice-presidente Suleiman assuma. E mandaram um recado: “vá embora junto!”

O que é o movimento 25 de janeiro?
Mustapha: Todas as pessoas aqui são 25 de janeiro, todos são 6 de abril, todos são uma só mão. Todos são egípcios. No entanto, o NDP [partido do governo] não é 100% egípcio, nem 50%, nem 25% egípcio. Só estão lá porque pagam.
Asmaa: Os candidatos pagam até 5 milhões de dólares cada para se candidatarem pelo NDP.

E vocês creem que alguém deles pode ficar no governo?
Mustapha: Deixe-me ser claro: não queremos Mubarak, nem nenhum grupo ligado a Mubarak. Suleiman nunca. Nós estamos aqui há 14 dias, organizados, é bonito. Ninguém conseguiu isso antes aqui.

Asmaa: Não fomos nós que queimamos a sede do NDP, aliás. Foram eles mesmos, para incriminar o movimento. E para queimar os arquivos que provavam a corrupção do partido.

Mustapha: Mubarak mandou muitos caras para matar os ativistas, para quebrar nosso ânimo.

E o que vai acontecer com essas pessoas, os agentes de Mubarak?
Mustapha: Suleiman disse que Mubarak tem um avião agora. Já preparam a saída dele, é verdade, mas não sabemos quem vai ficar. Dizem que Suleiman vai ficar, mas nós dizemos: “tome um assento junto com Mubarak nesse avião, vá também!”.

Vocês acham que ele vai ficar?
Mustapha: Acho que ele vai ficar, mas ouça, ele é muito perigoso.
Mastoura: É, ele é das forças de segurança, Suleiman é parte do velho regime. Ele é amigo próximo de Mubarak, todas as decisões dele passavam por Suleiman. Eles estão cozinhando tudo juntos.

No Brasil nós chamamos isso “terminar em pizza”!
Mustapha: (Risos) É, mas isso não é uma pizza, é o Egito. Você não verá nenhum povo como o egípcio. Nós somos inteligentes e fortes. Atiraram com armas, nós usamos as mãos. Nós poderíamos ter usado armas, mas não vamos, eles [militares] são nossos amigos, nossos irmãos.

E o que você acha que o exército fará?
Mustapha: Creio que o exército estará conosco. Todo o exército. Os generais com Suleiman agora vão ficar conosco.

Há negociações de partidos de oposição com Suleiman. Eles falam em nome do movimento? O movimento vai negociar com o governo?
Mustapha: Nós mandamos nossa mensagem ontem (manifesto distribuído na praça). Estamos fazendo grupos maiores, para ninguém falar em nosso nome que não nós. Ninguém agora fala como seu grupo para fora do movimento, será unificado.

Asmaa: Ninguém nosso está na negociação, eles não falam por nós. Ontem nós concordamos com a construção de um coletivo com membros de cada grupo para apresentar as reivindicações publicamente.

Mustapha: Nós criamos um governo paralelo. Nós temos conselheiros, ministros, até nossa polícia.

E esse governo paralelo pode propor alguma coisa diferente? Qual a vontade da praça Tahrir?
Mustapha: Depois que todos se forem, Mubarak, Suleiman, todos, aí nós veremos. Como a Inglaterra, que há uns 50 anos saiu definitivamente do Egito.

Luiz Gustavo é historiador, pesquisa a causa palestina e a luta do povo árabe, e viveu no Líbano e outros países da região. Luiz é militante do PSTU e da LIT-QI e está no Egito desde o dia 2, como enviado especial do jornal Opinião Socialista. A cobertura será feita através de textos e conversas por telefone, disponíveis no portal do PSTU e no blog http://umbrasileironoegito.wordpress.com. Além disso, pequenos informes serão enviados pelo twitter, na conta @diretodoEgito.
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