Depois que a banda passar

O povo brasileiro expressa sua alegria e irreverência no carnaval. A festa tem tamanha importância que se costuma dizer que o ano só começa depois do carnaval.

Seria bom se a dança e a festa este ano fossem maiores que em outros passados. Porque, depois que a banda passar, estará começando um ano muito difícil. Se 2008 deve entrar para a história como o início da crise econômica, 2009 será o ano em que o povo terá contato completo com ela.

A cada dia que passa, os números da crise se tornam mais assustadores. A Organização Internacional do Trabalho prevê que 230 milhões de trabalhadores ficarão desempregados pela crise. Uma catástrofe muito séria está ameaçando os trabalhadores. Mas o povo não sabe disso. Já sabe que a crise chegou, mas não tem ideia de sua gravidade.

Infelizmente, não são todas as máscaras que são tiradas ao fim do carnaval. As mais importantes não caem naturalmente, têm de ser tiradas.

A máscara de Lula, por exemplo. Os trabalhadores ainda acham que ele é um aliado que está no governo. E, por acreditar nele, aceitam a propaganda de que a crise será rápida. Como Lula é presidente, acham que ele ajudará os trabalhadores a não sofrerem os efeitos da crise.

Mais ainda: como acreditam no governo e na propaganda das grandes empresas e dos burocratas sindicais, uma parte significativa dos trabalhadores concorda em aceitar a redução de seus salários e direitos para “ajudar a superar a crise”. Foi dito para eles que, se aceitarem reduzir seus salários, poderão preservar seus empregos.

A verdade, infelizmente, é outra: estão mentindo descaradamente para os trabalhadores. A crise econômica já é a maior desde 1929 e pode ser ainda pior que aquela depressão. Já está atingindo com força o país e vai piorar (e não acabar rapidamente) nos próximos meses. Caso os trabalhadores não reajam, vão, além de ver seus salários reduzidos, perder seus empregos.

Os acordos que estão sendo impulsionados pelas empresas, com apoio do governo e das centrais sindicais pelegas, são uma manobra, um ataque duríssimo contra nós.

Os trabalhadores são levados à proposta de uma saída conjunta com os patrões para a crise. Segundo essa idéia, caso as empresas percam, os trabalhadores também perderão. Então “vamos ajudar as empresas com dinheiro público e redução dos salários dos trabalhadores”. Assim, as empresas vão aumentar seus lucros e os empregos serão preservados.

É tudo mentira! Os trabalhadores sabem por experiência própria que as empresas, ao contrário de sua propaganda, não são uma família. Os donos das empresas ficaram com os lucros no período de crescimento. Agora esses lucros, que poderiam ser usados para pagar os salários de todos na época da crise, seguem no bolso dos patrões. E eles vão ficar com o dinheiro que o governo repasse a eles. E também com os lucros maiores pela redução de nossos salários.

Isso tudo ajuda a engordar os patrões, mas não vai assegurar de forma nenhuma nossos empregos. Quando a crise se aprofundar, como é inevitável, vão dizer que não podem fazer nada e que são obrigados a demitir. Quem cair no conto do interesse comum com as empresas vai acabar aceitando as demissões no futuro, porque “a empresa precisa”.

Só com nossas lutas, com nossas greves, conseguimos aumentos salariais ao longo da história. Agora é a mesma coisa: só com as lutas e as nossas greves vamos evitar as demissões. O caminho do acordo com os patrões é o do abandono da luta.

O senso comum diz que é melhor perder os anéis que os dedos. Nesse caso, perdem-se os anéis e os dedos. Aceitar reduzir nossos salários é não defender nossos empregos, porque se aceita uma derrota sem mobilização.

A Força Sindical está implementando, junto com as empresas, este tipo de acordo de rebaixamento salarial. A CUT fez a mesma coisa no Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté.

A Conlutas se levanta contra essa política. Em cada fábrica, em cada empresa do país, é preciso preparar a resistência. Em cada categoria, em cada sindicato, é preciso convocar assembléias para definir como vamos lutar.

A Conlutas, junto com uma parte da Intersindical, com setores da Pastoral, impulsionou a realização dos atos de 11 e 12 de fevereiro contra as demissões e a retirada de direitos. Agora está propondo a realização de um dia nacional de paralisações e mobilizações em 1º de abril. Vamos exigir do governo Lula uma medida provisória que defina a estabilidade no emprego já.

Cada ativista do movimento sindical, popular e estudantil está convocado (a) para essa luta. Como vai ser a mobilização em sua categoria? Junte-se a nós. Vamos construir um grande 1º de abril para impedir que a catástrofe da crise caia sobre nossas cabeças.

Depois que a banda passar, vamos ajudar a tirar todas as máscaras.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 367
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