Redação

Depois de dias de fritura, Bolsonaro finalmente anunciou, no final da tarde desta quinta-feira, 16, a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. É o desfecho esperado após semanas de brigas entre o presidente e o ministro sobre a política a se levar diante da pandemia de coronavírus que, na contagem oficial e subnotificada, se aproximava dos 2 mil mortos no país.

A tensão entre Bolsonaro e o ministro da Saúde subiu de nível após a entrevista concedida por Mandetta ao Fantástico do último domingo. Na semana anterior, o presidente já havia decidido pela demissão, mas foi demovido por setores do governo, sobretudo da ala militar. Depois de domingo, em que o ministro subiu as críticas ao presidente, sua situação ficou insustentável.

A demissão de Mandetta é a reafirmação da política genocida de Bolsonaro de “deixar morrer” milhares a fim do que chama de “salvar a economia”, na verdade, proteger o lucro de grandes empresários e banqueiros. Como expressou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em uma reunião online com investidores do mercado financeiro no último dia 4 e publicado pelo Intercept Brasil, “quando você tem um achatamento maior [da curva de transmissão e mortes], você tem uma recessão maior e vice-versa“, defendendo o fim das medidas de distanciamento social e quarentena.

Foi o resultado de duas orientações que se enfrentaram no governo: a do Ministério da Saúde, seguida pela ampla maioria dos governadores, de quarentena parcial (paralisando algumas atividades, mas mantendo vários setores não-essenciais, como a indústria), e a defendida por Bolsonaro, de deixar correr livremente o coronavírus, a contaminação e as mortes.

A passividade com que Mandetta aceitou a demissão, uma “separação amigável” como disse o próprio Bolsonaro em pronunciamento logo após o anúncio da troca de ministros, pode ter a ver com o cálculo político do próprio Mandetta, que prevê a escalada de mortes e o desgaste do governo, e tenta preservar o capital político acumulado nesse período, e também com uma chantagem do governo, que passou os últimos dias produzindo dossiês e devassando todo tipo de maracutaia dentro do ministério. Por isso que, apesar das pesquisas apontarem maioria contrária à demissão, Mandetta sai de cabeça baixa.

Mandetta é agente do mercado contra o SUS

Apesar de relativamente bem avaliado pela opinião pública, o que não é muito difícil diante da posição abertamente genocida de Bolsonaro, Mandetta sempre foi um agente do mercado, defendendo políticas públicas contra o SUS e em defesa dos planos privados de Saúde. Foi presidente da Unimed por três anos, e votou a favor do Teto dos Gastos que tirou R$ 20 bi da Saúde em 2019. Mandetta defendia abertamente que o SUS não deveria ser gratuito e universal, e que seu espaço teria que ser ocupado por planos “populares”, com cobertura parcial. Leia mais aqui

Quem é o novo ministro

Junto à demissão de Mandetta, o governo anunciou o nome do novo ministro da Saúde, Nelson Luiz Sperle Teich. Oncologista e empresário do setor, Nelson Teich foi consultor da campanha de Bolsonaro à presidência em 2018. Apesar de já ter se posicionado a favor da quarentena horizontal, contrária à “quarentena vertical”, essa criação de Bolsonaro para justificar sua política genocida, é bastante evidente que, uma vez no ministério, sua função será a de chancelar essa posição do “deixa morrer”. Logo após o anúncio de sua nomeação, Teich já adiantou que está totalmente “alinhado” com Bolsonaro.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, durante fala realizada num evento de oncologia em 2019, Teich defende que, diante de uma suposta limitação de recursos, velhos devem morrer para que jovens possam ser tratados.

Como na semana anterior, em que Mandetta quase havia sido demitido, desta vez os panelaços voltaram e ainda mais fortes. A ampla maioria da população é a favor de medidas que preservem a vida, como a paralisação das atividades não-essenciais, e sabe que a política psicopata de Bolsonaro para proteger os lucros dos grandes empresários e banqueiros vai provocar pilhas de mortos e cenas como as da Lombardia e Guayaquil, onde os pobres serão a grande maioria.

Fora Bolsonaro e Mourão

Bolsonaro vai levando adiante sua política criminosa e assassina cuja intenção é não só deixar o povo morrer com a pandemia, mas também de fome e na miséria. Além de agir para quebrar as já insuficientes medidas de quarentena dos governos estaduais, Bolsonaro faz de tudo para impedir, atrasar e limitar o benefício já pequeno e irrisório de R$ 600 ao povo pobre e parte dos informais. A última foi ir à Justiça para que seja obrigatório o CPF regular para ter acesso à ajuda.

Em frente às câmeras Bolsonaro fala contra o distanciamento social se dizendo preocupado com o trabalhador que não “leva o pão para casa”. Mas na surdina, age contra os mais pobres numa política genocida que vem causando perplexidade até mesmo nos líderes burgueses dos outros países.

Enquanto outros governos, de países até mais pobres que o Brasil, anunciam medidas como quarentena e proibição das demissões, Bolsonaro luta contra as medidas de distanciamento, faz campanha para o povo ir às ruas e, por incrível que pareça, junto com o Congresso Nacional, se aproveita do coronavírus para aprovar duros ataques aos trabalhadores, como a carteira verde e amarela, redução dos salários e suspensão dos contratos de trabalho.

Sob esse governo, o Brasil caminha a passos largos rumo ao caos. O que mostra também como funciona esse sistema: uma das maiores economias do mundo mas que sequer é capaz de garantir máscaras para a população e até aos profissionais de saúde diante dessa urgência sanitária. Mais do que isso, era perfeitamente possível termos testes em massa, produção de respiradores, ampliação da rede UTIs, girando recursos para isso e a produção da própria indústria. Mas, mesmo com o anúncio de pandemia pela OMS, quase nada foi feito. O capitalismo funciona não para atender as necessidades da população, mas sua produção anárquica gira em torno dos lucros de meia dúzia de grandes empresários. E Bolsonaro atua para aprofundar esse caos.

Fica cada vez mais evidente que o maior entrave ao combate ao coronavírus é o próprio Bolsonaro. É inaceitável que não só o Congresso Nacional, mas os próprios partidos de oposição, como o PT e o PSOL, não se coloquem com todas as forças em favor do Fora Bolsonaro e Mourão, esse governo que promove o genocídio, a fome e a miséria.