Delúbio na CPI: Muito menos do que a verdade

Depoimento de Delúbio Soares revela um Congresso corrupto, cínico e desmoralizadoO depoimento do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, prestado à CPI dos Bingos no dia 23 de maio, acabou evidenciando pouco mais que um Congresso completamente falido e desmoralizado. Chamado a depor, desta vez por conta da acusação de financiamento do Partido dos Trabalhadores por bingueiros, Delúbio se recusou a assinar um termo em que se comprometia a dizer a verdade durante a sessão.

Delúbio insistiu na surrada tese de que agia sozinho no esquema de captação de recursos para o partido, junto a Marcos Valério. No entanto, em uma pequena escorregada, o ex-tesoureiro afirmou que agia com “delegação política”. “Eu tinha uma procuração política da direção do partido”, chegou a dizer. É bom lembrar a entrevista do também ex-dirigente petista Silvio Pereira, na qual citou Lula como um dos que mandavam no PT.

Sem restrições
O depoimento foi marcado após o sócio do banqueiro Daniel Dantas, Carlos Rodenburgo, ter afirmado que Delúbio pediu ao Opportunity algo em torno de US$ 40 e US$ 50 milhões para facilitar os negócios do grupo frente à disputa pelo controle da Brasil Telecom. Apesar de ter confirmado o encontro, Delúbio negou ter pedido dinheiro ao Opportunity. A reunião teria sido marcada, segundo o ex-tesoureiro, apenas para Dantas lhe perguntar por que o PT “não gostaria” dele.

Delúbio, então, ainda segundo sua versão, teria lhe respondido que cada partido lidaria com negócios segundo sua maneira. Ainda disse que o PT não teria restrições a Dantas ou ao Opportunity. Com advogado pago pelo PT, Delúbio ainda negou ter feito acordos bom donos de bingos. “Nem em quermesse eu jogava bingo”, afirmou aos parlamentares da CPI.

Cinismo e desmoralização
A poucos meses das eleições, o Congresso vem dando seguidos exemplos explícitos de profundo cinismo e descaramento. Num dado momento do depoimento de Delúbio, em que defendia que o PT não havia praticado caixa 2, mas apenas utilizado recursos para pagar “contas não-contabilizadas”, ele afirmou: “acho que vocês sabem muito bem o que é caixa 2, não preciso explicar aqui”.

Neste momento, o relator da CPI retrucou rapidamente: “E o que é?”. “Eu não sei!”, respondeu Delúbio.

Um dia depois do depoimento, na noite de 24 de maio, os deputados ainda livraram a cara do mensaleiro Vadão Gomes (PP-SP), acusado de ter levado R$ 3,7 milhões do Valerioduto. Ele foi absolvido por 243 votos a 161.

Como se isso não bastasse, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB), junto com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), anunciou que o Congresso não iria mais investigar os deputados sanguessugas. Cerca de 280 deputados podem estar envolvidos no escândalo de desvios de verbas da saúde. Eles relegaram a tarefa ao Procurador Geral da República, Antonio Fernando Souza.

Já na manhã do dia 25 de maio, durante acareação na CPI do Tráfico de Armas, o advogado Sérgio Weslei da Cunha, acusado de ser um dos responsáveis pela compra de informações sigilosas da Comissão para o PCC, irritou os parlamentares. O deputado do PTB, Arnaldo de Sá Faria, havia dito que o advogado teria “aprendido rápido com a bandidagem”. Weslei da Cunha respondeu que “a gente aprende rápido por aqui”.

Os deputados interromperam a sessão para discutir se a afirmação configurava um desacato os parlamentares. O advogado foi preso logo em seguida.