O processo revolucionário aberto na Ucrânia com a derrubada de Yanukovich vive agora seu segundo ato. O novo governo de Yatseniuk-Turchinov, após assinar um acordo sinistro com a UE e o FMI, lançou um ataque brutal contra os trabalhadores e o povo de conjunto.

Com isso, o movimento separatista no leste ucraniano se fortaleceu, apoiando-se em um legítimo sentimento de repúdio por parte de amplos setores de massas do sudeste em relação ao governo entreguista da Ucrânia. Kiev reagiu enviando tropas e tanques para reprimir a população da zona.

Tal como ocorreu em Maidán, onde atuaram forças de ultra-direita, neonazistas e pró-imperialistas, agora forças reacionárias do Leste (chauvinistas russas e stalinistas) estão desviando a necessária luta contra o governo oligárquico de Kiev para um movimento separatista reacionário que pretende a divisão dos trabalhadores da Ucrânia e a partilha do país. É preciso combater esse movimento para manter a unidade da Ucrânia e de seu proletariado.

Tanto o novo governo ucraniano como Moscou compartilham a política de descarregar sobre os trabalhadores a crise que eles provocaram e querem encerrar o processo revolucionário. Tanto uns como outros são agentes do imperialismo. Mas, nesse marco, disputam partes da cota de exploração e saque dos recursos ucranianos. E, para isso, deixaram o povo à beira de um confronto fratricida.

A República Popular do Donetsk é um movimento separatista regressivo, pela “independência”, que arrasta parte dos trabalhadores do leste, dividindo o proletariado ucraniano e ameaçando levar a uma divisão que liquidaria a Ucrânia. E Kiev lança seus tanques para afogar em sangue não só o movimento separatista, mas toda possibilidade de reação da classe operária na região mais industrial do país.

Agora, ambos tentam frear o que provocaram, mas a questão escapou de suas mãos. Só a classe operária organizada, com seus próprios métodos de luta, é capaz de enfrentar o duplo ataque pro-imperialista de Kiev e Putin.

Não estamos no campo político do governo de Kiev nem no campo político de Putin e seus agentes separatistas da República Popular do Donetsk, que são outro mecanismo para a mesma colonização da Ucrânia. Nenhum deles oferece um futuro de independência, nem a resolução dos problemas sociais da Ucrânia. Estamos contra a ofensiva dos tanques de Kiev, assim como da separação criminosa que se esconde por trás da armadilha da República Popular do Donetsk.

Defendemos a unidade da classe operária ucraniana contra ambos os projetos burgueses. Estamos por uma Ucrânia unida, independente, que rompa com a opressão histórica russa e com o projeto de colonização alentado pela UE, pelo FMI e por Putin.

Saudamos fervorosamente o surgimento de processos da classe trabalhadora nas províncias do Leste, que enfrentam o sinistro separatismo pró-russo, bem como o governo pró-imperialista de Kiev. Neles está a esperança de toda a Ucrânia.

Ucrânia, uma história de lutas nacionais derrotadas por direções contra-revolucionárias
A Ucrânia é um dos países de maior tradição de grandes lutas nacionais. Infelizmente, também coleciona derrotas, facilitadas por direções contra-revolucionárias. Hoje vemos uma reedição desse dilema entre revolução e contra-revolução em pleno andamento.

Continua válida a afirmação de Trotsky: “A Quarta Internacional deve compreender claramente a enorme importância da questão ucraniana, não só para o destino do leste e sudeste europeus, mas da Europa como um todo. Trata-se de um povo que demonstrou sua viabilidade, numericamente igual à população da França e que ocupa um território excepcionalmente rico e da maior importância estratégica.” [1]

Foi sobre a base da política revolucionária de defesa da autodeterminação nacional que os bolcheviques puderam construir uma experiência histórica inédita com a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922.  Um exemplo para todas as nacionalidades oprimidas do mundo de como se podia unir livremente diversas nacionalidades em uma federação, com objetivos comuns por meio do convencimento e não da força.

“Na concepção do velho Partido Bolchevique, a Ucrânia Soviética estava destinada a converter-se no poderoso eixo em torno do qual se uniriam as outras partes do povo ucraniano. Durante o primeiro período de sua existência, é indiscutível que a Ucrânia Soviética foi uma poderosa força de atração em relação às nacionalidades, assim como estimulou a luta dos operários, dos camponeses e da intelectualidade revolucionária da Ucrânia Ocidental escravizada pela Polônia.

Infelizmente, a burocratização da URSS fez com que se transformasse em uma nova prisão para os povos. A opressão russa atingiu, com a brutalidade stalinista, as outras nacionalidades da federação, gerando novamente fortíssimas correntes centrífugas.

“A burocracia também estrangulou e saqueou o povo da Grande Rússia. Mas nas questões ucranianas, as coisas se complicaram ainda mais por causa do massacre das esperanças nacionais. Em nenhum outro lugar as restrições, expurgos, repressões e, em geral, todas as formas de truculência burocrática assumiram dimensões tão assassinas como na Ucrânia, ao tentar destruir os poderosos anseios de maior liberdade e independência, profundamente arraigados nas massas. Para a burocracia totalitária, a Ucrânia Soviética converteu-se na divisão administrativa de uma unidade econômica e uma base militar da URSS.” [2]

Essas correntes centrífugas nacionais explodiram com a queda da ditadura stalinista, que provocou a dissolução da URSS em 1990-1991.

Hoje, é a nova expressão de um processo revolucionário e, ao mesmo tempo, da disputa colonizadora do país pelos dois blocos burgueses: por um lado, o bloco imperialista da União Européia e Estados Unidos e, por outro, a opressão burguesa russa (também pró-imperialista) com Putin, que apelam ao nacionalismo para esconder sua dominação.

Nenhuma dessas alternativas serve para a construção de uma Ucrânia livre e independente. Nenhuma alternativa burguesa ucraniana também garante isso. Os diversos setores da burguesia ucraniana se dividem em torno de dois projetos (com maior ou menor influência russa) que significam a mesma dependência. É preciso enfrentar até as últimas consequências tanto a histórica opressão russa como a atual ofensiva da UE-FMI. Só uma alternativa operária e revolucionária pode apontar para a unidade e independência do país.

O primeiro momento do processo revolucionário
O processo revolucionário na Ucrânia atinge um dos pontos mais frágeis do capitalismo europeu. A crise econômica, com um quarto da população na pobreza absoluta e um índice de desemprego que chega a três milhões de pessoas, levou as massas ucranianas à ação.

A queda de Yanukovich foi uma enorme vitória da mobilização revolucionária do povo ucraniano, que dividiu as forças repressivas e provocou o colapso das principais instituições do poder político. Foi uma dupla vitória democrática. Por um lado, derrubou o governo e enfraqueceu o regime bonapartista. Por outro, derrubou Yanukovich, agente da União Européia e da opressão russa, mesmo que ao final tenha apoiado Moscou e impedido a adesão à UE.

Não se pode entender a questão nacional de forma isolada do contexto internacional da luta de classes. Ao contrário do que afirma a esquerda pró- stalinista mundial, o repúdio à opressão russa cumpriu aqui um papel progressivo, a favor da revolução mundial.

No entanto, o enfraquecimento da opressão russa não resolve a questão nacional do país. O resultado das mobilizações foi profundamente afetado pela ausência de uma direção revolucionária. Sua direção foi exercida por outros setores burgueses pró-imperialistas e por correntes fascistas. O heroísmo das massas ucranianas foi contaminado pelas esperanças na União Européia. O resultado da primeira etapa do processo revolucionário conduziu, contraditoriamente, a um governo de outra camarilha burguesa, ainda mais pró-imperialista. O governo de Yanukovich caiu mas o regime bonapartista se manteve, ainda que debilitado, sob o governo provisório de Yatseniuk. A ação revolucionária das massas enfraqueceu a dominação russa, mas,  contraditoriamente, intensificou-se a dominação imperialista direta, agora sob as ordens da UE e do FMI.

O governo provisório de Yatseniuk assinou um acordo com o FMI que significa um passo qualitativo na colonização do país e sua submissão à UE. O plano inclui um duríssimo ataque contra o povo ucraniano, assim como a recomposição de suas forças armadas diretamente pela CIA, criando a Guarda Nacional, que incorpora ao aparato repressivo estatal as gangues nazistas que agiram em Maidán. A questão nacional não foi resolvida. Pelo contrário, agravou-se com uma colonização muito mais direta da UE e do FMI, incluindo fortes elementos de dominação russa sobre zonas da Ucrânia.

No entanto, o balanço desse primeiro momento não pode parar aí. O mais importante é que se iniciou um processo revolucionário que o novo governo não pode conter. As massas entraram em ação, com suas gigantescas confusões, com o vazio de direção revolucionária, mas puseram fim aos tempos de estabilidade. Revolução e contra-revolução agora se enfrentam de forma complexa e confusa, mas com uma intensidade inédita. Há muitos anos não se via algo assim, não apenas na Ucrânia mas em toda a Europa.

O episódio da Criméia
A queda de Yanukovich significou também uma derrota direta de Putin, na medida em que o ex presidente ucraniano, sem deixar de ser um agente oligárquico pró-imperialista, tornou-se um agente direto do Kremlin nesse país. Putin reagiu com uma agressão militar à soberania ucraniana, invadindo com suas tropas a península da Criméia, onde milhares de soldados russos ocuparam os aeroportos e edifícios públicos, e cercaram as principais bases militares ucranianas.

A península da Criméia é, na verdade, um enclave russo. A região passou por um processo brutal de russificação, levada a cabo por Stalin, com uma limpeza étnica contra os tártaros, a população histórica da península. Mais de 190 mil tártaros foram deportados para o Uzbequistão, Mari, Kazaquistão e outrosoblasts [províncias] russos. A população tártara na Criméia foi dizimada e expulsa de sua própria terra, para depois ser substituída por colonos russos. Portanto, podemos afirmar que a atual “maioria” russa da Criméia advém do processo de russificação iniciado no final do século XVIII e, sobretudo, do atroz genocídio de 1944-1945.

Trata-se de uma região de enorme importância para Moscou, tanto econômica (gasodutos e turismo interno massivo) como militar. Ali se encontra a gigantesca base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro. Apoiado nessa base social russa e na agressão militar, Putin impõe a farsa de umreferendo que levou a uma separação da Criméia da Ucrânia e sua anexação à Federação Russa.

A questão “nacional” da Criméia, utilizada por Putin, não cumpriu nenhum papel progressivo. Foi uma resposta reacionária à derrota de Maidán, apoiada na base social de um enclave sem nenhum direito à auto-determinação.

O segundo momento do processo revolucionário
Ao jogar nos ombros dos trabalhadores a profunda crise econômica do país, o governo de Kiev mostrou sua cara e abriu um novo momento na luta das massas.

A pesar da campanha de desinformação da imprensa qualificar a mobilização no sudeste da Ucrânia como um movimento dirigido pelas “forças separatistas” e “pró-russas”, a verdade é que estamos frente a um movimento muito mais complexo.

O sudeste ucraniano é a região mais industrializada do país, particularmente a província (oblast) de Donetsk; inclui desde a mineração, passando pelas indústrias metalúrgicas, químicas e a mais importante concentração operária do país.

Com a crise da economia ucraniana, a moeda nacional perdeu mais de 50% de seu valor em dois meses, o que, por si só, já representou uma profunda queda nos já baixos salários. A crise aprofundou o desemprego, e o pacote de medidas exigido pelo FMI e aplicado pelo servil governo de Kiev, que aumenta o preço do gás em 50%, congela os salários dos empregados públicos, e está levando a um aumento generalizado dos preços. Essa foi a faísca que fez explodir a luta popular, com importante participação operária. O aumento do preço do gás –que aquece as casas em uma região onde a temperatura chega a menos 20°C– significa a fronteira entre a vida e a morte para muitas famílias.

Segundo um correspondente da imprensa: “No Donetsk, os protagonistas são os engenheiros das fábricas, em greve por falta de pedidos, os mineiros das minas que fecham ou se afundam. Por isso, uma das principais reivindicações é a nacionalização da indústria, e o recente pacote do governo tende a aprofundar ainda mais o caos social.”[3]

Depois da restauração capitalista e a pilhagem da propriedade estatal, a região também deu lugar às principais fortunas do país. Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia e com uma das maiores fortunas da Europa, construiu seu império industrial apropriando-se das minas estatais, e depois abriu caminho para a indústria metalúrgica e bancos.

Existe uma divisão na burguesia ucraniana: os grandes oligarcas do Leste e do Oeste. Alguns proprietários de grandes empresas não se interessam pela anexação à Rússia porque suas empresas são as concorrentes diretas da Rússia, em especial nos setores agro-alimentícios, químico, montadoras e metalúrgicas. Isso explica o fato de que mesmo um oligarca pró-russo como Akhmetov, membro do mesmo partido que Yanukovich, tenha recusado a integração à União Aduaneira proposta pela Rússia, deixando correr livremente a campanha pelo acordo com a UE. A possibilidade de associar-se aos capitais imperialistas sobre a base da destruição do país lhe parecia mais atraente.

Armadilha nacionalista obstaculiza uma necessária e progressiva rebelião operária
Como nação oprimida, a Ucrânia vivencia uma luta nacional progressiva contra a histórica opressão russa e também contra o imperialismo mundial. Essa luta deve continuar, e se expressa hoje no confronto com o governo de Kiev e as políticas da UE-FMI e Moscou.

Isso nada tem a ver com a atual tentativa separatista expressa pela República Popular do Donetsk e o criminoso plano secessão encabeçado pelas organizações que fizeram o referendo de 11 de maio, que deve ser repudiado pela classe trabalhadora ucraniana e mundial.

Entre a radicalização política contra o governo de Kiev e a luta pela unidade da classe operária ucraniana existem vários obstáculos. Outras forças políticas, tão reacionárias como as que se apropriaram do resultado da mobilização popular em Maidán de Kiev, entraram em ação e canalizaram a raiva e o ódio da classe contra o governo de Kiev.

A questão nacional no leste da Ucrânia é, neste caso, uma armadilha para desviar um profundo problema social. O proletariado ucraniano necessitava ir à luta contra o governo pró-imperialista de Kiev e o projeto de colonização imposto pelo FMI.

Mas esse ódio social é desviado para uma questão nacional pró-russa. Nessa região, cerca de 70% da população fala o idioma russa. Os russos não podem ser considerados uma nacionalidade oprimida na Ucrânia. Pelo contrário, são uma nacionalidade opressora. O marxismo revolucionário defende, em geral, a auto-determinação das nacionalidades oprimidas, e não das opressoras.

No entanto, a vitória revolucionária de Maidán não levou o governo a uma direção que buscasse incorporar o conjunto do povo ucraniano. Pelo contrário, Yatseniuk desfechou um duríssimo ataque social com o plano do FMI, com uma medida bonapartista e provocadora contra a nacionalidade russa, rebaixando o russo a segundo idioma oficial do país. Antes dessas medidas, as correntes separatistas dessa região não tinham peso de massas. Foram essas medidas que lançaram um setor do proletariado na reacionária causa separatista.

A necessária luta do principal setor do proletariado ucraniano –em unidade com o conjunto dos trabalhadores do país– contra um governo apoiado por todo o imperialismo europeu e norte-americano foi desviada para a falsa política de que a solução para suas vidas é a independência de sua região e a separação da Ucrânia, o referendo e a fundação da RPD, e inclusive a política de anexação à Rússia e não a unidade do proletariado contra o governo de Kiev.

As ilusões da mobilização popular em Maidán de que o tratado com a UE melhoraria suas vidas têm um correspondente no Leste, de que a Rússia pode ser uma alternativa. Trata-se de ideologias reacionárias que atentam contra a necessidade da luta conjunta do proletariado ucraniano contra o governo de Kiev.

No Leste ucraniano atuam organizações de nacionalistas pró-russos de ultra-direita e anti-semitas, como Oplot, que disputam as massas sob a denominação zarista dessa região como Novorusia, desviando-as para uma causa reacionária, suicida, como a separação. Em Maidán atuaram organizações como Svoboda e Pravy Sektor, de ultra-direita e pró-Kiev, que tiveram que apoiar-se numa mobilização progressiva, que derrotou Yanukovich, para depois evitar que essa mobilização continuara contra os oligarcas. Agora, suas irmãs gêmeas pró-Rússia disputarão palmo a palmo a consciência dos trabalhadores para impedir que os tiros sejam disparados contra os verdadeiros inimigos: a burguesia ucraniana, russa e o imperialismo mundial.

O Acordo de Genebra assinado em abril pelos chefes da diplomacia norte-americana com a UE e a Rússia demonstrou que Putin tem una preocupação central por manter a conquista da Criméia e busca negociar sobre o leste da Ucrânia. Por isso, o acordo determinou a desativação do conflito e o fim das ocupações dos edifícios públicos, ou seja, a retirada dos combatentes no leste. Pela mesma razão, Putin propôs “postergar” o referendo pela independência na região e não interferir nas eleições de 25 de maio em Kiev.

Putin não pode atuar no leste ucraniano como fez na Criméia porque tem medo de que o processo revolucionário contamine a situação russa, também afetada pela crise econômica. Mas, pela mesma razão, não consegue controlar a região: não houve desarmamento nem desocupação dos edifícios, e o referendo foi realizado nas duas regiões mais importantes do Leste.

O referendo de Donetsk e Lugansk foi uma iniciativa dos setores separatistas –expressão de setores burgueses menores que dependem, para seus negócios, das relações de dependência para com a Rússia– para desviar a luta social das massas contra o governo de Kiev.

De acordo com seus organizadores –o que é impossível de verificar– contou com uma participação massiva–, cerca de 70 a 80% da população, que manifestou uma posição amplamente majoritária (falam de 90%) a favor da independência das regiões. A pergunta (contra ou a favor da independência) não define, de propósito, como se concretizaria essa independência, porque o apoio à anexação é minoritário. Foi um referendo enganador, porque consultava sobre sim ou não à “independência” mas, uma vez conhecidos os resultados, a direção pró-russa da RPD manifestou sua intenção de unidade com a Rússia, o que, de acordo com as  pesquisas, não estava nas intenções da maioria[4].

Com esse referendo, as direções pró-russas foram ganhando a massas para uma posição reacionária independentista, deixando de lado a necessária unidade do proletariado ucraniano para combater o governo pró-imperialista de Kiev. É preciso repudiar com toda força esse referendo enganador, que esconde uma política criminosa para os trabalhadores ucranianos.

O governo pró-imperialista de Kiev tentou uma ofensiva militar contra o Leste rebelado, que foi um fracasso monumental. As forças regulares do Exército se negavam a disparar e entregavam suas armas ao povo. Não obstante, o exército foi substituído pelas novas forças de repressão (a Guarda Nacional e a Divisão Alpha), reorganizadas com ajuda do imperialismo e recrutadas entre as fileiras das organizações neonazistas.

As operações militares voltaram de forma redobrada, e o cerco das cidades rebeladas também. Devemos repudiar a possibilidade de que o aparato repressivo de Kiev lance um massacre contra as populações do Leste.

Incipientes processos operários: uma esperança para o futuro da revolução na Ucrânia
No entanto, não são estas as únicas forças que estão se mobilizando. Existem expressões de que há espaço na classe operária para uma postura distinta à do nacionalismo pró-russo, e de unidade da classe operária ucraniana para o confronto com o regime de Kiev. Os trabalhadores das minas de Kryvyi Rih (em russo, Krivoy Rog), que apoiaram Maidán, agora reivindicam um “Maidán operário”. Manifestaram-se nas ruas até a administração de EVRAZ Sukha Balka plc[5]e fizeram chover moedas de baixo valor como protesto contra o “aumento salarial” fictício de abril passado.

Também fizeram um chamado: “Ao mesmo tempo, pedimos às autoridades que legitimem a auto-defesa dos mineiros e armem as brigadas de mineiros. A organização dos trabalhadores e sua auto-defesa podem prevenir o aumento da violência na Ucrânia. Nos lugares onde os trabalhadores organizados controlam a situação, a ação das massas não resulta em assassinatos massivos. Os trabalhadores defenderam Maidán em Kryvyi Rih.”[6]E o Sindicato Independente de Mineiros da Ucrânia fez uma convocatória aos operários britânicos para realizar uma campanha internacional[7].

Não são o único caso. Assim como em Kryvyi Rih organizaram a auto-defesa, em zonas como Cherno Hrad –distrito de Lviv– os trabalhadores nacionalizaram de fato a central elétrica que pertence ao oligarca Rinat Akhmetov. E em Krasnodon –distrito de Lugansk–, em greve geral regional, os mineiros passaram a controlar a cidade, se negaram a aliar-se aos separatistas e a apoiar os oligarcas de Kiev. Levantaram seu próprio Maidán dos trabalhadores, com suas próprias reivindicações de justiça social: aumento de salários, fim da subcontratação de trabalhadores, e com um movimento político que propunha a unidade dos trabalhadores de diversos setores, com tal força que tomou a cidade sem um único tiro e sem que alguém impedisse, nem sequer passivamente[8].

Como expressão de outro processo, entraram em movimento os operários metalúrgicos das fábricas de Akhmetov, que empregam 280 mil trabalhadores no Leste ucraniano. Aparentemente, sob as ordens do grande burguês, que tem medo de perder seus mercados caso se imponha a separação do Leste, os operários ocuparam cinco cidades do Leste, incluindo Mariupol, colocando para correr as milícias pró-russas que as controlavam. Para isso, formaram piquetes que foram expulsando os separatistas –pelo menos em Mariupol–, limpando as ruas de barricadas e “restabelecendo a ordem”.

Não existe futuro para o proletariado ucraniano sob o comando de Putin ou Yatseniuk-FMI, nem tampouco de Akhmetov. Mas esses movimentos são importantes para ver que não está consolidada no proletariado do Leste ucraniano a direção reacionária pró-russa. Esses fatos demonstram que existe uma possibilidade real de que os trabalhadores assumam o controle da situação, enfrentando os separatistas pró-russos e o governo pró-imperialista de Kiev.

NÃO à partilha da Ucrânia e nem a entrega ao FMI!!
Nem UE-FMI, nem Putin! Pela unidade da classe operária ucraniana!
Por uma Ucrânia independente e socialista!
A Ucrânia é um país historicamente oprimido pela Rússia. Em função de sua decadência econômica, desperta forças centrífugas entre setores burgueses que se orientam em direção a diversas variantes: sobre um acordo de maior dependência ao imperialismo, se aproximam ou se afastam da Rússia.

No primeiro ato desse processo revolucionário, as massas afugentaram a camarilha burguesa que controlava o aparato estatal submetido à Rússia.

Agora, no segundo ato, o proletariado do Leste necessita enfrentar a armadilha separatista da RPD, para avançar na unidade da classe operária ucraniana e lutar contra o governo de Kiev e contra toda opressão, e obter una Ucrânia unida e independente.

Apoiamos a luta dos trabalhadores ucranianos do sudeste do país contra o novo governo e suas medidas ditadas pelo FMI. Defendemos seu direito de manter o idioma russo, ao mesmo tempo que lutamos pela unidade da classe operária ucraniana e contra a divisão do país.

Mas não defendemos a independência e nem consideramos que esteja em jogo um direito à auto-determinação nacional, pois tem em sua base uma maioria russa, que não é uma nacionalidade oprimida na Ucrânia. Por isso, repudiamos a RPD e o referendo de 11 de maio.

A questão nacional só pode ser entendida à luz da situação internacional da luta de classes. A vitória do separatismo e a partilha da Ucrânia seria uma derrota para os trabalhadores do país e a nação oprimida, que destruiria toda possibilidade de uma Ucrânia independente e fortaleceria a dependência de cada parte em relação ao imperialismo de conjunto, além de fortalecer a continuidade da opressão russa sobre o Leste do país.

Uma unidade conseguida por meio de um massacre dos tanques do governo de Kiev seria uma derrota do proletariado ucraniano e europeu. Fortaleceria os governos da Alemanha e da França (além de Obama), apoiadores incansáveis de Yatseniuk-Turchinov. Ajudaria na colonização do país, com a imposição do plano do FMI.

A revolução ucraniana passa pela unidade de seu proletariado.  A contra-revolução tem duas cabeças: os dois campos burgueses da UE e Putin.

Fora UE, Estados Unidos e Putin da Ucrânia!

Não à separação do Leste, não à RPD! Enfrentar os separatistas!

Nem a federalização, nem a separação, nem a anexação à Rússia!

Abaixo o pacote FMI-Yatseniuk! Fora o governo pró-imperialista!

Pela nacionalização das empresas e minas!

Por uma Ucrânia unida e independente!

Por uma Assembléia Nacional Constituinte que decida de forma democrática a organização do país e suas regiões!

Por um governo operário e socialista!


[1] “A questão ucraniana”, 1939.

[2] Idem.

[3] Ver: http://internacional.elpais.com/internacional/2014/05/05/actualidad/1399319384_585225.html

[4] Ver: http://elcomercio.pe/mundo/actualidad/ucrania-podria-perder-185-su-territorio-mayo-noticia-1726191: Segundo pesquisa do Instituto para a Investigação Social e Análise Política, divulgada pelo jornal britânico “The Guardian”, apenas 27% da população está a favor de unir-se à Rússia de alguma forma .

[5] Corporação multinacional siderúrgica e mineira, com sede no Reino Unido e operações na Rússia e Ucrânia, entre outros países.

[6] Ver: http://observerukraine.net/2014/05/12/appeal-of-the-kryviy-rih-basin-miners-to-the-workers-of-europe/

[7] Ver: http://observerukraine.net/tag/kryviy-rih-miners/

[8] Declaração da Oposição de Esquerda – 16-5-14. Ver: http://observerukraine.net/2014/05/08/for-an-independent-social-movement-for-a-free-ukraine/