Cuba: relatos sobre a restauração do capitalismo

O que é Cuba hoje? O debate sobre o que se passa na ilha é muito polêmico no interior da esquerda. Existe uma enorme nuvem de fumaça sobre a realidade deste país. Para muitos, se trata ainda de um Estado operário, o “último bastião do socialismo”. Para nóHavana, 14 de janeiro. As ruas mal iluminadas jogam uma tímida luz sobre os decadentes casarões coloniais. Os antigos Cadillacs e Chevrolets da década 50 passeiam tranquilos pela avenida Paseo Del Prado. Cartazes oficiais com as fotos de Fidel e Raúl Castro colorem as paredes velhas. Próximo ao imponente edifício El Capitólio, numa esquina escura de Havana Vieja, uma cubana é abordada por um turista europeu. A conversa é rápida, e alguns minutos depois a jovem entra num luxuoso hotel para estrangeiros. A prostituição retornou à ilha.

Na simpática ruela Obispo, encontramos José, vendedor de livros no centro de Havana. O senhor, de expressão cansada e conversa fácil, oferece-nos obras de Marx e Lênin e nos convida para ir até sua casa para mostrar as coleções. Em “seu” pequeno apartamento, repartido entre várias famílias, não há geladeira, tampouco cama ou fogão. Sobre uma estante antiga, os livros empoeirados. José faz a oferta sem titubear: “as obras escolhidas de Marx em troca de sua camiseta”.

A revolução cubana de 1959 acabou com as paupérrimas condições de vida do povo cubano. O desemprego colossal foi diminuindo até o pleno emprego, o acesso aos alimentos básicos erradicou a fome, o direito à moradia se converteu em realidade para todos, a reforma agrária permitiu terra aos camponeses pobres, enquanto o nível alcançado na educação e na saúde se tornou um símbolo mundial das conquistas da revolução socialista. Hoje, em 2011, 52 anos depois da revolução, qual é a realidade do povo cubano? O que aconteceu com suas conquistas? O que é Cuba hoje?

“Aqui em Cuba tem capitalismo de Estado e miséria para o povo”
17 de janeiro, Santa Clara. Em 1958, Che Guevara, à frente da coluna rebelde n° 8, tomou a cidade. Sua conquista era então estratégica para o triunfo da revolução cubana. Passados mais de 50 anos, uma cena revoltaria o velho.
Num café reservado aos turistas, uma mesa chama a atenção. Nela está um grupo de senhores elegantes, com roupas de grifes europeias e sapatos finos. Os homens são membros do Partido Comunista Cubano (PCC). O tema da conversa não é o socialismo ou a revolução, nem ao menos as condições de vida do povo. Eles falam sobre como aproveitar “as novas oportunidades de negócios”.

Não é para menos. Na pequena ilha, o capitalismo prospera. Multinacionais europeias associadas aos órgãos governamentais promovem uma intensa expansão dos negócios privados. Um mundo de luxo, praias paradisíacas e turismo sexual, colorido pelo charme “revolucionário” da ilha, oferece-se para o deleite do estrangeiro.

O turismo, motor da economia cubana, desmente a argumentação de que os problemas de Cuba têm origem no bloqueio comercial norte-americano, suposto responsável pela não entrada de recursos. Somente em 2010 a atividade injetou mais de 2,5 bilhões de dólares (1) , emplacando um recorde, segundo os relatórios governamentais. Juan, trabalhador numa fábrica estatal de alimentos e “orientador” de turista nas horas vagas, explica: “aqui tudo gira em torno do turismo, só com o salário da fábrica se passa fome”.

Fome e miséria
20 de janeiro, Havana. Ao caminhar pelo famoso passeio El Malecón, podemos ver antigos edifícios, feitos de pedra e terra. É possível observar também aqueles que pedem dinheiro nas ruas, mães que põem seus filhos para pedir esmolas a estrangeiros, homens e mulheres que buscam de alguma forma extrair algo da multidão de turistas que aflui a seu país porque é exótico e barato e porque, em algum momento, houve uma revolução. É evidente que eles apreciam uma outra Cuba, diferente daquela em que o povo vive.

Há uma Cuba paralela: a dos turistas e privilegiados pelas ligações com o alto escalão do Estado, que vivem em ótimas condições materiais. Miguel, trabalhador cubano, num tom contido e duro, desabafa: “Há negócios em Cuba, o turismo domina tudo, as pessoas ligadas ao governo estão bem, pois se beneficiam disso. Enquanto isso, a vida do povo só piora cada vez mais”.

Do outro lado, o quadro se inverte. A Cuba de hoje é um povo que tem fome, que em sua miséria material grita e espera por mudanças. Os baixos salários, a falta de moradia, água e eletricidade, a carência de medicamentos e a mísera ração de comida fazem-nos recordar de qualquer país latino-americano. Essas cenas podem ser vistas em qualquer rua de São Paulo, La Paz, Buenos Aires, Bogotá ou Lima.

Esta não é uma imagem de um país socialista, tampouco de um Estado operário. Esta é a Cuba capitalista. É o que deixa claro um taxista em Santa Clara: “Aqui em Cuba tem capitalismo de Estado e miséria para o povo. A gente não tem comida, somente os que têm negócios conseguem melhores condições. Para o povo… o povo tem fome”.

Uma imagem que ilustra a ruína econômico-social pela qual passa a ilha é a ração alimentar mantida pelo Estado, da qual depende a maioria dos cubanos. De acordo com especialistas (2), nos anos críticos da década de 90 (dito “período especial”), a ração mensal fornecida pelo Estado garantia alimentação para 20 dias. Atualmente, o que era insuficiente se tornou calamidade. A ração mensal garante apenas 12 dias de alimentação para uma família.

(1) Jornal La Juventud Rebelde, nº 74, 16 janeiro de 2011.
(2) Jornal Folha de S. Paulo, 6 de janeiro de 2011.
Post author Gabriel Casoni e Verónica Garcia
Publication Date