Cuba: o que virá depois de Fidel?

Este artigo foi publicado em 2006, na revista Marxismo Vivo 14Nos últimos anos, as especulações sobre o que será de Cuba sem Fidel ficaram mais fortes. Essas especulações deram um salto e se transformaram em importantes enfrentamentos políticos a partir do momento em que Castro foi submetido a uma intervenção cirúrgica que o obrigou a passar o comando para seu irmão Raúl.

No momento em que escrevemos este artigo ainda não se sabe se Fidel irá reassumir suas funções no governo cubano ou se, pelo contrário, seu afastamento será definitivo. As autoridades cubanas mantêm sigilo sobre o tema enquanto representantes de outros governos dão informações contraditórias. Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que visitou Castro no hospital, disse que ele está se recuperando e em pouco tempo retornará às suas antigas funções. Em contrapartida, alguns representantes do PT brasileiro, estreitamente ligados ao governo cubano, informaram que o afastamento de Castro é definitivo.

É lógico que esta situação provoque tantas especulações e debates. Fidel foi o máximo dirigente da revolução e esteve à frente do governo de seu país durante quase 50 anos. Por outro lado, é preciso levar em consideração que a partir dos “processos do Leste europeu” (restauração e revolução) é difícil pensar que em Cuba a sucessão de Fidel Castro ocorrerá sem confrontos e crises.

Volta ao capitalismo?
A grande maioria da esquerda considera na ex-URSS e em todo o Leste europeu o capitalismo foi restaurado, mas não em Cuba. Ninguém nega as pressões restauradoras, mas acham que o capitalismo não foi reintroduzido em Cuba devido a resistência da direção, principalmente do próprio Fidel.

Sendo assim, Cuba seria um dos últimos “redutos socialistas”. As provas apresentadas para demonstrar essa caracterização são muitas: os discursos de Fidel contra o imperialismo e pelo socialismo; a manutenção por parte dos EUA do bloqueio econômico e a permanente e crescente hostilidade contra o governo cubano por parte da burguesia exilada nos EUA (os “gusanos”).

Para quem pensa dessa forma, o temor pelo que possa ocorrer a partir do afastamento de Fidel está amplamente justificado: o imperialismo norte-americano, junto com os “gusanos”, poderia se aproveitar da situação para restaurar o capitalismo na Ilha.
Sem dúvida, é verdade que estão tentando tirar proveito da atual situação, mas não é correto dizer que seu objetivo seja restaurar o capitalismo, pela simples razão de que em Cuba o capitalismo já foi restaurado.

Nunca houve acordo, no âmbito da esquerda, sobre o caráter do Estado cubano depois da revolução que levou Fidel Castro ao poder. Uns falavam de um estado “socialista”, outros, de uma “economia popular” e não faltaram os que caracterizaram Cuba como um “capitalismo de Estado”. De nossa parte, consideramos que a partir da expropriação do capitalismo, Cuba transformou-se em um “Estado operário burocratizado”.

Não é o objetivo deste artigo demonstrar qual das definições é a mais correta, mas queremos ressaltar um fato sobre o qual há bastante acordo: a partir da ruptura com o imperialismo e a expropriação da burguesia, o Estado cubano passou por uma mudança de qualidade. Deixou de existir uma economia capitalista. Surgiu um estado de um novo tipo, onde não reinava a anarquia do capital, mas uma economia planificada. Com isso, o estado cubano fazia parte da economia mundial, mas era, como a China e o conjunto dos estados do Leste europeu, uma parte contraditória dessa economia.

Esta sintética descrição do Estado cubano pós-revolução possivelmente seja respaldada pela ampla maioria da esquerda. Mas em nossa opinião um estado desse tipo, independente do nome que tenha, já não existe mais. Por isso, dizemos que o imperialismo não tem o objetivo de restaurar o capitalismo, porque ele já foi restaurado. Então, o verdadeiro debate que existe em Cuba e que envolve a direção castrista, os “gusanos”, o governo norte-americano e o imperialismo europeu não é sobre se o possível afastamento de Fidel levará ou não à restauração. O debate é sobre como continuar a restauração, e aí surgem diversas posições políticas em função dos diversos interesses econômicos em jogo.

A restauração
Há uma enorme resistência no conjunto da esquerda mundial em reconhecer que o capitalismo foi restaurado em Cuba. No entanto, se analisamos a realidade, e não somente os discursos da direção castrista, a restauração surge como um fato incontestável.

A existência de uma economia “não-capitalista” não estava sustentada em discursos, mas fundamentalmente em três pilares econômicos. Em primeiro lugar, a maior parte dos meios de produção era de propriedade estatal; em segundo lugar, a quantidade e qualidade do que se produzia não era determinado pelas leis do mercado e sim por um plano econômico central, ao qual todas as empresas estavam subordinadas e, por último, todo o comércio exterior, tudo o que o país comprava e vendia estava monopolizado pelo Estado.

As conquistas econômicas e sociais de Cuba se assentaram nesses três pilares econômicos, mas esses três pilares já não existem. Por isso, hoje não podemos dizer que em Cuba existe uma economia “não-capitalista”, e também por causa disso estão perdendo, uma a uma, as conquistas da revolução.

No final da década de 70 começaram a ser feitas concessões ao capitalismo, mas foi em 1990, em consonância com o processo que estava ocorrendo na ex-URSS e no Leste europeu, que em Cuba a restauração deu um salto qualitativo. A partir desse momento, seguindo o exemplo do que ocorreu na China depois de 1978 e na ex-URSS depois de 1986, as medidas para desmontar o antigo Estado operário vieram uma atrás da outra. Em pouco tempo o governo acabou com o monopólio do comércio exterior por parte do Estado, e a economia deixou de ser planificada centralmente. Com isso, as antigas empresas do Estado foram deixando de operar em base a um plano central e passaram a responder aos desígnios das leis do mercado. Um único fato comprova isso facilmente: a Junta Central de Planificação, que dirigia a economia planificada, foi simplesmente dissolvida.

No marco desse processo de restauração um fato de grande importância foi a lei aprovada pela Assembléia Nacional em setembro de 1995: a Lei de Inversões Estrangeiras. Por meio dela, o terceiro pilar econômico do antigo Estado operário (a propriedade estatal dos principais meios de produção) foi destruído. As empresas estatais começaram a ser privatizadas, não em base a um capital nacional, mas ao capital proveniente fundamentalmente do imperialismo europeu. A partir dessa lei praticamente todos os setores produtivos do país foram postos à disposição do capital estrangeiro, que passou a associar-se a empresas do Estado para explorar os recursos do país. Os principais “sócios de Cuba” hoje são, nesta ordem, a Espanha, o Canadá, a Itália, a França e o Reino Unido.

A entrada do capital estrangeiro ocorreu em praticamente todos os setores de produção em um ritmo assustador. Hoje as empresas mistas (entre o Estado e o capital estrangeiro) dominam 100% da exploração de petróleo, de minério de ferro, da produção de lubrificantes, de serviços telefônicos, da produção de sabão, de perfumaria e da exportação de rum. 70% das agroindústrias e de cítricos e 50% da produção de níquel, de cimento e do setor de turismo. [1]

Apesar de todos esses dados, muitos analistas dizem que em Cuba não há um Estado capitalista porque ainda existem muitas empresas estatais e porque na maioria das empresas mistas o estado conserva 51% das ações.

Essa análise não tem o menor rigor científico. Em todos os estados capitalistas existem empresas estatais e mistas. Mas não é a quantidade de empresas estatais, o a porcentagem que o estado tem nas empresas mistas o que determina o caráter dessa economia (operária ou capitalista). A questão é saber, no caso de Cuba, se essas empresas, mistas e/ou estatais, estão subordinadas a um plano econômico central ou se estão subordinadas às leis de mercado, da oferta e da demanda. Em Cuba, até o final da década de 80, as empresas estavam subordinadas a um plano econômico central, mas essa realidade mudou depois dos anos 90 e isso é o que explica a entrada em massa de capital estrangeiro nesse momento. Por exemplo, em 1990 só existiam em Cuba sete acordos de associação econômica com o capital estrangeiro por um volume total de 100 milhões de dólares, e esses acordos estavam restritos à área de turismo. Cinco anos depois, em 1995, existiam 212 acordos de associação econômica com o capital estrangeiro, com um investimento da ordem de 2.100 milhões de dólares, abarcando 34 ramos da economia.

As relações de Cuba com a burguesia mundial
Durante muitos anos, Cuba teve de suportar uma permanente agressão política, econômica e inclusive militar por parte do imperialismo norte-americano e seus aliados. A revolução que derrubou o ditador Batista triunfou em 1º de janeiro de 1959 e já no mês de outubro desse mesmo ano o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, aprovou um plano da CIA para promover ações terroristas na Ilha. No início de 1960 as refinarias de petróleo norte-americanas instaladas em Cuba começaram a boicotar a produção. Nos meses e anos seguintes, essas agressões se multiplicaram.

Em dezembro de 1960 os Estados Unidos suspenderam a compra do açúcar cubano. Em janeiro de 1961 rompeu relações. Em abril desse mesmo ano, cerca de 1.400 exilados cubanos, treinados e armados pela CIA, desembarcaram em Playa Girón (Bahía de los Cochinos) com o objetivo de derrubar o governo. Em janeiro de 1962 Cuba foi excluída da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em fevereiro, o presidente Kennedy ordenou o bloqueio econômico total a Cuba. Em todos esses anos a CIA preparou tantos atentados para matar a Fidel Castro que o obrigou a viver praticamente na clandestinidade. Só em 1960 foram descobertos oito complôs para assassiná-lo.

Depois de tantas agressões contra Cuba e contra Fidel, hoje muitos temem que a crise provocada pela possível morte de Castro possa chegar a ser aproveitada pelos Estados Unidos para invadir a Ilha. No entanto, as declarações do governo dos EUA não parecem confirmar esses temores. Apesar de toda a política agressiva do governo Bush, Condoleza Rice foi muito categórica ao declarar que sob nenhum ponto de vista pretendem invadir Cuba. A política é outra. É pressionar para que sejam legalizados os partidos políticos e o processo sucessório de Fidel seja decidido nas urnas. Nesse marco, Caleb McCarry, o homem de Bush para garantir a “transição em Cuba” chegou a declarar que se a maioria dos cubanos votarem no Partido Comunista, os Estados Unidos respeitarão o resultado. Se observamos a atual política norte-americana e a comparamos com a anterior (atentados contra Fidel, desembarque de Playa Girón, bloqueio etc) fica evidente que há uma mudança.

Em relação à URSS e o governo de Stalin, Trotsky dizia:”Enquanto o monopólio do comércio exterior não seja abolido, enquanto o direito do capital não seja restabelecido, a URSS, apesar de todos os “méritos” de seus governantes, continuará sendo para a burguesia do mundo inteiro um inimigo irreconciliável…” [2]

O mesmo podemos dizer em relação a Cuba. Enquanto o monopólio do comércio exterior era estatal e os direitos do capital não eram restabelecidos, a burguesia do mundo inteiro considerava Cuba um inimigo irreconciliável.

O governo castrista, a partir da década de 70, abandonou a idéia dos primeiros anos, de tentar repetir em outros países a experiência cubana. Dessa forma, quando os sandinistas tomaram o poder na Nicarágua, Fidel Castro aconselhou a não expropriarem a burguesia (“não façam uma nova Cuba”). Mas essa mudança não serviu para nada. A maioria da burguesia continuou considerando Cuba um inimigo irreconciliável.

A burguesia mundial só mudou de atitude quando os “direitos do capital” começaram a ser restabelecidos na Ilha. Depois disso, o respaldo foi tão grande que a maioria dos governos, não só de Europa como do mundo inteiro, passaram a questionar o bloqueio americano. Por exemplo, em novembro de 2005 a ONU condenou pela 14º vez consecutiva o bloqueio a Cuba por parte dos Estados Unidos. Esta posição contou com o respaldo de 182 países. Esta nova relação com uma boa parte da burguesia mundial foi “abençoada” pelo Papa João Paulo II, que em 1998 visitou a Ilha e pelo patriarca Bartolomeu I, líder espiritual de 140 milhões de cristãos ortodoxos, que esteve lá em 2004.

A política da burguesia norte-americana foi diferente, mas não muito diferente da burguesia européia. Há importantes setores que reivindicam o fim do bloqueio e o restabelecimento de plenas relações com Cuba, o mesmo que reivindica o governo cubano. Se isso ainda não foi alcançado se deve à pressão da poderosa burguesia cubana exilada nos EUA. Possivelmente a maioria desse setor só aceita relações com Cuba em base à recuperação do poder e de suas antigas propriedades. No entanto, eles não conseguiram impedir a ampliação dos setores que estão a favor de restabelecer relações com o atual regime cubano.

De imediato, é um fato que o número de americanos que visitam Cuba não pára de crescer. Só em 2002 foram 230.000 (40.000 de forma ilegal). Mas não são só turistas que visitam a Ilha. Em maio desse mesmo ano, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, visitou Cuba e em dezembro de 2004 mais de 300 empresários norte-americanos viajaram para Havana para reunir-se com Fidel Castro.

Outros fatos também mostram que existe uma nova relação entre Estados Unidos e Cuba. Em 1988 o FBI desarmou uma conspiração de exilados cubanos para assassinar Fidel Castro, enquanto o juiz norte-americano James L. King condenou seis exilados a mais de 20 anos de prisão por participação no seqüestro de um avião na Ilha. Por outro lado, a partir do próprio governo, o bloqueio econômico começou a ser questionado. Hoje os EUA ocupam o quarto lugar no mundo em exportações para Cuba. Isso se deve fundamentalmente ao fato de a poderosa indústria farmacêutica americana exportar a Cuba com o argumento de que se trata de “ajuda humanitária”. Essa manobra contra os “gusanos”, defensores incondicionais do bloqueio, só se pôde consumar porque contou com o respaldo do governo.

O objetivo desses setores da burguesia norte-americana é claro: não ficar de fora do processo de recolonização da Ilha encabeçado atualmente pelo imperialismo europeu.

Bonapartismo e democracia burguesa
Para qualquer analista, fica evidente que se Fidel Castro morre ou fica impossibilitado de continuar no governo, o regime cubano ficará sumamente fragilizado. Seria esta uma oportunidade excepcional para que o imperialismo se apossara do poder por meio dos “gusanos”. No entanto, não há nada que indique que a política dos norte-americanos, e muito menos do imperialismo europeu, seja a de desestabilizar o regime. Hoje a política parece ser “pressionar sem desestabilizar”.

Por que não querem desestabilizar o regime cubano? Porque é com esse regime que está sendo restaurado o capitalismo. Então, por que pressionam por uma saída “democrática”? Porque os diversos setores da burguesia mundial buscam, mediante a legalização dos partidos políticos e as eleições, ganhar terreno no interior do processo de restauração, tanto em relação aos outros setores burgueses como frente ao próprio governo que hoje tem o controle do processo, o que está dando origem a uma nova burguesia ligada ao Estado. Nisto se resume, em relação à burguesia e o governo cubano, o debate sobre a sucessão de Fidel.

A imprensa mundial abriu espaço às mobilizações dos exilados cubanos em Miami e isso deu força à idéia de que os EUA estariam preparando uma invasão ou ao menos uma ofensiva brutal para derrubar o regime atual. No entanto, não é o que opinam os analistas mais informados. O jornalista e escritor argentino Andrés Oppenheimer [3] , um expert em Cuba e com muitos anos de trabalho nos Estados Unidos, escreveu: “Observando os últimos acontecimentos em Cuba desde esta parte do mundo, fica a impressa de que a comunidade internacional –incluindo os Estados Unidos– não terá muita pressa em buscar uma transição rápida para a democracia na ilha”. [4]

Por outra lado, o mesmo Oppenheimer cita uma declaração de Emilio Cárdenas, ex embaixador argentino nas Nações Unidas: “Ninguém está apressado por ver grandes mudanças em Cuba. Num primeiro momento, isso poderia significar apoio à direção de Raúl Castro”. [5]

Para entender essa contradição (não desestabilizar o regime bonapartista e pressionar por mudanças) é preciso fazer uma comparação entre Cuba e os demais países capitalistas. As saídas bonapartistas, ditatoriais, são uma alternativa para a burguesia quando, em função da intensidade da luta de classes e/ou dos choques interburgueses se torna necessário colocar ordem nos negócios da burguesia. Nesses momentos, até os mais “democráticos” setores da patronal optam por bater na porta dos quartéis. Por outro lado, o bonapartismo é a expressão, na superestrutura política, da existência dos monopólios; por isso há uma pressão constante da economia mundial por saídas desse tipo. No entanto, esses regimes não conseguem se manter porque normalmente intervêm três fatores contrários. Os próprios setores burgueses que buscam maior espaço para se expandir, uma tendência dos governos que encabeçam esses regimes a tornars-e independentes da burguesia que os colocou no poder e a ação das massas contra esses próprios regimes. Sempre que um regime bonapartista é derrubado é porque um desses fatores esteve atuando, com maior ou menor força.

Na maioria dos países capitalistas os regimes bonapartistas surgiram depois que o mecanismo tradicional da burguesia para exercer sua dominação de classe, a democracia burguesa, foi questionado. Mas no caso de Cuba não estamos falando de um estado burguês típico, e sim de um estado burguês que surgiu como produto da restauração do capitalismo em um Estado operário. Nesse caso, esse tipo de regime é uma necessidade já desde o momento do nascimento do Estado capitalista. Esta é a lição que o conjunto da burguesia parece haver aprendido dos outros processos de restauração.

Na ex-URSS, por exemplo, depois de iniciada a restauração do capitalismo, as massas foram às ruas para enfrentar esses regimes e o grosso da burguesia mundial apoiou “alegremente” esse movimento que acabou derrubando o aparato stalinista. No entanto, essa realidade trouxe graves problemas para o processo de restauração. Na China, pelo contrário, a restauração que começou em 1978 não produziu um choque entre as massas e o regime. Isso permitiu que a restauração fosse se dando sem sobressaltos. Em 1989, quando as massas foram às ruas e ameaçaram liquidar com o regime ditatorial do PC, surgiu a possibilidade de que na China se repetisse a experiência russa e que o processo de restauração passasse por dificuldades, mas o governo chinês conseguiu, mediante um massacre, controlar a situação. Isso levou ao aprofundamento do caráter bonapartista do regime.

Aparentemente a burguesia mundial conseguiu uma grande vitória no Leste europeu com o surgimento, nos países mais importantes da região, de regimes democráticos burgueses e, pelo contrário, fora derrotada na China porque lá, mediante a repressão, reafirmou-se o regime ditatorial do Partido Comunista. No entanto, as coisas não foram nem são vistas dessa maneira pela burguesia e isso é o que explica que em todos esses anos tenha sido a China (apesar das diferenças culturais e de idioma) e não o Leste europeu, o destino das principais inversões imperialistas.

Um dado recente exemplifica essa postura do imperialismo. O custo da mão de obra para produzir um automóvel na China é de 170 dólares por veículo, enquanto que nos Estados Unidos supera os 2.000. Este é o “milagre chinês”, que só pode ser atingido sob uma ditadura sanguinária, onde os trabalhadores não têm os menores direitos trabalhistas. Isso é o que explica porque a GM, em âmbito mundial, conseguiu sair de sua crise em 2005 a partir de suas fábricas na China, e isso também explica porque 50% de todos os produtos exportados pelas 500 multinacionais mais importantes do planeta são fabricados na China.

Do ponto de vista dos interesses das potências imperialistas, não teria sentido uma política para derrubar o regime do PC chinês ou do PC cubano. O governo cubano dá todas as garantias às empresas imperialistas para explorar os recursos da Ilha. Lhes oferece a possibilidade de contratar uma mão de obra altamente qualificada, pagando os menores salários do continente e além disso o estado garante às empresas que esses trabalhadores não farão greve nem qualquer exigência. Isso gera uma enorme mais-valia, que pode ser enviada ao exterior praticamente sem restrições. O que mais pode desejar o capital internacional?

No entanto, a existência de um processo de restauração dirigido por uma ditadura do Partido Comunista cria contradições não só para o imperialismo norte-americano como também para o europeu. Ambos quiseram manter o controle total desse processo e hoje em dia não o têm, e isso faz com que, a partir do Estado, vá surgindo uma nova burguesia nacional que nenhum setor imperialista tem interesse em desenvolver. Daí as pressões para “democratizar” o Estado.

Já observamos anteriormente a contradição da burguesia norte-americana com a burguesia cubana, cosa que a impede de disputar de igual para igual com o imperialismo europeu a recolonização de Cuba. Mas também a contradição observada anteriormente afeta o imperialismo europeu e por isso também, assim como os norte-americanos, se bem não trabalham para derrubar o regime cubano, não param de pressioná-lo por saídas “democráticas”. Por exemplo, em novembro de 2004, o Parlamento Europeu exigiu de Cuba a liberação dos presos políticos e o presidente da Espanha, José Luís Zapatero exigiu “passos rápidos na democratização”. Em outubro de 2005 o Parlamento Europeu entregou o Prêmio Sakharov de Direitos Humanos às “Damas de Branco”, um grupo de esposas de dissidentes cubanos presos em 2003.

Nesse marco, o governo cubano não ficou imune às pressões e os norte-americanos estão começando a reconhecer esse fato. Por um lado, o governo cubano tem deixado em liberdade uma série de dissidentes e, por outro, em maio de 2005 permitiu que a realização em Havana de um encontro de 150 representantes de grupos opositores que discutiram um plano para a transição política na Ilha. Frente a esses fatos, o chefe da Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana (Sina) Michael Parmly declarou: “…algum dia o povo cubano concretizará as transformações, já iniciadas, que conduzirão à democracia”, e Caleb McCarry disse que a questão da restituição das propriedades a seus antigos proprietários (os “gusanos”) ou a indenização por elas, que sempre foi a bandeira central dos cubanos exilados, é um tema que deve ser “discutido”, ou seja, negociado.

O verdadeiro temor do governo cubano
Independentemente se Fidel se reintegra ou não às tarefas de governo, a sucessão já começou. Como se fosse uma dinastia, indicou o irmão Raúl como seu sucessor e nomeou um triunvirato, com dirigentes mais jovens, para assumir o poder de forma conjunta. São eles: Ricardo Alarcón, presidente da Assembléia Nacional, Carlos Lage, atual vice-presidente e Felipe Pérez Roque, ministro de Relações Exteriores. Todos esses movimentos estão sendo feitos sem que se saiba o real estado de saúde de Fidel Castro. Qualquer informação a respeito virou segredo de estado.

Por que tanto mistério? Por que não se divulga um boletim médico sobre a saúde de Fidel? Se o imperialismo não está tentando derrubar o regime castrista, o que explica essa atitude do governo? Por que foram reforçadas as medidas de segurança? De que o governo cubano tem medo?

Um fato ocorrido em 1994 nos ajuda desvendar tanto mistério e preocupação. Jon Lee Anderson [6], um jornalista e escritor norte-americano que viveu dez anos em Cuba, descreve desta forma o que aconteceu no verão de 1994 durante a crise dos “balseros”: [7] “…no auge do “período especial”, depois dos choques entre as autoridades e os que pretendiam emigrar, centenas de homens e jovens fizeram uma manifestação no Malecón. Castro foi até lá com seus guarda-costas nervosos e entrou no meio da multidão. Os manifestantes carregavam pedras e tijolos, mas quando viram Castro, jogaram tudo no chão e começaram a aplaudir. O tumulto, que começou a se expandir perigosamente, dissipou-se.” E Anderson, depois de fazer esta descrição, chega à seguinte conclusão: “É difícil imaginar que algum sucessor de Castro tivesse autoridade para tomar essa medida e a rebelião poderia expandir-se por toda a ilha…” [8]

Uma possível rebelião das massas é a principal preocupação do governo cubano. Para os leitores possivelmente pareça estranho pensar que uma rebelião possa chegar a ocorrer em Cuba, mas o governo tem razão de estar preocupado, porque foram justamente as rebeliões de massas a norma em praticamente todos os processos de restauração do capitalismo.

Existe a falsa idéia, difundida pelos meios capitalistas e assimilada pela maioria da esquerda mundial, que os processos de restauração não provocaram reações na população. Pior; diz-se que as massas foram para a rua exigir a volta do capitalismo. Isso não é verdade. O capitalismo foi restaurado e isso teve efeitos devastadores no nível de vida dos trabalhadores e do povo e por isso as massas foram para as ruas enfrentar os regimes restauracionistas. Na ex-URSS o desmantelamento do estado operário começou em 1986 e isso provocou, em 1989, o início de uma reação generalizada das massas que durou por vários anos e culminou com a derrota do regime de partido único, o PC. Na China, a destruição do estado operário começou em 1978 e gerou uma insurreição em 1988 que, ao contrário da ex-URSS, pôde ser controlada por meio de um massacre.

Em Cuba a restauração do capitalismo teve as mesmas conseqüencias para o nível de vida das massas que na ex-URSS e na China e isso gerou um profundo descontentamento. No entanto, em Cuba, assim como no Vietnã, esse descontentamento não se concretizou, até agora, em grandes enfrentamentos contra o governo restauracionista e isso não foi por acaso. Tanto na URSS como na China, o processo de restauração foi feito em nome do socialismo e do bem-estar dos trabalhadores e do povo. Mas essas mentiras não se sustentaram por muito tempo porque quem dizia isso eram burócratas sem passado e afastados das massas. Mas em Cuba e no Vietnã a realidade foi diferente. Nesses países também a restauração do capitalismo foi feita em nome da luta pelo socialismo, mas quem estava à frente essa campanha não eram burocratas afastados das massas e sim os antigos líderes da revolução e da expropriação da burguesia.

Essa é justamente a crise que se avizinha com a possível morte de Fidel. Se ele morre, quem poderá impedir a rebelião contra as conseqüências da restauração? Poderá Raúl Castro substituir Fidel nessa tarefa?

Além de Fidel Castro, a revolução cubana só gerou dois grandes líderes de massas: Camilo Cienfuegos e Che Guevara, mas ambos estão mortos. Raúl Castro é parte dessa mesma geração, mas nunca teve o carisma e a influência dos outros. O governo cubano sabe desse grave problema e isso é o que explica que o jornal oficial do PC e do governo, o Granma, tenha começado a fazer uma apologia de Raúl Castro. Em uma de suas últimas edições republica uma notícia do jornal Oriente, de 30 de julho de 1953, informando a prisão de Raúl por ter participado, junto com Fidel, do assalto ao quartel de La Moncada em Habana. A intenção é clara: recordar a participação de Raúl no processo revolucionário que levou à derrota de Batista. Essa apologia mostra, por outro lado, que a direção cubana, mais que temer o imperialismo, teme sua própria população porque é a ela que estão dirigidas essas notícias mostrando o passado revolucionário de Raúl Castro.

Como dizíamos anteriormente, o imperialismo não quer desestabilizar o regime cubano, mas não pode garantir que as massas não o façam. Se isso vier a ocorrer, um novo cenário estará criado e com certeza o imperialismo vai tentar intervir, porque uma rebelião de massas, em sua dinâmica, não só vai questionar o regime como o próprio processo de restauração capitalista.

Se isso vier a ocorrer em Cuba, a esquerda mundial estará frente a uma nova disjuntiva: de que lado vai se colocar? Até agora, a maioria da esquerda (reformista e revolucionária) em função de seu apoio à suposta “Cuba socialista”, tornou-se cúmplice de uma ditadura capitalista e também dos planos de recolonização do imperialismo europeu. Quando começarem as mobilizações contra o governo cubano essa esquerda continuará com a mesma política ou estará do lado dos trabalhadores e do povo, lutando contra o regime ditatorial do Partido Comunista e contra os novos conquistadores europeus e norte-americanos? O futuro da esquerda, sobretudo da esquerda revolucionária, vai depender de como, na prática, responda a esta pergunta.


NOTAS

[1] Fonte: Ministério de Inversão Estrangeira e Cooperação.
[2] León Trotsky, A Revolução Traída (Fontamara, Espanha, 1977) p. 192.
[3] Andrés Oppenheimer, jornalista e escritor argentino, trabalhou para a Associated Press e Miami Herald. É autor do livro La hora final de Castro. Em 1987 ganhou o prêmio Pulitzer.
[4] Andrés Oppenheimer, “La sucesión cubana en el mundo”. Nuevo Herald, 10 de agosto de 2006.
[5] Idem
[6] Jon Lee Anderson é autor do livro Che Guevara. Una biografía.
[7] “Balseros” – movimento de milhares de pessoas que, devido à penúria econômica, se lançaram ao mar em embarcações improvisadas para chegar aos Estados Unidos.
[8] “A última batalha de Fidel Castro”, Jon Lee Anderson. Caderno Mais, jornal Folha de S. Paulo, 6 de agosto de 2006.

Tradução: Cecília Toledo