Cresce pressão para que o Hamas abaixe a cabeça

O cerco em torno ao Hamas para que reconheça o Estado de Israel está se fechando e em todos os âmbitos: político, militar e financeiro. Desde que venceu as eleições no início do ano e passou a dominar o Parlamento da Autoridade Nacional Palestina (ANP), o Hamas vem sendo pressionado a formar um governo de coalizão com o partido Al Fatah, de Mahmoud Abbas. Mas não qualquer governo. Um governo destinado a reconhecer o Estado de Israel e aceitar as propostas do imperialismo, representado aqui por um quarteto: EUA, ONU, União Européia e Rússia.

Esse quarteto considera o Hamas um grupo terrorista. Mas isso não é novidade, já que o imperialismo considera terrorista todo e qualquer grupo ou indivíduo que se oponha à sua política de dominação do Oriente Médio. O problema é que o Hamas prega em sua carta de fundação a destruição de Israel. A enxurrada de votos que recebeu deve-se justamente a isso, ao desejo do povo palestino de se ver livre de Israel para poder retomar sua terra usurpada pelo Estado sionista.

Acordos de Oslo
A pressão política chegou ao ponto mais alto na última semana, quando Abbas anunciou na Assembléia Geral da ONU, em Nova York, que estaria formando um governo de união nacional com o Hamas para reconhecer o Estado de Israel. No dia seguinte, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, desmentiu: “não vou entrar em nenhum governo que reconheça Israel”. Foi reforçado pelo ministro das Relações Exteriores, Mahmoud al Zahar: “Isso é uma receita para a guerra civil. Os palestinos não aceitarão que confisquem suas crenças”.

Em bom português, se o Hamas baixa a guarda e aceita um acordo com o Fatah, reconhecendo inclusive o Estado de Israel, corre o risco de perder o apoio que o sustenta e que até agora vem impedindo que uma nova Intifada incendeie a Palestina.
A pressão política soma-se às pressões militares e econômicas para desestabilizar o governo. Desde a vitória do Hamas, a tática imperialista foi estrangular financeiramente a ANP, cortando a ajuda financeira.

Cerca de 165 mil funcionários civis do Hamas estão sem receber os salários desde março e a ANP não tem como continuar governando. Além disso, todo dinheiro que a Síria e o Irã tentam enviar para o Hamas vem sendo desviado por Israel. O exército israelense acaba de confiscar US$ 1,5 milhão enviado à Palestina, alegando que ia para grupos extremistas.

Enquanto tenta inviabilizar economicamente a Palestina e desestabilizar o governo, o imperialismo e Israel vêm promovendo um verdadeiro massacre, com emboscadas e assassinatos diários de líderes e militantes do Hamas.

Palestinos não aceitam acordo
O objetivo do imperialismo é dobrar ou destruir o Hamas para que o Fatah e Abbas, homem de sua confiança, voltem a dominar os territórios palestinos, como fazem há 11 anos. Com isso, o plano da Liga Árabe, que prevê a saída de Israel dos territórios ocupados em 1967 e o reconhecimento do Estado israelense pelos palestinos, poderia ser implantado.

Fatah e Abbas desejam reverter a derrota sofrida nas eleições de janeiro, em que ficou clara a crise profunda da Al Fatah, que por várias décadas foi a direção indiscutível dos palestinos. Sua crise e decadência são resultado de um longo processo de abandono e traição de suas históricas bandeiras de luta, como o combate por uma Palestina unificada laica, democrática e não racista, que foram jogadas no lixo após a adesão do Fatah aos acordos de Oslo, em 1993.

Mas os palestinos não aceitam ter de volta apenas uma parte de seu território. Querem o território integral, e isso é o que vem impedindo o Hamas de aceitar a formação de um governo de coalizão com o Fatah. Caso o Hamas aceite o acordo, seu destino seria a mesma decadência que tomou conta do Fatah a partir de 1993.
Nas últimas semanas, os conflitos atingiram seu ponto máximo com confrontos violentos entre militantes do Hamas e do Fatah, que deixaram 12 mortos e mais de 100 feridos.

Os confrontos não ocorrem apenas entre Hamas e Fatah. No final da semana, centenas de palestinos entraram em confronto com militares e policiais israelenses que estavam bloqueando sua entrada na mais importante mesquita, a Al Aqsa. Os palestinos queriam entrar para participar das cerimônias do mês sagrado, o Ramadã, mas, pelas normas israelenses, apenas os palestinos com mais de 45 anos podem ter acesso à Esplanada das Mesquitas. Os jovens, maiores suspeitos de “terrorismo”, são perseguidos e marginalizados por Israel.

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