Na América Latina, o Brasil ocupa o último lugar quanto ao número de testes realizados, proporcional à população

Walber Cruz, Doutor em Farmacologia pelo ICB-USP, professor de Psicofarmacologia na Unipaulistana, São Paulo (SP)

O Turcomenistão é um país na Ásia central cujo ditador, Gurbanguly Berdymukhamedov, decretou que lá não existe a covid-19. Lá não existe subnotificação, porque tampouco existe notificação, pois não há testes, e quem falar a palavra coronavírus pode até ser preso.

Bolsonaro reconheceu uma “gripezinha”, mas a sua política tem os mesmos fundamentos da de Gurbanguly: não reconhece a pandemia e ao mesmo tempo a utiliza para retirar direitos dos trabalhadores e, se possível, acabar com as liberdades democráticas no país.

Como a pandemia não reconhece ordens de ditadores, para estes senhores a única forma de acabar com ela é impedir que as informações circulem.

Para justificar a ausência de teses em massa no Brasil de acordo com a orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o flamante Luiz Henrique Mandetta afirmava que não poderia testar 210 milhões de brasileiros. Como se alguém estivesse propondo isso. Nem a Coreia do Sul fez isso. Ao tergiversar sobre os testes, o Mandetta deixou o ministério com menos de 1% dos testes prometidos.  E por isso, o Brasil ocupa o último lugar entre todos os países latino-americanos entre indivíduos testados proporcionalmente à população.

Quando escrevíamos este artigo, não havia testes nem para os profissionais da saúde expostos ao vírus e tampouco para detectar as causas dos óbitos por insuficiência respiratórias que estão ocorrendo nos hospitais brasileiros. A política da subnotificação no Brasil não é somente um crime contra os profissionais da saúde, é a mesma do ditador do Turcomenistão, esconder a pandemia e realizar um genocídio no país.

Quais são os testes que podem detectar a infecção do vírus?

Existem dois tipos de testes para diagnosticar a infecção pela covid-19. Os testes moleculares, os mais eficazes, que analisam o material genético do vírus e precisam ser realizados em laboratórios. Apesar de que são mais precisos, são mais demorados. A sua vantagem com relação aos testes rápidos é o fato de permitir identificar a presença de vírus em indivíduos assintomáticos.

O segundo tipo são os chamados testes rápidos (imunológicos), que detectam anticorpos produzidos pelo organismo humano para combater o vírus, melhor detectados a partir do quinto dia de infecção. O resultado sai na hora e sem necessidade de laboratório, mas não tem 100% de eficácia, na medida em que exige que a pessoa tenha os sintomas desenvolvidos.

Os países que aplicaram os testes em massa, utilizaram uma combinação dos dois testes. Apesar de menos eficaz, o teste rápido permite isolar os indivíduos portadores que difundem a enfermidade por dias e dias. E os testes laboratoriais, mais utilizados para impedir a proliferação do vírus nos locais que devem combatê-los, como os hospitais, isolando rapidamente os profissionais da saúde.

As pesquisas realizadas pelas universidades e laboratórios brasileiros

A demora em montar a infraestrutura que permita a produção de testes em massa no Brasil foi uma decisão da política genocida de Bolsonaro, a qual nunca foi denunciada por Mandetta e que se aprofundará com Teich. Já que o novo ministro não veio para combater a pandemia, mas para realizar negócios para a medicina privada.

Os obstáculos para a produção de testes em massa, segundo o ministério da saúde, era o fato de que os insumos para sua produção eram importados e a ação dos governos imperialistas norte-americano e europeus impediam a importação. Alegavam então que a sua subordinação às potências imperialistas impedia a produção nacional. Mas agora nem isso podem alegar.

Algumas universidades brasileiras e instituto de pesquisas desenvolveram testes rápidos com insumos brasileiros, os quais tem a mesma eficácia dos importados ou talvez seja até mesmo superior. O quadro abaixo, sendo muito parcial, demostra algumas destas instituições.

O Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) tem sua sede em Manaus, uma das cidades mais atingidas pela pandemia, e foi justo ai que uma versão nacional dos kits de diagnóstico rápido da covid-19 foi desenvolvido.

Segundo o gestor do CBA, Fábio Calderaro, esse novo teste pode ser produzido com insumos nacionais e terá um índice de detecção superior ao dos kits importados. Ele afirma  que “os kits diagnósticos produzidos com anticorpos e antígenos importados podem ter baixa sensibilidade de detecção no Brasil, uma vez que não são adaptados à nossa realidade viral, por isso a necessidade de produção de um kit com insumos nacionais para atender à específica e crescente demanda brasileira”.

Ainda segundo Calderado, “a técnica de produção com materiais e antígenos nacionais poderá ser distribuída para diferentes centros de produção”.

Os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram métodos que permitem fazer testes para identificar o vírus em equipamentos disponíveis na maioria dos laboratórios do país. A técnica, que utiliza reagentes produzidos no Brasil, reduzirá o tempo de detecção da doença para quatro horas, com a mesma eficiência do teste convencional. Os cientistas também estão desenvolvendo um método de teste rápido que utiliza anticorpos para identificar pessoas infectadas, a partir de secreções produzidas na garganta.

A Fiocruz, afirma que pode produzir mensalmente 1 milhão de testes moleculares e 1 milhão de testes rápidos, até o fim de abril.  E, por fim, a Universidade Federal de Uberlândia através do seu Laboratório de Nanobiotecnologia do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Teranóstica e Nanobiotecnologia (INTC TeraNano) diz trabalhar com testes que ficam prontos em apenas um minuto, realizados por sensores biológicos com Inteligência Artificial, capazes de detectar a presença do novo coronavírus com rapidez e baixo custo.

Esta universidade aponta uma expectativa de que os primeiros equipamentos para o início dessas pesquisas estejam disponíveis para o sistema de saúde em menos de um mês. Cada equipamento, que custa cerca de R$100 mil, consegue processar entre 400 e 500 resultados por dia e cada exame deverá ter um custo de R$40. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem informado que colocou sete laboratórios à disposição dos pesquisadores.

O Brasil pode realizar uma testagem em massa

Além dos laboratórios e institutos citados, o Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio do Grande do Sul (CBiot – UFRGS) trabalha em associação com as empresas Amplicon e QuatroG, para montar um teste molecular com insumos produzidos localmente.

Mas o setor privado controla a maior fatia da produção. O Grupo Fleury – responde por cerca de 80% (dois tipos de testes) do mercado da capital paulista. Vários outros laboratórios produzem a partir de insumos importados (sobretudo da China) Celer, BioconEco, Eco-diagnóstica, Medlevensohn, Ebram, QR Consulting, Hermes Pardin, Grupo Sabin.

Em que pese a destruição do parque industrial brasileiro pela subordinação do país as potências imperialistas que nos reserva o lugar de produtores de soja e carne no mundo, podemos afirmar que tanto a capacidade industrial instalada como a tecnologia desenvolvida no Brasil permitem a fabricação de kits para uma testagem em massa no país.

O país que realizou mais teses em massa – a Coreia do Sul – realizou 400 mil teses para uma população de 50 milhões de habitantes. Isso é perfeitamente possível de ser realizado nas regiões mais afetadas pela pandemia no Brasil.

Ocorre que Bolsonaro, a expressão mais genocida da queda no país na hierarquia entre os Estados-Nações no mundo, aproveita a pandemia para dizimar povos indígenas e quer reduzir o desemprego assassinando milhares de trabalhadores das periferias das grandes cidades, assim como quer acabar com a quarentena mequetrefe nos Estados. Bolsonaro não vai concentrar a capacidade produtiva que ainda tem o país, assim como a tecnologia dos testes com insumos nacionais, para centralizar a produção nacional de teses.

Centralizar a produção significaria colocar todos os laboratórios privados em condições de produzir os kits fossem obrigados a fazê-lo, e casos não obedeçam essa diretriz deveriam ser expropriados e colocado sob controle dos seus próprios trabalhadores.

Mas a política do presidente genocida é copiar o que está sendo feito pela ditadura do Turcomenistão. Por isso, não precisa de testes. E além disso, necessita acabar com as liberdades democráticas, porque os milhares de mortos que já existem e os que existirão não podem ser notificados como resultado da pandemia e de sua política genocida.

Não havia testes na administração de Mandetta e agora isso vai se aprofundar com o novo ministro Nelson Teich. O argumento de que não podemos testar 210 milhões para não fazer nada é parte da mesma política de que não se pode realizar a quarentena social porque vai gerar desemprego: quer dizer então que não se pode fazer nada!

Mas tanto o desemprego pode ser barrado como os testes podem ser realizados. Quanto às demissões do trabalhadores, basta que Bolsonaro decrete estabilidade no emprego, pelo menos enquanto durar pandemia. Quanto ao testes, basta centralizar a produção.