Covid-19, capitalismo, guerras, revolução…

Quando a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, declarou que a atual pandemia de Covid-19 seria o maior desafio da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, deu a impressão de que estaria exagerando. Só que depois, o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou o mesmo. Até Donald Trump, que no início da pandemia disse que era “semelhante a uma gripe comum”, acabou declarando que, para o seu país, também era o maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial.

No mesmo sentido, personalidades de renome, do campo científico, cultural e político, chegaram a comparar a atual pandemia com a “gripe espanhola”, uma das maiores da história. E inclusive dizem que suas possíveis consequências poderão se comparar com as da Primeira e Segunda Guerra Mundial.

Ainda é muito cedo para afirmar todas as consequências que a atual pandemia trará para a humanidade, mas, se a resposta a ela depender apenas dos governos capitalistas, o mais provável é que provoque estragos no planeta inteiro, semelhantes aos efeitos das tragédias acima mencionadas.

Pandemias e capitalismo

A Covid-19, assim como a “praga de Justiniano”, a “peste negra” ou a “gripe espanhola”, é um dos muitos vírus que, ao longo da história, exterminaram grande parte da humanidade. Mas, ao longo da história, o ser humano também foi dominando a natureza de tal forma que atualmente poderíamos ter todas as condições para evitar que esse tipo de epidemia se transformasse em uma pandemia e, caso chegasse a isso, impedir que tivesse consequências tão graves.

A praga de Justiniano, que atingiu seu pico entre 541 e 544 (d.C.), não pôde ser controlada. Ela durou dois séculos, matando, segundo foi estimado, de 25 a 100 milhões de pessoas.

A peste bubônica, conhecida como “peste negra”, ao contrário, pôde ser contida. Essa pandemia, que surgiu na China e migrou para a Europa entre os anos de 1.347 e 1.351, causou ainda mais mortes (entre 75 e 200 milhões de pessoas). Ela provocou o extermínio de mais de um terço dos habitantes da Europa. No entanto, conseguiu ser controlada através de duas medidas que hoje em dia parecem ser relativamente simples: quarentena e cuidados com a higiene.

Mas, se há 669 anos foi possível controlar a peste negra, o que explica que, desde o início, não tenha sido possível controlar a Covid-19?

O que explica essa contradição é o mesmo que explica que, há 100 anos, outra terrível pandemia não tenha sido controlada: a “gripe espanhola”. Essa gripe não pôde ser controlada porque os interesses das grandes potências imperialistas da época o impediram.

Marx, há mais de 170 anos, disse “… a vida da burguesia tornou-se incompatível com a sociedade “[1]. Essa sentença se comprovou na realidade quando, em 1914, eclodiu a Primeira Guerra Mundial.

Na Primeira Guerra o que estava em disputa eram os negócios das diferentes potências da época e, para defender esses negócios, cada potência enviava seus exércitos, formados por jovens camponeses e operários, recém-incorporados, para matar os operários e camponeses das outras potências. O resultado foi destruidor. Morreram 10 milhões de pessoas, entre soldados e civis, e 20 milhões ficaram feridos, a maioria mutilados. Foi nesse contexto que surgiu a pandemia de gripe espanhola, causando em todo o mundo um número muito maior de vítimas do que os da guerra.

Havia condições para evitar essa tragédia há 100 anos? Bastava aplicar, como mínimo, a política que na Idade Média controlou a peste negra. Mas isso afetaria os interesses das grandes potências imperialistas, particularmente dos Estados Unidos. E por isso a opção foi “salvar a economia” com um trágico custo humano.

A gripe espanhola, ao contrário do que o nome indica, não surgiu na Espanha, mas nos EUA. Em março de 1918, a epidemia apareceu dentro de um acampamento de soldados que se preparava para intervir na guerra e se espalhou para outros 13 acampamentos. Apesar disso, a necessidade de “cuidar da economia” foi imposta sobre a saúde, e as tropas infectadas pela gripe espanhola foram enviadas para a Europa. Assim, o que era uma epidemia no interior dos EUA se espalhou por todos os continentes e se transformou em uma pandemia.

Na Europa destruída pela guerra interimperialista, a gripe encontrou terreno fértil para se desenvolver e o mesmo ocorreu nas colônias onde reinava a extrema pobreza. Enquanto tudo isso acontecia, a existência da gripe espanhola foi mantida como segredo de Estado por todos os países em guerra. Isso só mudou quando, depois que a gripe afetou a França, por onde entravam os soldados americanos, se espalhou pela Grã-Bretanha, e de lá para a Itália, passando pela Alemanha, para finalmente chegar à Espanha que, por ser um país neutro, divulgou a existência do terrível flagelo. Por isso, ficou conhecida como “gripe espanhola”, já que se dizia (de forma mentirosa) que era o único país em que a gripe existia.

Para impedir que a epidemia se transformasse em pandemia, os EUA precisavam se isolar do resto do mundo. Mas isso, na prática, significava retirar-se da guerra no momento em que acabava de entrar e isso era impensável para o império americano.

Os EUA, num primeiro momento, não participaram da Primeira Guerra Mundial, o que permitiu a Thomas Woodrow Wilson, com um discurso pacifista, vencer as eleições presidenciais. Mas, após sua vitória, ele mudou a política e com um discurso hipócrita de “… tornar o mundo seguro para a democracia”, decidiu intervir na guerra para não perder sua parte na pilhagem e, por isso chegou a enviar um milhão e meio de soldados, inclusive contaminados pela gripe espanhola, o que acarretou a morte de muitos deles nos navios antes mesmo de chegarem à Europa.

A intervenção dos EUA foi decisiva para a Tríplice Entente[2] ganhar a guerra. Se não o tivessem feito, os Estados Unidos não seriam o poder imperialista que é hoje.

No final da pandemia, foi feito um balanço dos “danos colaterais”. Os EUA, que tiveram 116.000 mortos na guerra, tiveram mais de 500.000 devido à gripe espanhola; a França teve 400.000; Grã-Bretanha 250.000; Itália 400.000; Índia entre 10 e 17 milhões; China 30 milhões; Espanha 200.000; Rússia entre 450.000 e 2.700.000; Brasil 35.000; Argentina 15.000; Chile 43.000. No total, estima-se que morreram, em nível mundial, entre 50 e 100 milhões de pessoas e pequenas comunidades indígenas foram completamente exterminadas.

Capitalismo e Covid-19

Se em 1918 existiam condições para impedir que a epidemia de gripe espanhola se transformasse em uma pandemia, hoje em dia existem, teoricamente, condições muito melhores para enfrentar o Covid-19.

Por exemplo, para enfrentar esta pandemia hoje, existem mais de 100 testes diferentes para detectar se as pessoas estão contaminadas e, assim, poder isolá-las do restante da população, algo que não era possível em 1918.

Atualmente, os pacientes mais graves também podem ser tratados com respiradores mecânicos e com vários tipos de antibióticos, e em uma semana pode ser construído hospitais enormes e modernos. Tudo isso era impensável em 1918. Por outro lado, a gripe espanhola se espalhou rapidamente pela Europa porque o continente foi destruído pela guerra.

Porém, apesar de todos os avanços científicos e técnicos, e apesar de não haver guerra mundial hoje, o mundo está atualmente nas mesmas ou até em piores condições do que em 1918 para enfrentar uma pandemia que ameaça causar milhões de mortes.

Isso ocorre porque, assim como em 1918, os interesses do capitalismo, como Marx disse, se contrapõe aos interesses da sociedade como um todo, e é por isso que não podemos tirar proveito dos avanços da ciência. Na realidade, o capitalismo se mostra incapaz de garantir sequer as duas medidas que foram utilizadas na Idade Média para conter a peste negra.

A pandemia já se espalhou para quase todo o mundo com uma série de infectados e mortes que não param de crescer. Por outro lado, isso tem causado uma queda brusca nas ações das bolsas de valores, na produção de forma generalizada e todos os estudos indicam que o mundo entrará numa profunda recessão econômica[3] que pode gerar uma depressão[4].

Essa situação fez com que toda a sociedade tenha entrado em “guerra contra a Covid-19”, só que é uma guerra com objetivos diferentes. A população como um todo, com os médicos e enfermeiros na vanguarda, busca desesperadamente, em primeiro lugar, salvar vidas. Os governos, junto com os grandes capitalistas, estão procurando desesperadamente, em primeiro lugar, salvar seus negócios.

Neste contexto, o governo americano disponibilizou muitos milhões de dólares para a “guerra contra a Covid-19”, mas grande parte desses recursos está destinada às grandes empresas para, supostamente, “defender o emprego”; só que essas mesmas empresas, com o aval do governo, já demitiram 22 milhões de trabalhadores nas últimas semanas.

Enquanto isso, o governo americano, apesar de contar com todos esses recursos, só agora está comprando suprimentos para os hospitais, porque já estão em colapso. A tal ponto que não faltam apenas respiradores, mas até máscaras para proteger médicos e enfermeiros, ao mesmo tempo em que não se consegue saber quem está infectado e quem não está, já que pouquíssimas pessoas foram testadas.

O que faz com que o governo americano, assim como a grande maioria dos governos do mundo, só agora esteja tentando comprar suprimentos hospitalares não se deve a uma suposta “ignorância”, mas a uma política consciente que tem sido implementada há anos para sucatear os sistemas públicos de saúde, bem como a orientação aplicada inicialmente para enfrentar a pandemia, que agora está mudando, ainda que apenas parcialmente.

Um genocídio está em andamento

Há praticamente uma unanimidade entre cientistas de todo o mundo de que a política conhecida como “não fazer nada” para permitir que a população seja contaminada pelo vírus e, dessa forma, a maioria ganhe imunidade, causaria a morte de milhões de pessoas. Principalmente devido ao colapso que geraria nos sistemas de saúde dos diferentes países, pois os pacientes mais graves de Covid-19 morreriam por não poderem ser atendidos, e o mesmo aconteceria com pacientes com outras doenças graves.

Ao contrário, com a política conhecida como “supressão”, na qual há uma combinação de isolamento social, quarentena e testes em massa, as perdas humanas seriam qualitativamente menores.

O problema é que esse último tipo de política afetaria bastante a “economia”. Por isso, o dilema se tornou tão atual: o que é mais importante, a economia ou a saúde?

As massas de todo o mundo não tiveram dúvidas. Elas optaram pela saúde ou, para ser mais preciso, optaram pela vida, pois é disso que se trata. Os capitalistas, ao contrário, optaram por defender seus negócios à custa da vida de milhões e milhões de pessoas, embora muitos estejam defendendo essa mesma política com o discurso hipócrita de “defender a saúde”.

O governo Trump, dos EUA, assim como os governos do Reino Unido, Holanda, México, Brasil, França e muitos outros países, no início, defenderam a política de “não fazer nada”, com o discurso mentiroso de que a pandemia de coronavírus não existia ou era uma “gripezinha”. Uma política muito semelhante a que foi aplicada em 1918, quando os EUA defenderam o mesmo, com o argumento mentiroso de que a gripe só existia na Espanha. Foi por ter defendido essa política, diante da atual pandemia, que os EUA e a maioria dos outros países não se prepararam para enfrentar o Covid-19.

Mas essa política foi abandonada pela maioria dos países, principalmente depois da repercussão mundial da grande quantidade de mortos na Itália, Espanha e até nos Estados Unidos, uma vez que os governos certamente temiam possíveis revoltas quando as massas comprovassem que não se tratava de uma “gripezinha”.

Mas a nova política de Trump e do restante dos governos, mais uma vez, não foi a de “supressão”. Agora, a maioria dos governos estão destinando recursos à saúde e estão tomando medidas mais rigorosas, como o “isolamento social”, só que, na maioria dos países esse isolamento não chega às fábricas, que continuam trabalhando, assim como o transporte, de forma que os operários, as operárias e suas famílias ficam expostos ao contágio. E mesmo onde essas medidas limitadas são tomadas, grande parte dos empresários e até mesmo os presidentes desses países, pressionam para revogá-las rapidamente.

Trump anunciou sua mudança de política para os EUA dizendo que se eles não fizessem nada (sua política anterior) mais de 2 milhões de pessoas morreriam enquanto que, com a nova política, “apenas” morreriam entre 100.000 e 200.000 (quantidade que é questionada para vários cientistas).

Mas, o que Trump não diz, é que com as medidas limitadas que está tomando, são os setores mais pobres da população que serão os mais afetados. Atualmente, nos EUA, os negros são os que mais estão morrendo. Assim, na cidade de Chicago, onde os negros são 30% da população, chegam a 70% dos mortos.

Se é assim nos EUA, é possível imaginar o que acontecerá quando a pandemia atingir com força os países mais pobres da América Latina, África e Ásia.

A pandemia, até agora, atingiu com força somente os países mais ricos e já houveram 2.300.000 infectados e 158.000 mortos no mundo. Só que nesses países os “grupos de risco” (acima de 60 anos e/ou com doenças graves pré-existentes) são uma minoria da população.

Mas o que acontecerá quando chegar aos países mais pobres, onde a maioria de suas populações está em situação de alto risco?

O que ocorrerá quando chegar a um país como a República Democrática do Congo, com 80 milhões de habitantes, onde a maioria sofre de desnutrição? Ou o que acontecerá quando chegar à República Centro-Africana, que tem 5 milhões de habitantes e apenas três respiradores mecânicos em todo o país?

O que vai acontecer é que amplos setores dessas populações serão exterminados. Um verdadeiro genocídio. E não só nesses dois países.

Os relatórios oficiais da OMS e da ONU mostram como é o mundo capitalista de 7 bilhões de habitantes. A maioria dos países está em uma situação de alto risco diante da pandemia porque 2 bilhões de pessoas vivem em moradias precárias; 2,4 bilhões não têm saneamento básico em suas casas; 2 bilhões não têm eletricidade, 1,1 bilhão não têm acesso à água potável; 821 milhões de pessoas estão desnutridas; 2,6 bilhões não têm banheiros em suas casas e, além disso há um déficit de 5 milhões de profissionais de enfermagem.

Esse é o mundo real, o mundo capitalista, e por isso que a Covid 19 vai provocar um genocídio na maioria pobre do planeta.

Diante dessa situação, como soam atuais as palavras de Marx! “Aqui está uma prova cabal da incapacidade da burguesia de continuar governando a sociedade… Ela é incapaz de governar, porque é incapaz de garantir aos seus escravos sequer a sua existência, mesmo dentro de sua escravidão…”[5] .

Guerras e revoluções

Os governos e a imprensa internacional identificam a luta contra a pandemia como uma “guerra”, e eles têm razão. É uma guerra, não por causa da forma, mas devido as suas consequências catastróficas, especialmente para as massas de todo o mundo e particularmente, como em qualquer guerra, para os mais pobres e desamparados.

Essa guerra, contra a Covid-19, é semelhante às guerras mundiais, embora, nesse caso, seja muito maior devido à sua extensão, pois estão participando dela 188 países dentre os 193 que existem.

Mas, para ser mais preciso, teríamos que compará-la com as guerras em que os soldados vão à luta, tão mal armados que, desde o primeiro momento, são massacrados pelo inimigo, como aconteceu com a Rússia dos czares, durante a Primeira Guerra Mundial. E também podemos compará-lo com as guerras justas, como as das Malvinas, da Argentina contra a Inglaterra, que têm a sua frente uma liderança tão reacionária que, sendo covarde para enfrentar o inimigo, se mostra muito “corajosa” para enfrentar seus próprios soldados, os quais são humilhados, punidos e até torturados.

Nesta guerra, toda a imprensa destaca, surpreendida, as ações de solidariedade e coragem que surgem nas diferentes populações do mundo.

Em todos os lugares, os profissionais de saúde são chamados, de forma muito justa de “heróis” e são frequentemente homenageados pela população, porque vão à guerra, sem armadura para se defender e com poucas armas para atacar o inimigo, e nem por isto desertam.

Suas condições de trabalho são tão precárias que os que já foram contaminados somam dezenas de milhares. Somente na Itália já existem 14.000 contaminados entre médicos e enfermeiras, e mais de 130 já morreram.

Apesar disso, quando alguns governos convocam médicos e enfermeiras para irem para a linha de frente, dezenas de milhares respondem ao chamado; assim como quando voluntários são convocados para outras diversas tarefas.

O mesmo ocorre com o restante dos trabalhadores dos “serviços essenciais”. Eles cumprem, com orgulho, seus deveres (ninguém deserta) apesar de saberem dos riscos que correm de serem contaminados.

Nos bairros de muitos países, milhares de jovens se arriscam para ir às compras para idosos, refugiados em suas casas, enquanto outros milhares, de todas as idades, coletam alimentos para entregar aos mais necessitados. E temos visto esse tipo de comportamento se espalhar nos bairros pobres de Santiago do Chile e nas favelas brasileiras de São Paulo e Rio de Janeiro.

Quanto mais cresce a pandemia, a solidariedade humana, especialmente entre os setores mais pobres, se espalha como um rastro de pólvora.

Essa solidariedade humana contrasta, visivelmente, com o egoísmo típico dos empresários e de seus governos, preocupados, em primeiro lugar, com seus negócios.

O caso já citado de isolamento social com as fábricas funcionando, mesmo as que não fazem parte dos serviços essenciais, é uma amostra desse egoísmo de classe. E o mesmo ocorre com a fabricação de respiradores mecânicos, um instrumento insubstituível para salvar a vida dos pacientes mais graves. Sem eles, milhões de pessoas inevitavelmente vão morrer. No entanto, em grande parte dos hospitais do mundo, esses instrumentos não existem ou são completamente insuficientes.

No início, não havia respiradores porque os governos, pelos motivos expostos, não se prepararam para a pandemia; atualmente porque os empresários que fabricam esses aparelhos estão “fazendo o negócio da China” vendendo-os a preços astronômicos e somente com pagamento adiantado.

Para se ter uma ideia, um aparelho relativamente simples, com preço de custo de aproximadamente 400 dólares, no início da pandemia estava sendo vendido por 9.000 dólares e atualmente os preços chegam até 40.000 dólares.

Os governos dizem “estamos em guerra”, mas não fazem o que qualquer governo faria em uma guerra convencional, que é colocar a produção das fábricas a serviço das necessidades da guerra. Nesse caso, eles teriam que obrigar os empresários a fabricar respiradores pulmonares e entregá-los aos governos a preço de custo.

A única “exceção” foi o governo dos EUA, que, apelando para uma lei da época da Guerra da Coréia, obrigou a General Motors a fabricar 30.000 respiradores. Só que a empresa queria cobrar preços tão absurdos que até o próprio Trump reclamou publicamente. Finalmente, após um mês de negociação, a GM comprometeu a fabricar os respiradores pelo “modesto” preço de 16.000 dólares cada um (o preço de custo, de acordo com a GM), e o governo aceitou. Mas, como o governo não estava preparado e a negociação demorou muito, a empresa só entregará os respiradores no mês de junho.

Nos EUA já morreram 38.000 pessoas, muitas delas por falta de respiradores. Quantos mais terão que morrer até junho? Se essa é a situação dos respiradores nos EUA, é possível imaginar como será em suas colônias e semicolônias. O capitalismo mata.

Os governos capitalistas são incapazes de garantir uma verdadeira quarentena, garantir padrões de higiene para toda a população, realizar testes em massa, produzir respiradores pulmonares para salvar milhões de vidas, garantir máscaras e luvas, como mínimo para todos os médicos e enfermeiros. E, muitas vezes, são incapazes até de garantir um enterro decente para as pessoas, como se tem visto na cidade de Guayaquil e nas valas comuns abertas da cidade de Nova York, o centro do imperialismo. E a pandemia ainda está no começo.

Dessa maneira, os governos capitalistas mostram, desde o princípio, que são incapazes de vencer esta guerra. Seus mesquinhos interesses de classe os impedem. De tal maneira que, diante da impotência da burguesia, milhões de pessoas morrerão, em todo o mundo, vítimas da Covid-19, ao mesmo tempo em que milhões de sobreviventes se somarão aos milhões que atualmente estão desempregados em todo o mundo. Por enquanto, já na maior potência capitalista, os Estados Unidos, nas últimas quatro semanas, foram demitidos 22 milhões de trabalhadores.

Havia todas as condições para vencer esta guerra contra o Covid-19, pois bastava que a disposição e a solidariedade que as massas têm demonstrado em defesa da vida, se somasse à mesma disposição dos governos. Mas isso é impossível porque, nesta guerra, diferente das guerras convencionais, o que está em jogo, em primeiro lugar, é a vida de milhões de pessoas pobres e, para os atuais donos do poder, o que está em jogo, antes de tudo, são seus negócios.

Para vencer esta guerra, seria necessário que quem estivesse à frente dos governos dos diferentes países fossem os melhores representantes das massas que estão dispostos a enfrentar a pandemia até o final. Nesse sentido, é bom lembrar o que aconteceu na Rússia, a partir de 1918, com outra epidemia.

Na Rússia, surgiu uma forte epidemia de tifo, uma doença transmitida pelos piolhos que assolavam a Rússia devido à destruição e miséria geradas pela Guerra Civil. Essa epidemia contaminou 25 milhões de pessoas e matou 3 milhões. Mas a guerra contra os piolhos e o tifo foi tomada como uma tarefa central do governo, que havia surgido com o triunfo da revolução, ao qual se uniu as massas e através de campanhas em defesa da higiene, a construção de uma grande quantidade de hospitais e serviços médicos dentro das fábricas, a epidemia foi controlada e, assim, puderam salvar milhões de vidas.

Há um discurso de Lenin, de 1919, que retrata bem essa luta do governo junto com a população. “… Piolhos e tifo estão derrubando nossas tropas… A isto dizemos: ‘Camaradas, devemos concentrar tudo neste problema. Ou os piolhos derrotam o socialismo, ou o socialismo derrota os piolhos! … É necessário que cada trabalhador, cada organização, cada instituição leve isso em consideração em todas as reuniões. Se dedicarmos todos os nossos esforços para eliminar o tifo na Rússia, que deriva da falta de cultura, pobreza, atraso e ignorância. Se dedicarmos a essa guerra sem sangue, toda a força e experiência obtidas numa guerra sangrenta, podemos ter certeza de que teremos sucesso cada vez maior neste trabalho. ”

Porém, infelizmente não são os trabalhadores em luta, como no caso da Rússia de 1918, que hoje estão à frente dos diferentes países, por isso, a combinação da pandemia, com a recessão econômica, vai gerar importantes mudanças no mundo. O mundo vai se parecer com aqueles países devastados pela guerra. Com fábricas fechadas, com muitos milhões de novos desempregados, desnutridos e refugiados. Com o aumento significativo da violência urbana e também de suicídios.

A Covid-19 tem ganhado uma batalha após a outra e, se isso continuar, levará a uma derrota quase inevitável dos explorados e oprimidos do mundo. Não podemos negar essa possibilidade, ou melhor, essa realidade, a menos que o vírus, de um dia para o outro, sofra uma mutação, como aconteceu com a gripe espanhola[6], e a pandemia se torne uma “gripezinha” como Trump gostaria. Ou que os cientistas descubram algum remédio que possa curar as pessoas contaminadas. Mas, se essas hipóteses, bastante improváveis, não ocorrerem, o capitalismo novamente cometerá um crime de grandes proporções contra a humanidade.

E o que podemos esperar a partir dessa derrota? Como as massas reagirão a ela?

Aos que gostam de analisar a realidade a partir do “senso comum” certamente chegará à conclusão de que por trás de uma grande derrota, inevitavelmente, virão novas e novas derrotas. No entanto, a luta de classes geralmente não é muito amiga do senso comum.

Sobre o futuro, perante uma nova realidade que está surgindo, nada pode ser descartado.

Só podemos ter duas certezas. A primeira é que muitas coisas vão mudar e a segunda é que, como sempre, a luta de classes dará a última palavra.

Portanto, não podemos descartar que as massas não respondam a esse ataque. Ou que respondam e sofram uma derrota histórica (aquelas que duram décadas), o que pode inclusive levar à generalização de regimes fascistas.

No entanto, a partir da comparação que estamos fazendo com uma grande guerra, não nos parece que isso seja mais provável.

As guerras, por serem um momento em que as massas são forçadas a assumir uma luta de vida ou morte, levam ao extremo todas as contradições sociais, e isso faz com que os processos anteriores sejam potencializados de tal forma que, normalmente, uma semana de guerra equivale a mais de um ano de luta de classes.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, onde milhões de operários, camponeses e setores populares, foram forçados a matar seus irmãos de classe de outros países, estava começando a pior derrota da história da classe operária mundial, reforçada pelo fato de terem sido enviados, para matar ou morrer, pelas próprias direções dos partidos operários da Segunda Internacional.

Essa guerra, do ponto de vista das massas, só teve derrotas. Dez milhões de mortes, aos quais se somaram, pelo menos, mais 50 milhões vitimados pela “gripe espanhola”.

Contudo, Lenin, logo após o início da guerra, disse que na Europa havia aberto uma situação revolucionária, em meio às atrocidades da guerra, ele disse, em 1916: “A Europa está gestando uma revolução “[7]

Essa posição de Lênin certamente deve ter gerado a impressão para muitos de seu tempo, que não passava de uma ilusão, mas a história confirmou que ele estava certo. Pois a existência da guerra foi um elemento qualitativo, para que houvesse uma série de levantes revolucionários dentro do exército do Império Austro-Húngaro, na França, na Alemanha, na Rússia, na Itália, na Inglaterra e foi justamente nesse contexto que se deu o triunfo da maior revolução da história, a Revolução Russa.

Isso é conhecido, mas não é tão conhecido até que ponto a guerra foi o fator qualitativo para que os sovietes tomassem o poder na Rússia, como demonstra o seguinte fato: Dentro do Partido Bolchevique, nos momentos decisivos, havia muitas dúvidas e insegurança sobre a proposta de Lenin de que os sovietes tomassem o poder. E, para superar essas dúvidas, foi decisiva a posição dos vários batalhões de soldados que estavam na frente de batalha. Pois eles não só defenderam que os sovietes assumissem o poder, como também argumentaram que, se não o fizessem, marchariam, com suas armas, até São Petersburgo, para ocupar o soviete. É que para os soldados, a palavra de ordem de “paz” levantada pelos bolcheviques, era a diferença entre a vida e a morte.

Sobre o papel da guerra, alguns poucos meses antes do triunfo da revolução, Lenin dizia: ” Se não houvesse guerra, a Rússia teria vivido talvez anos, ou mesmo décadas, sem uma revolução contra os capitalistas “[8].

E sobre este mesmo assunto, Trotsky escreveu: “Não é à toa que a guerra tenha sido, por muitas vezes na história, a mãe da revolução[9].

Aparentemente, agora estaríamos em uma situação diferente, porque vários governos, tendo mudado de posição e se colocado à frente da guerra contra a Covid-19, se fortaleceram. Como é o caso de Trump nos EUA, Fernández na Argentina ou dos governadores no Brasil.

Mas isso não pode nos enganar. Normalmente, no início de todas as guerras, os discursos mentirosos dos líderes capitalistas conseguem convencer as massas. Foi assim na Primeira Guerra Mundial. Num primeiro momento um sentimento patriótico tomou conta das massas dos diferentes países, as quais se reuniam nas ruas para saudar os jovens soldados que marchavam rumo à guerra.

Quando a guerra começou, Trotsky estava na Áustria e pôde testemunhar o fervor patriótico do país e chegou a seguinte conclusão: “A mobilização e a declaração de guerra parecem ter apagado todos os antagonismos sociais e raciais no país. Mas isso é apenas uma pausa histórica, uma espécie de moratória política, por assim dizer. As circunstâncias mudaram a data de vencimento da fatura, mas chegará a hora de cobrá-la.[10].

A questão agora é: chegará o momento em que as massas do mundo começarão a cobrar a fatura dos governos capitalistas por sua responsabilidade no genocídio?

Com a atual guerra contra a pandemia, em meio à recessão econômica, de alguma forma, se repetirá o que ocorreu na Europa durante e ao final da Primeira Guerra Mundial? Estará se abrindo um período de grandes enfrentamentos, de classe contra classe? Cairão governos e até regimes? Iremos atravessar explosões revolucionárias e até revoluções? A classe operária e outros setores populares poderão dar saltos em sua organização sindical e política? As pequenas organizações revolucionárias que existem hoje irão se desenvolver significativamente? A classe operária, junto com os setores populares, será capaz de assumir o poder em algum país?

Essas perguntas, por enquanto, não têm resposta. O que sabemos é que todos os governos estão preocupados com a possível reação das massas e estão se preparando para isso. Eles fizeram uma série de concessões para evitar o pior, como ter mudado a política para enfrentar a Covid-19, ainda que seja uma mudança completamente insuficiente e incapaz de evitar o genocídio. Eles estão dando ajuda aos setores mais necessitados. Que também são completamente insuficientes, uma vez que durarão apenas três ou quatro meses, enquanto a recessão econômica durará por muito mais tempo. Por outro lado, com o pretexto de disciplinar as pessoas para combater a pandemia, nos diferentes países, se torna cada vez mais frequente, a presença de policiais e militares encarregados de controlar a situação, com o evidente objetivo de agir, no futuro, para reprimir as possíveis explosões das massas.

Por sua vez, as massas, em parte atemorizadas, confusas e em grande parte confinadas em suas casas, começam a expressar algumas reações que provavelmente aumentarão quando o genocídio se tornar uma realidade e a máscara do capitalismo começar a cair.

Uma nova situação mundial, em todas as áreas, está se gestando e seus contornos serão determinados, em última análise, pelo choque de interesses entre todas as classes e setores de classe.

Grandes eventos geram grandes mudanças e os grandes acontecimentos que estamos presenciando, a pandemia de Covid-19, que provocará um genocídio e a recessão da economia, que pode se tornar uma depressão, inevitavelmente gerará novas e importantes mudanças.

Isso coloca os revolucionários, os marxistas, diante de um grande desafio, que é alcançar uma profunda compreensão dessa nova realidade que está se gestando e, a partir daí, tirar as conclusões práticas que se desprendem dela e, assim, dar passos em direção a uma sociedade socialista que possa libertar a humanidade do capitalismo.

É um desafio muito difícil, no qual a maioria dos marxistas, em situações anteriores, semelhantes a essa, fracassou.

Foi o caso das grandes mudanças que ocorreram após a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial e os processos da Europa Oriental, de restauração e revolução.

Apenas um pequeno número de dirigentes revolucionários, onde se destacam as figuras de Lenin e Trotsky, foram capazes de entender em profundidade o significado da nova realidade surgida da Primeira Guerra Mundial e dela tirar conclusões práticas. Sem essa compreensão, a vitória da Revolução Russa teria sido impossível.

É precisamente por essa razão que os marxistas, para tentar entender uma nova realidade que começa a tomar forma, deve se apoiar nas elaborações marxistas, mesmo que correspondam a realidades diferentes. Mas isso não basta. Somente intervindo nos processos atuais da luta de classes, por mais incipientes que sejam, podemos avançar na construção do programa que não tem outro objetivo senão encontrar o caminho das massas e, assim, construir a direção revolucionária sem a qual a vitória dos explorados e oprimidos será impossível.

[1] Marx e Engels, frase do Manifesto Comunista, Capítulo “Burgueses e Proletários”.

[2] Tríplice Entente, aliança militar entre a França, Reino Unido e o império Russo, aos posteriormente se somaram a Itália e EUA.

[3] É denominada uma recessão quando o PIB (Produto Interno Bruto) de um determinado país, de uma região ou do mundo é negativo por dois trimestre consecutivos.

[4] Não existe um critério único para determinar quando há uma depressão. Alguns economistas que ela ocorre quando a queda do PIB é maior que 10% ou quando a queda do PIB se mantêm por mais de três anos.

[5] Ídem 1

[6] O vírus da gripo espanhola, no princípio, era pouco letal, mas em março de 1918 sofreu uma mutação que fez com que em poucos dias matasse milhões de pessoas e, posteriormente, uma nova mutação o transformou em um vírus muito inofensivo, e assim a pandemia acabou.

[7] Lenin, citado por Jean-Jacques Marie no seu livro “Lenin”, Editora POSI, pág 138.

[8] Lenin, Obras Completas, tomo 32, pág 31.

[9] León Trotsky, “Minha Vida”, pág 183, Editora Pluma.

[10] Idem, pág 184.