2 de Julho de 2022, em Salvador (BA) | Foto: Iargo Souza/Divulgação

Vivemos uma crise sem precedentes, com um profundo retrocesso no país e, sobretudo, nas condições de vida da classe trabalhadora. A inflação e a carestia tornam a fome um fantasma real na vida de milhões de famílias brasileiras. Para piorar, Bolsonaro faz ameaças diárias de golpe e insufla sua militância de extrema direita a atacar qualquer um que veja como adversário.

Tivemos neste semestre importantes lutas de setores de peso da classe trabalhadora por emprego, contra a carestia e a perda da renda. Da mesma forma, a classe trabalhadora, juntamente com os setores mais pobres e explorados da população, deve estar à frente contra as ameaças golpistas de Bolsonaro. Os trabalhadores devem exigir que todos os que estão contra um golpe e uma ditadura se mobilizem, mas também fazê-lo organizados e com independência política. Por quê?

Os trabalhadores são os que realmente têm a perder com um golpe e uma ditadura que acabe com as poucas liberdades democráticas que temos hoje. Numa ditadura, não se pode nem protestar, organizar ou fazer greve. E é esse o projeto de Bolsonaro. Arrancar ainda mais o couro dos trabalhadores e impedir que se possa até reclamar.

Estamos à beira de um golpe de Estado e uma ditadura? Não. Embora seja isso que Bolsonaro queira, o imperialismo e a maior parte da burguesia não compartilham desse projeto, por hora. E é por isso que Bolsonaro implementa uma série de medidas eleitoreiras, como os R$ 200,00 do Auxílio Brasil até o final do ano. Sua prioridade é ganhar as eleições. Agora está dado que ele vai aceitar passivamente o resultado das urnas no caso cada vez mais provável que perca? Também não.

Bolsonaro vem ameaçando diariamente não acatar uma derrota. Tem parte do comando das Forças Armadas ao seu lado, e vem armando sua militância radical. Pode tentar um autogolpe, ainda que seja muito improvável que uma aventura assim se consolide. Ou pode muito bem tentar repetir Trump aqui e armar uma tremenda confusão para garantir uma certa coesão aos seus grupos mais fanáticos, a fim de continuar infernizando nossa vida lá na frente. Em ambos os casos, um estrago seria feito, e fechar os olhos diante desse perigo seria uma enorme irresponsabilidade.

Só os trabalhadores podem lutar de forma consequente contra um golpe

Não é só pelo fato de que os trabalhadores têm mais a perder com os ataques às liberdades democráticas que devem estar à frente dessa luta. Estamos vendo como as instituições dessa democracia dos ricos, como o Supremo Tribunal Federal, ou o Congresso Nacional, capitulam sucessivamente, de forma covarde, às ameaças de Bolsonaro. No caso mesmo de um golpe, alguém acredita que eles farão alguma coisa?

Já os setores da burguesia que articularam manifestos pela democracia, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ou os banqueiros da Febraban, ou o próprio imperialismo, estão hoje contra um golpe, mas nada garante que lutarão de forma consequente contra um. Pelo contrário, quando é de seu interesse, não hesitam em impor a ditadura mais ferrenha. Vimos isso em 1964. E o aprofundamento da crise, e das lutas que eventualmente podem explodir, têm a possibilidade de colocar esse plano B no radar.

Com independência de classe

As ameaças de Bolsonaro forçaram o PT a retomar a articulação da campanha “Fora Bolsonaro”, a mesma que freou para capitalizar eleitoralmente. Mas faz isso também sob uma perspectiva eleitoreira, tentando ampliar seu arco de alianças com a burguesia. Por isso, subscreve o manifesto pela democracia, que se coloca contra o golpe, mas defende essa democracia dos ricos e essa política econômica que nos impõe a inflação, a carestia e 33 milhões de famintos no país.

As maiores centrais sindicais fazem o mesmo, colocando-se a reboque de um projeto de unidade nacional com a burguesia, os banqueiros e o imperialismo. Dizem ser contra um golpe, mas como solução chamam a votar em Lula-Alckmin.

A classe trabalhadora precisa chamar a mais ampla unidade na ação para ir às ruas, nas manifestações dos dias 11 de agosto e 10 de setembro, com todos os que estejam contra um golpe. Mas com cara própria e independência política, não referendando as cartas que defendem essa democracia dos ricos e esse sistema de exploração contra nós. Devemos debater nas assembleias e incorporar nas campanhas salariais a defesa das liberdades democráticas, o combate às ameaças golpistas, o chamado aos atos e avançar na construção da autodefesa das organizações populares e dos trabalhadores, assim como a organização de uma greve geral caso Bolsonaro não acate o resultado das eleições e tente um golpe.

Nesse sentido, a classe não pode ficar a reboque de projetos da burguesia ou de alianças de classes. Um projeto desses não só não é capaz de derrotar Bolsonaro, como não vai mudar em nada as condições que possibilitaram o surgimento do bolsonarismo. Mais do que isso, caso não haja mesmo um golpe e Bolsonaro perca as eleições, essa ultradireita veio para ficar, e permanecerá à espreita, só esperando o momento certo de atacar.

É por isso que classe trabalhadora precisa vincular sua organização e luta a um projeto estratégico de independência de classe e socialista. Só assim será possível derrotar para valer Bolsonaro e o golpismo, varrendo essa ultradireita para a lata do lixo da história. Votar em Lula-Alckmin é referendar uma saída eleitoral e de unidade com a burguesia, o agro e o imperialismo. É o caminho para a derrota. A candidatura do Polo Socialista e Revolucionário e do PSTU, com Vera e Raquel Tremembé à Presidência, é, ao contrário, um ponto de apoio para fortalecer e impulsionar esse projeto de independência de classe com uma estratégia socialista, que é a única forma de acabar com o bolsonarismo e o fantasma do golpismo.