Contra denúncias, Sarney revive tese de ‘campanha midiática’

Sarney se segura no cargo com a ajuda de Lula

PT usou discurso contra denúncias do mensalão. Lula dá total apoio a presidente do Senado e convoca base aliada a “segurá-lo” no cargoA mais recente crise política que atingiu Brasília acerta em cheio uma instituição já combalida por inúmeros casos de corrupção. O Senado se vê agora como epicentro de uma grave crise e denúncias praticamente diárias de corrupção. O caso surgiu a partir da revelação dos famigerados “atos secretos”, medidas sigilosas tomadas pela direção do Senado a fim de promover o nepotismo, contratos irregulares e toda sorte de falcatruas, utilizadas frequentemente como moeda política entre os senadores.

Como toda crise que surge no Congresso, ela foi crescendo e se aprofundando, provocou o afastamento de dois diretores-gerais até atingir a figura mais alta da Casa, o presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP). O ex-presidente da República é acusado de nomear um neto e duas sobrinhas. A mais recente denúncia acusa Sarney de beneficiar outro neto na intermediação de contratos de crédito consignado no Senado.

Coronelismo lulista
Em sua defesa, Sarney vem desfiando um verdadeiro colar de pérolas. “A crise do Senado não é minha, a crise é do Senado”, chegou a dizer. O presidente Lula, por sua vez, não se intimidou diante das denúncias e criticou a imprensa pelo escândalo, insinuando que Sarney não era “uma pessoa normal” e que, portanto, não deveria ser tratada como tal.

A última peça de defesa do presidente do Senado não tem nada de inédito. Recorrendo à surrada tese do “golpismo da imprensa”, Sarney enxergou uma “campanha midiática” para atingi-lo devido ao seu apoio ao governo Lula. Desta forma, José Sarney pega emprestado não só o apoio de Lula, mas o argumento com que o governo e o PT se defenderam da enxurrada de denúncias durante a crise do mensalão.

Lula, por sua vez, convocou a base aliada para passar a ordem de “segurar” Sarney no cargo, apesar das pressões de alguns senadores para o seu afastamento. O presidente disse ainda não concordar que num país que “tem coisas importantes pra fazer”, as pessoas se preocupem com “coisas menores”.

Essa mais nova crise política de fato não vem provocando grandes reações na imensa maioria da população, já anestesiada com os inúmeros casos de corrupção que explodiram nos últimos anos. Ela mostra, no entanto, de forma mais clara e contundente, o compromisso de Lula com o velho coronelismo e as elites dinossáuricas que tem na figura de Sarney um de seus principais representantes. Tanto que a blindagem ao redor dele vai da base aliada ao DEM.

Quando Sarney foi eleito presidente do Senado, no início do ano passado, seu colega de partido, Jarbas Vasconcelos, afirmou que ele iria “transforma o Senado em um grande Maranhão”, referindo-se a forma de governar e aos escandâlos envolvendo o clã Sarney naquele estado. Justiça seja feita, o Senado já era estava submerso na corrupção, antes disso. Os tais atos secretos não são de hoje. De 1995 a 2009, foram editados pelo menos 623 deles, segundo a própria comissão interna do Senado formada para estudar o caso.

Isso mostra que a corrupção no Senado não é de hoje, ainda que Sarney figure como seu principal representante. E tem todo o apoio do governo Lula e da oposição de direita. É mais um caso mostrando a falência do Congresso Nacional e, especificamente, a existência do Senado enquanto Câmara ultra-reacionária e hermética, criada para tornar o Legislativo ainda mais conservador.

Problemas pequenos e problemas grandes
Diante da política econômica do governo, voltada aos interesses do grande capital, com sua maior expressão no pagamento da dívida pública, a corrupção parece, como disse mesmo Lula, “um problema pequeno”.

A corrupção, no entanto, é sintoma de um sistema e um regime voltados aos interesses de uma minoria privilegiada, a mesma minoria de banqueiros e empreiteiras que financiam as campanhas milionários dos partidos da ordem, como o PT e o PSDB.

A corrupção é a outra ponta de um sistema que provoca o desvio de bilhões ao pagamento da dívida. Deve, portanto, ser denunciado como parte da denúncia desse sistema. Combatemos a sangria que os governos de Lula e FHC promovem, entregando nossas empresas e pagando os juros da dívida, assim como denunciamos as maracutaias, como atos secretos e a farra em cartões corporativos. Problemas grandes e problemas pequenos estão, assim, intimamente relacionados.