Conheça a revista Correio Internacional

Leia o texto publicado no primeiro número da revistaCom a apresentação deste primeiro número de Correio Internacional, iniciamos uma nova época da publicação central da LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), retomando o formato de revista impressa que a publicação teve entre 1982 e 1995. Como naqueles anos, tentaremos fazer que seu conteúdo expresse as análises e posições de nossa organização sobre os processos mais importantes da situação e da luta de classes mundial.
Neste sentido, aspiramos a que a revista seja bastante útil como um elemento unificador das análises, caracterizações e políticas para aqueles que desenvolvem sua atividade em países e condições bem diferentes. Ao mesmo tempo, nosso objetivo é mais ambicioso: queremos que nossa revista se transforme também em uma ferramenta útil para milhares de ativistas e lutadores de todo mundo que, em meio à grande confusão que hoje caracteriza à esquerda, procuram respostas que possam ajudar a orientar sua ação cotidiana.

A crise econômica
A nova revista Correio Internacional sai em um momento muito especial da realidade mundial. Por um lado, ainda vivemos os efeitos do que os próprios analistas burgueses têm denominado da “pior crise econômica capitalista desde 1929”, e que mostrou abertamente o caráter a cada vez mais especulativo e parasitário do capitalismo imperialista. Ao mesmo tempo, suas consequências e as políticas aplicadas pelos governos. Enquanto entregam bilhões de dólares para salvar aos bancos e empresas, golpeiam com extrema dureza os trabalhadores e os povos do mundo.
Neste sentido, a crise desfez a grande mentira do “triunfo do capitalismo sobre o socialismo” que, de modo muito sonoro, anunciaram seus ideólogos e propagandistas na década de 1990. Longe de ter “triunfado”, o capitalismo imperialista volta-se cada vez mais parasitário, explorador e desumano. Isto é, não só é incapaz de garantir uma melhora do nível de vida das massas, como que sobrevive em sua decadência à custa de gerar mais pobreza e miséria aos povos do mundo; mais guerras e agressões militares.
Em outras palavras, do capitalismo não podemos esperar outra coisa que maiores sofrimentos e degradação da humanidade.

O ‘vendaval oportunista’
Por outro lado, nossa revista surge num momento em que a grande maioria da esquerda mundial tem abandonado a luta pela revolução socialista, defendida no passado por diferentes sistemas teóricos e políticos, como resultado das explicações que elaboraram frente a restauração capitalista na ex-URSS, China e demais Estados operários.
Iniciaram assim um profundo giro à direita, tanto em seu programa como em suas posições políticas. Um setor, como a maioria dos partidos comunistas e outras forças, propõe que a luta deve se limitar a “humanizar” o capitalismo e, para isso, é necessário se integrar plenamente nas instituições burguesas e em seus governos. Outros, como os ex-trotskistas do chamado Secretariado Unificado (SU) da IV Internacional, elaboraram uma justificativa mais sofisticada: a revolução socialista ficava postergada para um futuro longínquo e, por um longo período, a tarefa central era construir “partidos anticapitalistas” que unam revolucionários e “reformistas honestos”. Enquanto manteve uma retórica mais “socialista”, a ação política desta organização também se integrou plenamente no sistema, especialmente nos processos eleitorais e parlamentares.
Ambos os setores atuam juntos, como no FSM (Fórum Social Mundial), postulando que “outro mundo é possível” sem acabar com o capitalismo. Em outras palavras, passaram a ser suas auxiliares de “esquerda” na tarefa de semear ilusões pró-burguesas entre os trabalhadores e as massas, e de serem uma trava para suas lutas.
Mais recentemente, algumas destas e outras forças de esquerda aderiram ao chamado “Socialismo do Século XXI”, encabeçado pelo presidente venezuelano Hugo Chávez. Chávez representa, em última instância, uma variante dos nacionalismos burgueses que fracassaram reiteradamente no século xx, também por não enfrentar a fundo o capitalismo imperialista. Um nacionalismo um pouco mais radicalizado em sua retórica, porém mais tímido em suas medidas concretas

Manter e atualizar um legado
Diante desta dupla realidade, a profunda crise do capitalismo imperialista e o “vendaval oportunista” que arrastou à maioria da esquerda, a continuidade na revista Correio Internacional não é apenas de forma, mas também de conteúdo. Reivindicamos os principais ensinamentos que, no terreno da teoria, do programa, da estratégia e da concepção de luta e organização, têm sido construídas na já longa história de luta dos trabalhadores e do marxismo revolucionário. Uma historia que tem entre suas principais referências o Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels no século XIX; as Resoluções dos Quatro Primeiros Congressos da III Internacional, fundada por Lênin e Trotsky depois da Revolução Russa de 1917, e nos textos de fundação da IV Internacional, junto com outros escritos de Trotsky. Um legado que, evidentemente, deve se atualizar a luz dos novos fatos ocorridos nas últimas décadas, como a restauração capitalista nos ex-Estados operários, cujos pilares centrais não apenas se mantêm como têm aumentado a sua vigência.
Entre os principais ensinamentos abandonadas pela maioria das organizações de esquerda, queremos destacar alguns:
• Para acabar com a exploração, a fome e a miséria que o capitalismo imperialista submete ao mundo, é necessária uma revolução mundial encabeçada pela classe operária, primeiro passo para a construção do socialismo.
• Reivindicamos o protagonismo da classe operária como força social principal da luta contra o capitalismo, encabeçando uma aliança com os outros setores oprimidos e explorados, como os camponeses pobres, as massas urbanas não operárias e as nacionalidades oprimidas.
• Esta revolução inicia-se a nível nacional com a tomada do poder pelos trabalhadores, a destruição do Estado e das Forças Armadas burguesas e a construção de Estados de novo tipo (Estados operários).
• Contudo, é imprescindível que essa revolução seja estendida a nível mundial, tomando o poder nos países centrais até derrotar definitivamente o imperialismo. Caso contrário, o imperialismo continuará sendo a força econômica e militarmente dominante no mundo, com capacidade de isolar, debilitar e, finalmente, derrotar esses Estados operários. Por isso, não existe nenhuma possibilidade de construir o “socialismo em um só país” (ou em alguns países) como sustentaram o stalinismo e suas variantes. Como mostra a experiência histórica, esta política levou, inevitavelmente, à queda de todos Estados operários existentes no passado.
• Para levar adiante esta tarefa, os trabalhadores e as massas precisam construir organismos democráticos de luta que, numa primeira fase, sejam os impulsores da revolução e, uma vez tomado o poder, sejam a base dos futuros Estados operários. Nosso modelo de revolução socialista surge como um processo de luta e organização democrática dos trabalhadores e das massas. É a conclusão de uma experiência histórica que demonstrou que os processos revolucionários dirigidos através das ordens burocráticas “secretários gerais” ou “comandantes” terminaram fracassando.
• Ao mesmo tempo, é necessário construir partidos revolucionários nacionais com base no centralismo democrático, como parte de uma organização revolucionária mundial que seja capaz de impulsionar conscientemente este processo de organização e de luta dos trabalhadores e das massas.

A ‘mãe de todas as tarefas’
Ao longo da existência do capitalismo, os trabalhadores e as massas têm mostrado (e continuam fazendo) um grande heroísmo em suas lutas. Mas é um gravíssimo erro, no entanto, pensar que o imperialismo vai se render pacificamente. Pelo contrário, como um leão que lambe suas feridas, o imperialismo responde com ferocidade e recupera o terreno perdido.
Por isso, a construção de uma direção revolucionária internacional, capaz de impulsionar e unificar as lutas e levá-las até seu triunfo definitivo (a derrota completa do imperialismo) é a “mãe de todas as tarefas” que propomos a todos os lutadores operários e populares do mundo.
Para nós, essa tarefa se concretiza na reconstrução da IV Internacional e das suas seções, os partidos revolucionários nacionais. É nessa tarefa que a LIT-QI concentra todos seus esforços.
Afirmamos, ao mesmo tempo, que a construção de uma direção revolucionária mundial não pode ser levada adiante sem combater permanentemente a todas as direções frente – populistas, reformistas, populistas ou “socialistas burocráticas”, que possam desviar a luta dos trabalhadores e das massas para becos sem saída.
Esses “eixos ordenadores” de nossa política nos levam a intervir nas numerosas lutas contra o capitalismo imperialista, em diversas partes do mundo com diferentes tácticas. Mas, em todas elas, temos um claro critério a seguir: estamos com os oprimidos contra os opressores. Por isso, apoiamos os trabalhadores contra os patrões e seus governos; a resistência iraquiana e afegã para que derrotem os ocupantes imperialistas; o povo palestino na lua luta contra Israel; o povo haitiano na sua luta para expulsar as tropas da ONU e os fuzileiros ianques; os imigrantes em sua luta por conseguir plenos direitos políticos, trabalhistas e sindicais; as mulheres, jovens e os que têm opções sexuais diferentes, contra a opressão, a discriminação e a perseguição que sofrem sob o capitalismo.

Este número de Correio Internacional
É a partir destas bases programáticas e de concepção política que abordamos os temas principais que incluímos neste primeiro número da nova Correio Internacional.
Em primeiro lugar, analisamos a crise da União Européia, os profundos problemas que enfrentam suas burguesias imperialistas, a resposta dos trabalhadores aos ataques de governos e empresas, e apresentamos uma proposta programática para uma saída operária à crise.
Em segundo lugar, na o ano do bicentenário do início da luta pela emancipação latino-americana da Espanha, realizamos um debate com o chavismo sobre quais são os caminhos para conseguir a Segunda Independência, e analisamos as profundas limitações das burguesias do continente para levar adiante esta tarefa.
Em outro artigo, damos nossa posição sobre dois temas de candente atualidade: o que é o Estado cubano hoje? E qual posição devem tomar os revolucionários sobre fatos como a morte de Orlando Zapata Tamayo?
Analisamos também a crise do PSOL brasileiro, um dos “partidos anticapitalistas” mais conhecidos no mundo.
Finalmente, o leitor encontrará, nesta edição, artigos sobre a situação atual do Iraque, sobre a campanha eleitoral do PSTU brasileiro, notícias sobre processos de reorganização do movimento sindical em vários países e sobre a vida da LIT-QI.
Esperamos que este primeiro número da nova Correio Internacional seja de interesse e utilidade política para todos nossos leitores e, desta forma, marque o início de uma longa e frutífera relação.