Congresso da CSP-Conlutas debate 100 anos da Revolução Russa

As lições da Revolução Russa em seu centésimo aniversário foram tema do debate realizado na tarde desse segundo dia de Congresso Nacional da CSP-Conlutas, em Sumaré (SP). Para essa reflexão foram convidados Martin Hernandez, dirigente da Liga Internacional dos  Trabalhadores (LIT-QI), o professor da Universidade de Massachussetts, Kevin Murphy, o  professor Wanderson Fábio de Melo e o dirigente do MAIS, Valério Arcary.

Num momento em que o tema vem sendo o centro de vários seminários e debates pelo país, principalmente no âmbito da academia, o painel que tomou toda a tarde desta sexta-feira foi acompanhado com atenção por mais de 2 mil ativistas que lotavam o plenário, entre operários, servidores públicos, trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas e demais setores que, estando entre os mais explorados da classe, não vêem a revolução como nostalgia, mas como exemplo para a realidade atual.

Debates
Os painelistas também trouxeram para a realidade dos trabalhadores a Revolução que mudou o rumo da história. O professor Kevin Murphy, por exemplo, mostrou o protagonismo dos metalúrgicos nos momentos mais decisivos da Rússia nos anos que precederam a tomada do poder pelos bolcheviques em 1917. Explicou como a Revolução de 1905, ao mesmo tempo em que foi derrotada devido a uma brutal repressão, também determinou uma virada no movimento operário russo. “A partir de 1905 as massas passaram a criar ferramentas políticas como os sovietes, que foram fundamentais para a revolução de 1917“, afirma. Além disso, os socialistas passaram a ter cada vez mais influência ao mesmo tempo em que o ódio da classe trabalhadora crescia  contra o czar.

Entre 1912 e 1917 uma onda de greves operárias se alastra pelo país deflagrada a partir do massacre de uma mina, a Goldfields que tirou a vida de 212 trabalhadores. Nesses cinco anos ocorreram mais de 9 mil greves operárias envolvendo mais de 9 milhões de metalúrgicos, explica Murphy. As reivindicações das mulheres e dos jovens operários, por sua vez, foram sendo cada vez  mais incorporadas às pautas do movimento.

Em fevereiro do ano que terminaria com a tomada do poder, metalúrgicos de várias fábricas começam a entrar em greve por salário. Dirigentes bolcheviques, porém, consideravam precipitadas uma insurreição contra o governo. “Em 22 de fevereiro, um dirigente bolchevique se dirigiu a um grupo de mulheres em Vyborg e pediu para que elas não entrassem em greve, mas as mulheres o ignoraram completamente e começaram a greve já no dia seguinte“, relatou. As greves se espalharam e culminariam na queda do czar.

Ou seja, apesar do protagonismo do movimento operário, a revolução de fevereiro foi desatada pelas operárias têxteis. “A dinâmica dos metalúrgicos mostra que, na medida em  que os trabalhadores tomam consciência de seu poder, não há repressão que impeça o  movimento de crescer“, ensinou.

Significado da revolução e papel do stalinismo
Já Martin Hernandez traçou um histórico dos acontecimentos de 1917, definindo a revolução como o “mais importante acontecimento da história para a classe trabalhadora“. Um momento em que os debaixo foram para a cima. “Trotsky não cita Marx, Lenin, ou qualquer outro revolucionário para explicar a revolução, mas um general reacionário, czarista:  parece incrível um porteiro no Ministério da Justiça, agora é o chefe do Ministério da  Justiça. Um cabelereiro agora é o chefe de uma prefeitura, engraxate do trem agora é o chefe  de toda uma estação de trem. E por fim, dizia, e agora um operário simples é o diretor da  fábrica“, disse.

Hernandez centrou sua intervenção nas conquistas da revolução e no papel cumprido pelo  stalinismo para a burocratização do estado operário soviético e a restauração do  capitalismo. Para se ter uma ideia do que significou a revolução, apenas um ano e meio depois da tomada do poder pelos sovietes, o país que contava com 30 mil escolas passou para 62 mil. As 10 mil bibliotecas foram multiplicadas para 100 mil no mesmo período. Um dos países mais atrasados da Europa se transformou no maior produtor de tratores do mundo. “Não acredito em milagres, o que explica isso foi que houve uma revolução que expropriou a burguesia, acabou com o  anarquismo da produção capitalista, que instituiu a planificação ad economia para produzir  de acordo com as necessidade do conjunto da população e não das necessidades dos  capitalistas“, afirmou.

Para Martin, uma das principais conclusões que a revolução traz é que os capitalistas são  parasitas e que, como parasitas num corpo humano, assim que se o elimina, o corpo social se  desenvolve de forma ininterrupta. “Dizem que o socialismo é uma utopia, mas Trotsky deu  uma resposta a isso: pode ser que haja a restauração do capitalismo, mas mesmo assim o  socialismo conquistou o seu direito à vitória, porque pela primeira vez na história da  humanidade, um país atrasado foi capaz de ter um desenvolvimento como nenhum outro país  teve“.

A burocratização do estado operário, e a ascensão do stalinismo que, ao contrário de ser continuação do bolchevismo foi sua antítese, responsável pela eliminação física da quase totalidade dos quadros bolcheviques, foi responsável também pelas sucessivas traições às revoluções que se seguiram a 1917. “Os bolcheviques diziam ‘vamos buscar apoio na revolução internacional’, mas Stalin era o contrário: ‘vamos buscar o apoio da burguesia  imperialista para restaurar o capitalismo’“.

Ao mesmo tempo em que os chamados países do Leste Europeu impediam as vitórias das revoluções em uma série de países, no momento em que entraram em crise, buscaram o apoio financeiro dos países imperialistas, se endividando e aprofundando sua crise. Mas as perspectivas traçadas por Martin são otimistas. “Esse poderoso aparato que exterminou os revolucionários, que entregou a revolução na França, na Grécia, que foram capazes de entregar a revolução na Itália, e cada um dos processos revolucionários que foram se  formando, foi derrubado por um poderoso movimento de massas“, explica.

Mas apesar disso, os desafios para a superação do stalinismo permanecem, já que ele continua vivo através da ideologia, como as políticas de aliança com a burguesia cujo maior exemplo no Brasil foi o recente fracasso dos governos do PT.

Bolcheviques e a flexibilidade tática
Já Valério Arcary reafirmou que o projeto socialista está apoiado numa ideia fundamental: é possível construir uma sociedade superior ao capitalismo. E que a única classe que pode levar adiante esse projeto é a classe trabalhadora, por conta de seu antagonismo com o capital.

Arcary explica que o “bolchevismo foi educado na ideia que teriam que lidar com a simultaneidade de revoluções: contra a autocracia, por reforma agrária, ao mesmo tempo, a revolução social e política“. Mas, adverte, que não se pode “romantizar” o que teria sido o Partido Bolchevique. “Lenin chega do exílio a Petrogrado e encontra a maioria do partido apoiando o então Governo Provisório“. A partir daí, o dirigente russo passa à oposição à maioria do partido, lutando para que os bolcheviques defendam a tomada do poder.

Qual é a genialidade de Lenin? Ele faz o debate estratégico no bolchevismo, ao mesmo tempo em que traça um programa tático“, afirma Arcary. “Dizer que a Revolução Russa foi uma revolução bolchevique é uma semi-verdade, não ocorreria sem as massas operárias e camponesas“, diz, completando que “os bolcheviques tiveram talento para acompanhar a experiência prática das massas, transformando-as em força política“.

Valério Arcary explica que isso significa “muita flexibilidade tática”, como por exemplo nas jornadas de julho, quando um setor da classe trabalhadora queria tomar o poder, sem as condições para tal, e os bolcheviques tiveram que se colocar contra isso. “Só atacamos o inimigo quando temos a certeza da vitória“, resumiu. As minorias, com uma política acertada, se transformam em maioria quando se abre o processo revolucionário, mas “são as massas que definem os momentos decisivos, não nós“.

O que explica o fato de que a Revolução Russa tenha sido única, embora tenha havido muitas situações revolucionárias no decorrer da história? Para Arcary, “faltaram organizações de trabalhadores e um projeto político, o que não significa necessariamente que é um partido que faz a revolução, Lênin não queria um governo de bolcheviques“.  Ao mesmo tempo, sinaliza o que teriam sido, em sua visão, os erros dos bolcheviques, como a perda da autonomia dos sovietes e a proibição de tendências internas.

Arcary terminou sua fala afirmando que “para mudar o mundo, temos que ter coragem de mudar a nós mesmos, não vamos mudar o mundo se não nos esforçarmos para sermos mais estudiosos, mais pacientes, tolerantes, se não aprendermos a conviver com a diferença“.

Revolução Russa na telona
Quem está no Congresso da CSP-Conlutas vai poder ver em primeira mão o documentário “Pão, Paz e Terra”, produzido pela LIT-QI e que mostra a atualidade da Revolução Russa. A atividade, promovida pela LIT-QI e o PSTU, será seguida de debate e ocorre neste dia 14 às 20h.

Redação