Congresso da ANEL dedica terceiro dia de debates ao tema de opressões


Foto: Erick Dau

Unificar a luta dos estudantes com os trabalhadores e combater toda forma de opressão no interior da classe. Obsessivos em militar por essas duas tarefas, os quase 2 mil estudantes reunidos no 2º Congresso da Assembleia Nacional dos Estudantes Livre (ANEL) discutiram durante todo o sábado, 1º de junho, um tema que tem pautado cotidianamente a atuação da entidade.

A plenária realizada nas arquibancadas da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), antecipada pelos debates travados nos grupos de discussão sobre os mais variados temas, não deixou dúvidas sobre qual batalha a juventude deve impulsionar nas escolas e universidades: o sonho por uma sociedade em que diferenças não se transformem em desigualdades, uma sociedade livre de machistas, racistas, homofóbicos e burgueses.

Iniciada com a intervenção de Camila Lisboa, da direção do Movimento Mulheres em Luta (MML), a plenária teve acesso a números assustadores que revelam a brutalidade do machismo no país. De cada dez mulheres, sete vão viver ou já viveram algum tipo de violência – seja física ou psicológica.

O pânico de andar nas ruas ou no transporte coletivo de qualquer cidade brasileira tornou-se um “hábito” das trabalhadoras e das estudantes. Nas universidades, o medo do trote machista. Nas fábricas, o medo do assédio sexual de chefes e gerentes.

“O capitalismo perdeu o controle dos assassinatos, estupros e verdadeiro genocídio que acomete as mulheres”, denunciou Camila. “Por isso, é com muito orgulho que estamos aqui neste congresso. Porque onde a ANEL estiver, onde estiver um Centro Acadêmico da ANEL, um estudante que seja, um ativista que veio a Juiz de Fora, não vamos aceitar isso. A opressão contra as mulheres, os negros e o setor LGBT não é brincadeira”.

Creche pública na universidade e no trabalho
Uma das facetas do machismo joga sobre as costas das mulheres a responsabilidade exclusiva sobre os filhos. E mães jovens, que ainda estudam, não é uma exceção na realidade brasileira. A ausência de creches é o principal motivo para mulheres não saírem do desemprego e não permanecerem no emprego. Por isso, uma das tarefas colocadas neste congresso é a luta concreta por creches públicas nas universidades e, mais além, uma luta geral por creches públicas para todas as mulheres.

Feminismo, uma luta de classes
Camila também pontuou que o feminismo não significa a união de todas as mulheres contra os homens. Tais teorias disseminadas no interior do movimento estudantil e em muitos fóruns de luta contra o machismo não servem às mulheres, porque a luta não é por um mundo sem homens. “Queremos homens que não explorem e nem oprimam, queremos que os companheiros trabalhadores também abracem essa causa. Essa é a concepção de feminismo que o MML constrói”, finaliza Camila.

A bloguista e professora feminista Lola Aronovich, criadora e autora do blog ‘Escreva Lola, Escreva’, também participou das discussões e ressaltou o privilégio que persiste, por exemplo, ao típico homem branco, heterossexual e de classe média. “Além de sempre assumir posições de comando, ao cometer um erro este homem é responsabilizado individualmente. Ninguém dirá: ‘tinha que ser homem’. Pode cometer muitos mais acidentes e ainda assim ser visto como bom motorista; pode ter vida sexual ativa e ser visto como garanhão e não como galinha ou puta”, comentou Lola.

A ativista que milita nas trincheiras das redes sociais e blogs ainda lembrou o esforço que a burguesia faz para que a ideologia machista fique invisível aos nossos olhos. “Sempre tentam nos convencer de que essa história de ideologia só existe na esquerda, que a sociedade como está é natural. Querem impedir a nossa luta, que vem ganhando espaço. Os opressores nunca estiveram tão incomodados por não poderem seguir oprimindo sem que as pessoas se revoltem. Agora há reação. E isso é muito bom”, concluiu.

“Acabou o amor, isso aqui vai virar o Palmares!”
Como se não bastassem salários e condições de trabalho inferiores, o negro brasileiro se depara com outra estatística perversa: ele tem 139% mais chances de ser assassinado que o branco. Ao negro do Piauí, o aspecto de genocídio da classe trabalhadora e da juventude negra das periferias ganha contornos dramáticos de uma guerra civil. Lá, a chance de um negro ser assassinado é 1089% maior que um branco.

Na esteira desta realidade fica claro que, para além de defender as políticas afirmativas com as cotas raciais nas universidades e um projeto de reparação, a batalha contra o racismo também é uma luta classista contra o capitalismo. Embora não tenha inventado o racismo, foi o capitalismo que inventou o próprio conceito de raça – criado para justificar o crime contra a humanidade que foi a escravidão. Ideologia que, inclusive, Feliciano – presidente a Comissão de Direitos Humanos da Câmara – usa pra dizer que os negros são ‘malditos’.

Wilson H. Silva, membro do ‘Movimento Quilombo Raça e Classe’, compartilhou o orgulho de construir no congresso e no dia a dia, dentro das universidades e das escolas, a luta contra as opressões. “Para nós, vocês são quilombolas acima de tudo porque fizeram a opção de construir a Anel ao lado da MML, ao lado do Quilombo Raça e Classe, ao lado da classe trabalhadora representada pelos sindicatos que compõem a CSP-Conlutas. E essa unidade é que irá garantir a igualdade que um dia a burguesia prometeu à sociedade e que jamais vai cumprir”.

Para Wilson, ao abandonar a luta da juventude e se transformar em correias de transmissão do PT, a UNE legitima a política de Casa Grande aplicada pelo PT no país. “Eles (PT), que tanto prometeram e disseram em propaganda na tevê que governam para os negros e as mulheres, na prática faz o oposto disso. Feliciano é um canalha, sim, mas é preciso dizer que é um canalha apadrinhado pelo PT”. E completa. “O Estatuto da Igualdade Racial, construído pelos movimentos sociais, se transformou em uma aberração nas mãos do governo petista. As palavras ‘raça’, ‘escravidão’, ‘quilombo’ e ‘identidade racial’ foram suprimidos. Infelizmente, não é difícil provar que não existe para os negros acesso a moradia, educação e saúde. Aqui, nossa luta não é apenas por direitos mínimos, é a luta pelo direito de existir, de continuar vivo”.

Na educação, o Prouni abriu aos negros a possibilidade de ingressar no ensino superior, mas o que o governo omite é de que forma esses jovens estão tendo acesso à universidade. Como a juventude sabe, são em universidades pagas sem qualidade e premiadas com isenção fiscal. Os recursos aplicados no Prouni poderiam duplicar o número de universidades federais. Ainda sobre o caráter do governo PT, no ano em que se completa nove anos da vergonhosa ocupação do Haiti, Wilson não poupou críticas aos governos Lula e Dilma. “Um dos maiores crimes do PT foi encabeçar a ocupação do país que fez a primeira revolução negra do mundo. Estão manchando a nossa historia e isso é inadmissível”.

Dina Mara, do Coletivo Negro e Ação da URGS, comentou o racismo nas universidades públicas. “A juventude negra tem, sim, direito a sonhar, por isso não queremos mais negros apenas dentro das universidades apenas nos espaços terceirizados e precarizados, para limpar banheiros. Queremos ocupar todos os espaços das universidades, seja enquanto estudantes, funcionários técnicos ou professores. Por muito tempo, eles foram senhores e nós escravos. Foram e fomos. Porque hoje nós somos a juventude negra na luta diária”.

Para Janaína, da direção executiva da ANEL, “não podemos mais admitir que a juventude negra seja proibida de ter acesso a universidade. E esse congresso tem uma tarefa, que é o de todas as entidades de base dizer porque a ANEL defende de maneira consequente outro projeto para juventude negra deste país”

A luta LGBT também tem lugar aqui
Bruna, ativista trans do MML, lembrou a importância da presença de centenas de ativistas LGBT no congresso para discutir uma política independente e revolucionária. “Este governo que se diz de esquerda e que a colaboração de classes seria capaz de acabar com as desigualdades e a opressão, é um governo de ilusão e que estimula a ideia de que não existe mais machismo, racismo e homofobia”.

Flávio Bandeira, representando as setoriais LGBT da CSP-Conlutas, se referindo a um repetido grito durante o congresso afirmou que “é muito bom estar aqui e ouvir em todos os espaços os jovens falando que são pintosas, sapatões, travestis e que vão fazer a revolução. Dez anos atrás era impossível ter uma liderança se assumindo no movimento estudantil. E aqui o que a gente mais vê é travesti, gay e sapatão na mesa e fazendo intervenção. A ANEL tem sido um instrumento fundamental aos movimentos sociais para organizar pela base a luta contra  a opressão e exploração na perspectiva de uma sociedade socialista”.

Para ele, a recente aprovação do casamento homoafetivo foi uma vitória importante, mas não pode ser considerada um presente ou um ato de bondade do poder judiciário. “Essa medida é uma conquista dos movimentos sociais, mas não podemos esquecer que ela acontece em meio a duas contradições: por um lado, ao mesmo tempo em que temos Feliciano, um homofóbico na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, e por outro o fato inegável de que o país não deixou de ser homofóbico em nenhum milímetro. O Brasil concentra 44% de todos os assassinatos de LGBT No mundo. A homofobia cresce”.

Por isso, Flávio deixa um recado aos estudantes que estão à frente da batalha contra as opressões. “Essa luta precisa ser contra o sistema capitalista, que nos educa a sermos perversos. E essa oportunidade de construir isso aqui, por aqueles que querem transformar a sociedade, é fundamental”