Congresso da ANEL: Com sonhos e lutas se faz o futuro!


2º Congresso da Anel, de 30 de maio a 2 de junho, vai reunir mais de dois mil estudantes em Juiz de Fora (MG). Serão quatro dias de intensos debates sobre a realidade brasileira e as próximas lutas dos estudantes do país

Delegações de todo o país se preparam para pegar a estrada a caminho de Juiz de Fora (MG), onde ocorrerá o 2º Congresso da Assembleia Nacional de Estudantes. Os ativistas se desdobram em campanhas financeiras, organização dos ônibus e intervenção nas lutas que estão acontecendo pelo Brasil. O cansaço de todos é superado pela certeza de estarmos construindo uma entidade estudantil capaz de coordenar as mobilizações da juventude brasileira em defesa do nosso direito ao futuro.

A Juventude do PSTU esteve, desde o primeiro momento, engajada na tarefa de unificar o movimento estudantil. Temos a certeza de termos feito avançar muito a construção de uma entidade estudantil nacional, democrática, independente e que faça oposição de esquerda ao governo federal.

Apresentamos aqui nossas opiniões sobre as lições e as perspectivas do rico processo de reorganização do movimento estudantil nacional.

A eleição que mudou o movimento estudantil

A vitória de Lula, em 2002, mudou completamente o cenário político nacional. Os principais partidos da esquerda brasileira, PT e PCdoB, passaram a governar o país ao lado de empresários e políticos corruptos. Esse processo levou, também, as direções das principais organizações da classe trabalhadora ao governo. O marxismo classifica esse tipo de governo de Frente Popular, que une trabalhadores e patrões e transforma antigos dirigentes operários em gestores dos negócios da burguesia.

Esse tipo de governo engana os trabalhadores, porque estes, vendo seus representantes tradicionais no poder, acreditam que o governo é seu, não do inimigo de classe. Dessa forma, a burguesia consegue atacar com mais facilidade os direitos do povo. Para concretizar seus planos, a classe dominante necessita do apoio e da colaboração das direções traidoras do movimento, que vão tentar convencer as massas de que os ataques do governo são, na verdade, melhorias na vida da população.

No Brasil, CUT, Força Sindical e UNE cumprem esse papel. A União Nacional dos Estudantes (UNE) não é apenas uma entidade estudantil burocrática: é a correia de transmissão do projeto político da burguesia e do governo no movimento estudantil. Exemplos não faltam. No último mês, a velha entidade deu duas demonstrações inquestionáveis dos seus serviços ao governo federal e ao grande capital.

A primeira foi a comemoração da aprovação do Estatuto da Juventude, que, entre outras maldades, restringe a meia-entrada nos eventos culturais e restaura o monopólio da venda de carteirinhas pela UNE. A velha entidade está entregando nosso direito à cultura em troca de recuperar seu controle de venda das carteirinhas. Enquanto os empresários do entretenimento e a UNE saem lucrando com o Estatuto da Juventude, os jovens ficam cada vez mais longe de cinemas, teatro, museus, shows etc.

A segunda foi quando a UNE se calou diante da privatização do petróleo do país através da 11º rodada de leilões realizada no dia 14 de maio (leia pgs. 8 e 9). A UNE é cúmplice diante da entrega do nosso petróleo e tenta persuadir os estudantes a aceitarem isso em troca do investimento de 100% dos royalties do petróleo, uma quantia irrisória, na educação.

O papel da velha entidade é convencer os estudantes da propaganda estatal. É fazer a juventude acreditar que os ataques à educação e aos direitos sociais são conquistas. A UNE quer, agora, nos fazer acreditar que a restrição da meia-entrada é a consolidação dos direitos da juventude brasileira e que o resultado da privatização do petróleo será mais investimento na área da educação. Ou seja, a UNE virou um instrumento da garantia da popularidade e da governabilidade do PT.

 

O movimento estudantil se reorganizando

Felizmente, a política governista das direções do movimento de massas e suas frequentes traições provocaram o processo de reorganização dos trabalhadores do país. A necessidade de lutar contra os ataques dos governos Lula e Dilma, sem poder contar com suas organizações tradicionais, leva uma parcela dos trabalhadores a criar e procurar novas ferramentas de luta. O surgimento e crescimento da CSP-Conlutas é a expressão mais avançada desse processo.

O movimento estudantil vive, também, um processo de reorganização. O total apoio da UNE às políticas do governo federal e a degeneração burocrática da velha entidade, que impede qualquer possibilidade de disputa interna, deram base às rupturas iniciais e à construção posterior da ANEL.

É verdade que a popularidade do governo federal é grande entre a juventude brasileira. No entanto, também é uma realidade que a experiência de uma parcela significativa dos estudantes com as prioridades políticas dos governos Lula e Dilma já colocou a oportunidade de construirmos uma alternativa à UNE.

Isso acontece porque os estudantes não encontram mais na velha entidade um ponto de apoio de suas reivindicações, nem um espaço de organização de suas lutas. As mobilizações da juventude não passam mais por dentro dos fóruns da UNE e, na maioria das vezes, chocam-se com ela, como vimos na última greve nacional da educação, quando a UNE boicotou o Conselho Nacional de Greve Estudantil e negociou com o Mistério da Educação (MEC) pelas costas do movimento.

ANEL: de onde veio essa ideia?

O movimento estudantil não sofre com o peso das derrotas do passado, muito menos está preso às manobras burocráticas do governismo. Seu alto grau de espontaneidade e renovação facilita a superação das velhas direções oportunistas e abre caminho à construção do novo. No entanto, a UNE desarticulou as mobilizações e desconstruiu os princípios do movimento, educando gerações de ativistas com métodos degenerados e despolitizados.

O rechaço à velha entidade, que estimula o processo de rupturas, não necessariamente se transforma na construção de uma nova ferramenta. A experiência negativa com a UNE fez milhares de jovens abandonarem a militância estudantil e outros tantos mil não reconhecerem a importância da organização dos estudantes de todo o país.

Por tudo isso, a juventude do PSTU impulsiona a construção da ANEL como alternativa ao processo de reorganização do movimento estudantil. Estamos, diariamente, ao lado de milhares de ativistas independentes, nos esforçando para impedir a desarticulação do movimento e reunir os estudantes. Nosso objetivo é construir uma entidade em que as mobilizações futuras sejam preparadas a partir de um espaço nacional democrático e independente.

Queremos que o movimento estudantil brasileiro, por meio da atuação da ANEL nas universidades, faculdades e escolas, resgate seus princípios, como a solidariedade internacional, a aliança com os trabalhadores, a ação direta, a democracia de base, a independência financeira e política e a autonomia frente aos partidos.

Nossa obrigação é incentivar esse projeto: um instrumento de luta da juventude, plural e independente, com o objetivo de organizar uma parcela dos estudantes para enfrentar os governos do PT e da direita, os empresários, as reitorias e diretorias de escola.

2º  Congresso da ANEL: organizar o futuro da luta

Hoje, a ANEL não é mais uma aposta: já é um grande acerto. Fundada em 2009, nesses últimos quatro anos, não apenas se consolidou como também cresceu.

Em seu congresso, mais de dois mil estudantes vão presenciar uma alternativa viva, representativa, já com o legado das principais mobilizações do último período. Serão quatro dias de intensos debates sobre a realidade brasileira e as próximas lutas dos estudantes do país.

Esperamos que os temas que serão discutidos no congresso sirvam para preparar os combates contra o governo Dilma, a partir do balanço dos 10 anos do PT no poder, e dar respostas políticas aos ataques do momento. O 2º Conanel vai ter painéis, grupos de discussão e mesas de debates que serão espaços de formação e elaboração coletiva sobre campanhas internacionais, os impactos da Copa do Mundo no Brasil, as políticas de Permanência Estudantil, a privatização do petróleo e o investimento na educação, a restrição da meia-entrada e a volta do monopólio da UNE, a situação caótica do transporte público e a luta pelo passe-livre nacional.

Além das próprias campanhas políticas que o congresso pode aprovar, outra vitória fundamental será o aprofundamento do processo de reorganização do movimento estudantil, por meio da expansão da ANEL e de suas estruturas organizativas. O 2º Conanel vai debater também o Estatuto da entidade, sua política de arrecadação financeira e o funcionamento de seus fóruns deliberativos.

 

Nosso chamado à juventude do PSOL

Nos mesmos dias do Congresso da ANEL vai acontecer o 53º Congresso da UNE. Infelizmente, a juventude do PSOL, que está conosco organizando o movimento e participando das mobilizações em todo o Brasil, vai ao fórum da UNE, um espaço controlado de forma burocrática pelo governismo, no qual ministros vão discursar aos estudantes. Um congresso que vai aplaudir os ataques aos direitos da juventude e todos os programas educacionais dos últimos anos, que precarizaram e privatizaram a educação pública.

Os companheiros afirmam que não rompem com a UNE por conta da enorme representatividade dessa entidade. Afirmam que apostar na construção da ANEL seria um grave erro sectário do PSTU, que nos isolou do conjunto do movimento estudantil. Para defenderem suas posições acabam, lamentavelmente, fazendo coro com a agitação do governismo, que busca dar a impressão aos estudantes brasileiros de que a UNE é a única entidade estudantil legítima, e não um instrumento do governo federal.

Porém, a juventude do PSOL se esquece de dizer que a representatividade do Conune é afiançada pelo PT e pelo PCdoB, por meio de governos em parceria com os empresários do ensino pago.

A ANEL, por outro lado, está muito longe do isolamento. A nova entidade foi protagonista dos principais processos de luta dos últimos quatro anos, criou relações institucionais com o conjunto do movimento de massas do país e com entidades estudantis de outros países, legitimou-se na base das universidades e escolas, obrigando até o MEC a tratar a ANEL como interlocutora dos estudantes mobilizados.

Participar do Conanel ou do Conune não é apenas uma decisão tática. Em nossa opinião, essa escolha tem um caráter estratégico. No primeiro, estão aqueles que querem construir uma nova ferreamente de luta da juventude, se apoiando na democracia para resolver as diferenças.

A juventude do PSOL ainda se recusa a vir conosco construir o novo, o futuro do movimento estudantil brasileiro. Sua posição acaba ajudando o governismo no movimento estudantil. De nossa parte, fica o chamado aos coletivos da esquerda para que rompam com a UNE e venham ao 2º Congresso da ANEL, para expor suas polêmicas, programas e concepção de movimento. Estamos convictos de que a juventude que luta por seus sonhos no Brasil e no mundo ganhará muito com a nossa unidade.

Artigo originalmente publicado no Opinião Socialista 460