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Na última quinta-feira, dia 21, assistimos mais uma vez às imagens bárbaras de uma chacina no complexo do Alemão, com pelo menos 19 mortos. Foi a terceira operação policial mais letal da história do Rio, depois das que ocorreram no Jacarezinho em maio de 2021, quando 28 pessoas morreram, e na Vila Cruzeiro, em maio deste ano, que deixou 25 mortos – ambas na gestão do atual governador Cláudio Castro (PL) –; com o mesmo número de mortos da operação em 2007, também no Complexo do Alemão, que ficou conhecida como a Chacina do PAN (por ser às vésperas dos jogos Panamericanos).

 
Nesta operação, como em tantas outras, as mesmas denúncias: invasão de casas, policiais roubando bens pessoais de moradores, e o mais grave: impedindo o socorro às vítimas .”É um massacre lá dentro, que a polícia está chamando de operação”, disse à agência de notícias AP uma mulher em condição de anonimato, por temer represálias das autoridades. “Eles não estão deixando a gente ajudar (as vítimas)”, acrescentou, afirmando ter visto um homem ser preso por tentar socorrer feridos.

No governo de Castro, as chacinas policiais tornaram-se rotineiras

Segundo dados do relatório semestral da organização Fogo Cruzado, na Região Metropolitana do Rio, mais da metade das mortes por tiros (55%) aconteceram em ações ou operações policiais, ou seja, o Estado é o principal responsável pelas mortes violentas. Mas não terminam aqui os dados da barbárie, foram registradas 26 chacinas no grande Rio (nos primeiros 6 meses do ano). Dessas, 18 decorreram de ações policiais, ou seja, 3 chacinas policiais por mês.

Essa é uma política de extermínio consciente do governador bolsonarista. Não é uma guerra, uma guerra pressupõe que haja alguma paridade de forças. Em 6 meses, morreram 4 policiais (que também são vítimas da política assassina de Castro/Bolsonaro) e 272 civis. E, desses, a grande maioria jovens e negros.

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Freixo: entre 18 mortos, só se lamentam dois?

Foram 18 mortos no local e uma moradora baleada no dia 21 veio a morrer no dia seguinte. Entre os mortos, um policial militar, atingido no pescoço, e uma mulher de 50 anos, baleada no peito dentro do carro onde estava com o namorado. A PM disse que os outros 16 mortos seriam suspeitos de crimes. Ou seja, mais uma vez a PM naturaliza a execução de jovens moradores de periferia, taxando-os de “suspeitos de crimes”. Na verdade, a polícia tem licença para matar na favela qualquer jovem morador. Infelizmente essa é uma realidade que se tem naturalizado nessa “guerra às drogas”.

O que nos chocou dessa vez, particularmente, é que, antes defensor dos direitos humanos, Marcelo Freixo entrou na mesma lógica de naturalizar as mortes de jovens favelados em operações policiais:

O vice do Witzel é fraco e sem rumo. O maior problema de ele ter herdado o cargo sem estar preparado para isso é usar a polícia para fazer política. Hoje morreram um policial e uma mulher no Alemão. Sou a favor de operações policiais planejadas e com a polícia bem treinada para combater o crime. Minha solidariedade às famílias do PM Bruno Costa e da Letícia Marinho (declaração publicada no Instagram e no Twitter de Freixo, negrito nosso).

No dia em que Freixo fez essa declaração, já se sabia da morte de 18 pessoas! Freixo só se solidarizou com as famílias do PM Bruno Costa e da Letícia Marinho. As famílias das outras 16 vítimas deixaram de contar para Freixo? As operações policiais – das quais Freixo agora é a favor – podem resultar na chacina dos jovens negros? 

A nossa solidariedade a todos os familiares das 19 vítimas dessa barbárie que institucionalmente se chama operação policial, mas que, na verdade, é chacina. 

Essa declaração de Freixo é mais um reflexo do seu giro à direita, eleitoralista, da sua aproximação com políticos burgueses, reacionários, que historicamente estão ligados à repressão do povo pobre da periferia, como César Maia, que Freixo agora tem orgulho de ter como vice. 

O que propomos?

Precisamos acabar imediatamente com essa política de segurança que criminaliza a pobreza e promove um verdadeiro genocídio ao povo negro das favelas e periferias, em particular à juventude, envolvido ou não com o tráfico de drogas. 

Temos que acabar com essa falácia de “guerra às drogas” e realizar uma política de segurança de fato. Primeiramente, descriminalizando as drogas, porque droga é um problema de saúde pública e não de segurança pública. 

E adotar medidas também no tocante à segurança pública: desmilitarização da PM; formação de uma polícia única, civil, com parte dela atuando fardada no patrulhamento ostensivo e outra parte voltada para ações de inteligência, com direito de greve, direito de sindicalização e salários dignos, para neutralizar a corrupção no corpo policial; a expulsão imediata de todos os policiais envolvidos em crimes contra os direitos humanos e crimes de corrupção; eleição de delegados – para que haja uma proximidade entre a polícia e a comunidade em que ela serve, a polícia precisa se impor pelo respeito e não pela intimidação. 

Por fim, o direito de autodefesa da população trabalhadora por meio de suas organizações de classe, sindicatos e movimentos sociais organizados, como os de luta por moradia e por terra, e assim por diante.

O verdadeiro papel que o estado deveria cumprir nas comunidades é o de garantir saúde e educação pública gratuitas e de qualidade, e principalmente oferta de emprego para a juventude nas favelas e periferias, para que essas pessoas possam viver suas vidas com tranquilidade.

1https://www.dw.com/pt-br/complexo-do-alem%C3%A3o-foi-um-massacre-chamado-de-opera%C3%A7%C3%A3o-policial/a-62564122