Começou um novo processo de lutas no Brasil

    A comparação com os dois grandes movimentos de massas dos últimos 30 anos (“Diretas Já”, em 1984, e o “Fora Collor”, em 1992) só apresenta em essência um ponto em comum, que é a massividade dos atos. Na semana passada tivemos quase dois milhões nas ruas, mais do que no “Fora Collor”. 
    A mobilização das “Diretas Já” era contra uma ditadura, com uma direção definida (oposição burguesa, mais o  PT e a CUT). O “Fora Collor” foi uma mobilização democrática contra a corrupção, com uma direção também definida (oposição burguesa, mais a UNE e o PT) que a canalizou por dentro da democracia burguesa com a posse de Itamar Franco. 
    A mobilização atual é  contra o governo do PT.  Ainda que se choque mais contra os governos municipais e estaduais, atinge também a Dilma. As mobilizações se enfrentam com o regime democrático burguês e a maioria de suas instituições. 
    Os governos do PT trouxeram para o apoio aberto ao governo e integração ao regime a maioria absoluta dos sindicatos, a CUT e a UNE. A mobilização atual  inclui, então, uma contestação aberta a todas essas instituições, incluindo os partidos.
    Não se trata de um fenômeno novo. Foi assim com o processo revolucionário de 2001, na Argentina. Está sendo assim na Europa, que gerou o fenômeno dos “Indignados” na juventude. No choque contra a democracia burguesa, as massas rejeitam o conjunto das instituições, como os partidos, incluindo os que conhecem e os que não conhecem. Depois, irão ter suas novas referências. 
    Na Europa, no entanto, o movimento dos “Indignados” se dava em países que tinham governos de direita (Espanha e Portugal). A ultradireita nesses países defende os governos. Aqui, existe uma mobilização gigantesca e progressiva  num país dirigido por uma Frente Popular, um governo de coalizão entre a burguesia e partidos reformistas. A ultradireita entrou no movimento contra o governo para disputá-lo e evitar que a esquerda socialista o dirija.
    A mobilização atual, ao contrário das “Diretas Já” e do “Fora Collor”, não tem uma direção definida, nem em nível nacional, nem na maior parte dos estados. É um processo gigantesco, articulado pelas redes sociais em grande parte. 
    São as primeiras grandes mobilizações nos últimos 30 anos que não têm nem o PT nem a CUT na sua direção ou codireção. Ao contrário, essas mobilizações ultraprogressivas se chocam também com a Frente Popular no governo. 
    E, também, são as primeiras grandes mobilizações no país nas quais as redes sociais cumprem um papel qualitativo de organização e debate. Aqui, se expressa o mesmo fenômeno que já vimos nas revoluções do Oriente Médio, Norte da África e Europa. Ao passar por fora dos aparatos tradicionais, as redes sociais são a forma alternativa de articulação das mobilizações. Os grandes atos de São Paulo foram convocados por simples chamados do Movimento do Passe Livre pelas redes sociais. 
    A base social predominante desses atos é a juventude, embora setores dos trabalhadores e populares também se integrem aos poucos. Para ser mais preciso, a maioria das mobilizações é da juventude desorganizada e não do movimento estudantil. E o grande interrogante é se a classe operária, agora, vai se somar a essa grande onda revolucionária.
     
    Uma mobilização extremamente progressiva
    Essa é uma mobilização extremamente progressiva, com as contradições inevitáveis de uma primeira grande onda contra o governo do PT. Basta ler os cartazes escritos à mão e trazidos pelas pessoas nas marchas – que são a forma de expressão mais difundida nas mobilizações – para ver que as reivindicações se aproximam do programa de esquerda. 
    É natural que exista confusão de setores de vanguarda sobre o caráter das mobilizações, ao verem a dimensão do sentimento antipartido e, em particular, os ataques dirigidos contra a esquerda por grupos da direita. 
    Mas seria um erro catastrófico confundir a mobilização como um todo com esses grupos fascistas. O sentimento antipartido é progressivo por expressar a experiência das massas com os partidos majoritários. Entender erradamente esse movimento como “de direita” nos levaria a deixar de intervir e disputar sua direção, o que seria um grave erro. 
    No entanto, o termo “progressivo” é relativo. É progressivo no geral, mas quando se estende contra a esquerda e os sindicatos passa a ser regressivo. Temos que enfrentar essa consciência atrasada das massas, com a paciência de quem entende o fenômeno global como progressivo.
    A primeira reação ao ouvir da base o coro “sem partido” da base não pode ser com a acusação de “fascistas”. É necessário chamar à luta comum, com outras palavras de ordem como “o governo é meu inimigo, e é bem vindo quem quiser lutar comigo”. Ou ainda “sem censura, sem censura”. 
     
    Os grupos fascistas 
    Outra coisa, bem diferente, é a necessária reação contra os grupos da direita e ultradireita que se apoiam nesse sentimento da base para abaixar as bandeiras e excluir a esquerda dos atos. 
    Isso não tem nada de progressivo. É diretamente contrarrevolucionário. Não se trata de algo “espontâneo”. É instrumentado e financiado pela direita e ultradireita.  
    Recentemente um integralista, Marcio Hiroshi, rompeu com o movimento integralista e denunciou que a linha de atuação deles é “gritar “sem partido” para expulsar os partidos de esquerda”. Segundo eles, “nas reuniões somos ajudados por pessoas do serviço reservado da PM e por dirigentes do PSDB, DEM e outros deputados e vereadores. Estes partidos nos financiam”.  
    Existem diversos filmes que mostram integrantes desses grupos conversando com a polícia durante os atos. É muito importante que o movimento sindical, popular, estudantil e os partidos de esquerda repudiem duramente os grupos fascistas e seus apoiadores. Está em jogo. Muito mais do que bandeiras nos atos. Se os fascistas forem vitoriosos, avançarão contra o movimento. É necessária uma luta política e mesmo física, comum, contra esses grupos fascistas. 
     
     
    Pode haver um golpe militar? 
    O PT está divulgando a ideia de que pode haver um golpe militar contra Dilma. Não existe nada de novo nessa história. Sempre que existem mobilizações que se chocam com o governo, lá vem essa mesma história. 
    Não existe nenhum risco de golpe. Esse movimento gigantesco não é dirigido pela direita. O movimento se choca contra todos os governos, inclusive Dilma e os governos estaduais e municipais do PT. A direita tenta se aproveitar desse sentimento de oposição, mas estão longe de dirigir as mobilizações. O repúdio a Alckmin nas mobilizações, em São Paulo, é tão grande ou maior que o rechaço a Haddad. 
    Essa mobilização não tem nada a ver com as que existiam na Venezuela contra Chávez (que, aliás, agora, tampouco apontam para um golpe contra o chavismo, mas para a disputa eleitoral naquele país).
    Não existe ameaça de golpe. A oposição de direita vai querer capitalizar o desgaste do governo nas eleições de 2014. O PT e PCdoB falam sobre o golpe para poder, assim, defender o governo Dilma. 
    Por isso, estamos contra participar de blocos com o PT e o PCdoB, que atuam contra as mobilizações. A partir dos motes “evitar a direita” ou “combater a possibilidade do golpe”, ou “mobilizar contra a mídia”, essas organizações buscam envolver a todos os setores para defender o governo. 
    Estamos junto com as mobilizações contra o governo do PT/PCdoB/direção da CUT. Lutamos contra a direita dentro das mobilizações. Mas nos recusamos a ser parte de blocos com o governo contra as mobilizações. 
    Existe, sim, um risco de ampliação da repressão, mas por parte do governo. Dilma fez um compromisso com a FIFA para colocar as Forças Armadas nas ruas, caso o processo saia completamente fora de controle. Se acabar fazendo isso, poderá ser apoiada pela oposição de direita, também apavorada com as mobilizações. 
     

    É fundamental a entrada em cena da classe operária

    Como evoluirá o movimento? Seguirá em ascenso ou iniciará um refluxo? Se fragmentará ao redor de temas definidos, ao mesmo tempo em que se concentra ao redor dos dias e locais dos jogos da Copa? Ou terá a mesma dinâmica de atos unificados do início? Entrará em cena a classe operária? 
    É preciso estar aberto para todas as hipóteses. Mesmo se houver um refluxo, a realidade do país não voltará a ser a mesma. Houve uma modificação brusca da relação de forças que vai se expressar, também, em distintas conjunturas no futuro. 
    Seria fundamental a entrada em cena da classe operária para a evolução dessa onda de mobilizações. Daria um caráter mais classista a essas mobilizações, acuaria mais a burguesia e os governos. Poderia significar um novo salto no movimento. 
    O Dia Nacional de Luta pelas Reivindicações dos Trabalhadores, convocado pela CSP-Conlutas e o Espaço de Unidade de Ação, no dia 27 de junho, é um primeiro e qualitativo desafio nesse sentido.
     
    É preciso que o movimento construa uma organização coletiva 
    É importante construir fóruns de unidade de ação nas regiões, incluindo o movimento sindical, estudantil e popular, que dirijam o movimento, decidindo coletivamente a convocação das mobilizações e o eixo do programa. Nas cidades essa unidade vai se materializar de distintas formas. Em BH, por exemplo, é o “Comitê dos Atingidos pela Copa”. Existe uma unidade de ação semelhante em Porto Alegre e, agora, está se construindo uma em Fortaleza. 
    Esses fóruns são muito importantes para construir alternativas coletivas de direção para a mobilização e que escapem ao padrão “convocado pela internet”. 
    A internet é uma forma de comunicação muito importante, e nesse caso vital. Mas, quando a direção está dissolvida na internet, pode também ocultar uma postura autoritária, que escapa das formas de organização real do movimento para impor uma direção autoritária, por vezes anarquista ou de direita. Como não existe espaço democrático para debate e decisão “na internet”, se impõem as decisões de um pequeno grupo de forma autoritária. 
    Por um motivo ou por outro, é necessário que se construam fóruns do próprio movimento social, com formas coletivas de discussão e decisão, para dirigir o movimento. 
     
    Dilma tenta desviar a atenção do povo
    Depois de passar dias sem saber o que fazer, Dilma convocou uma reunião com os governadores e prefeitos para discutir a crise. Nela, tentou atrair o foco das mobilizações de rua para algumas propostas vazias. Sem ter o que propor realmente, busca ganhar tempo e a atenção do povo.
    Dilma propôs um plebiscito para autorizar uma constituinte que discutiria um único tema: uma reforma política. Para tentar canalizar o repúdio aos partidos, propõe discutir uma reforma política que o PT nunca tentou realmente fazer porque se choca com interesses conflitantes dos partidos da base governista. Dilma sabe que essa proposta exige uma discussão e votação complicada no Congresso, sem nenhuma possibilidade de se efetivar a curto prazo, nem clareza do que pode ser votado. Em suma, uma proposta oca, sem viabilidade, uma manobra para distrair. 
    Em relação à saúde, reiterou a proposta de importação de médicos estrangeiros. A ideia é trazer médicos de países que estejam em crise e que se disponham a trabalhar com salários menores e, assim, pressionar os profissionais da saúde daqui a aceitar salários mais baixos. Propôs que os royalties do petróleo sejam destinados integralmente à educação. Isso poderia ser uma solução caso o petróleo não estivesse sendo entregue nos leilões para as multinacionais. O país termina ficando com apenas 10% do petróleo, com os royalties, o que não resolve a questão do financiamento da educação.
    Em suma, Dilma quis atrair o movimento das ruas para a via morta da negociação no Congresso. O PT e os partidos da base governista aplaudiram nervosamente. Finalmente tinham o que dizer. Não parece que essa manobra surtirá efeito. Dilma, na verdade, não tem nada nas mãos para oferecer.  
     
    Nem toda ação de luta é positiva
    A depredação de prédios públicos tem sido usada sistematicamente pela mídia como uma demonstração da necessidade de repressão violenta das manifestações. Em geral, têm jogado também a população contra as manifestações. 
    Nesse momento, achamos que é um equívoco e nós não estamos de acordo em fazê-lo. Apesar de expressar, por vezes, a radicalização de um setor da vanguarda, isto termina sendo usado contra a mobilização. Além disso, também é fruto da ação de grupos provocadores. Já foram identificados policiais e fascistas neste tipo de ações. 
     
    Um programa para uma grande mobilização 
    • Dilma, menos dinheiro para a Copa, mais para saúde, educação e transporte!
    • 10% PIB para educação publica, já!
    • 2% do PIB para o transporte público!
    • 6% do PIB para a saúde pública!
    • Aumentos salariais já!
    • Abaixo a repressão! Em defesa do direito de mobilização! 
    • Inflação, arrocho, privatizações e repressão! Dilma assim não dá!
    • Dilma, congele os preços dos alimentos e tarifas!
    • Dilma , revogue as privatizações dos estádios como o Maracanã! 
    • Dilma, mude a política econômica!
    • Exigimos da CUT e Força Sindical um dia de paralisação nacional!
    • Pelo transporte público e gratuito! Estatização dos transportes!
    • Contra todas as formas de opressão! Contra o projeto de Cura Gay! Fora Feliciano!
    • Contra o genocídio da juventude negra e da periferia!
    • Pela desmilitarização da PM! Fim da tropa de choque!
    • Pela suspensão dos leilões do petróleo! Petrobras 100% estatal!
    • Prisão e expropriação bens dos corruptos e corruptores! Salário dos políticos deve ser igual ao de um operário especializado! Revogabilidade mandatos!
    • Não pagamento das dívidas públicas aos bancos!
    • Lutamos por um Brasil justo e soberano!
    • Nem direita nem PT, trabalhadores no poder!
    • Por um Brasil socialista! Em defesa da revolução socialista! 
     

     

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