Colégio em Guarulhos pede que aluno corte cabelo crespo

Lucas, de 8 anos

Quando um aluno negro não tem direito de frequentar uma escola usando seu cabelo natural, testemunhamos mais um caso de racismo institucional que se repete há séculos neste país

O aluno Lucas Neiva, 8 anos, foi vítima de um caso grave de racismo em seu local de estudo, o colégio Cidade Jardim Cumbica. A escola pediu que o aluno cortasse seus cabelos crespos, alegando que o corte do aluno era “inadequado”. A mãe não cortou, e não conseguiu fazer a rematrícula do filho para o ano letivo de 2014.
 
A mãe, Maria Izabel Neiva, alega que, em agosto a escola mandou um bilhete via agenda pedindo que ela cortasse os cabelos de Lucas, pedindo que fosse um corte de cabelo mais curto para que os cabelos não caíssem no olho do menino. A mãe mandou outro bilhete à diretora da escola dizendo que não iria cortar; a diretora respondeu dizendo que o corte não era utilizado pelos demais alunos do colégio. A mãe se dirigiu ao colégio para conversar com a diretora da escola que alegou que o cabelo do menino “é crespo, cheio e inadequado”, segundo relata a mãe. 
 
A escola não enviou nenhum bilhete sobre a rematrícula para Lucas e, ao procurar a secretária, a mãe foi informada que tinha perdido os prazos e que não havia mais vagas para ele. Para o delegado do 3º Distrito da cidade Jorge Vidal Pereira, o caso pode ser considerado como racismo.
 
Sim, é racismo. Historicamente as classes dominantes determinam os padrões que supostamente seriam “adequados” para a vida em sociedade, definindo um ponto máximo na escala social a ser alcançado por aqueles que pretendem ser reconhecidos como “bem sucedidos”. Sendo a sociedade aqui constituída sobre bases escravocratas, sabemos muito bem qual é o padrão “adequado” defendido por esta diretora: o padrão branco, liso.
 
Perseguindo este ideal da elite branca, instalou-se no Brasil uma das facetas mais deploráveis da ideologia racista: o ideal do embranquecimento. Elaborado e defendido por teóricos a serviço do Estado brasileiro logo após a abolição, este ideal nos ensina que quanto mais próximos do padrão branco estivermos, melhor. Ser negro seria inadequado. Assim, a opressão racial nos persegue, exigindo que alisemos nossos cabelos, definindo-nos como “pardxs”, “morenxs”, “mulatxs”, nunca pretos, e fazendo todo e qualquer malabarismo para tentar apagar nossa história e todas as marcas que o povo negro aqui deixou.
 
Felizmente, nesta história também há resistência, e ela cresce mais a cada dia. Ela cresce junto com os cabelos crespos, como os de Lucas que, livres e soltos, representam muito mais que um corte de cabelo: representam a luta de um povo por seus direitos; do direito ao acesso ao ensino até o direito mínimo de existir sem ser oprimido. 
 
Quando um aluno negro não tem direito de freqüentar uma escola usando seu cabelo natural, testemunhamos mais um caso de racismo institucional que se repete há séculos neste país.  

Repudiamos a atitude da diretora da escola Cidade Jardim Cumbica. O fato de este ato discriminatório ter ocorrido em ambiente escolar nos faz pensar como a escola tem sido, historicamente, um instrumento reprodutor das ideologias dominantes, sendo o racismo mais um elemento para garantir a exploração e a dominação sobre os negros.  Não devemos e nem iremos nos calar.
 
Todo apoio à família de Lucas!
Contra todas as formas de opressão!
Cabelo ruim não, cabelo crespo! Ruim é o seu racismo!