Ciro Gomes: uma síntese entre tucanos e petistas?

Caetano Veloso, anos atrás, se perguntava: “E quem vai equacionar/As pressões do PT/ Da UDR/ E fazer dessa vergonha/Uma nação?” Talvez, pensasse em algo como o PSDB. De lá para cá, o país foi governado duas vezes pelos tucanos e já estamos no segundo mandato do PT. Eis que surge Ciro Gomes prometendo alguma coisa como a combinação do melhor do PSDB com o melhor do petismo. O que os trabalhadores podem esperar dessa síntese?

De fato, Ciro Gomes se propõe a equacionar as pressões de tucanos e petistas, se apresentando como uma terceira via, uma síntese superior em comparação com os quinze anos de governos do PSDB e do PT. Não custa perguntar de novo: o que os trabalhadores podem esperar dessa composição política?

Uma trajetória que nasce do ventre da ditadura e se fortalece com a democracia dos ricos
Ciro Gomes surgiu para vida política no período de esgotamento do regime militar, debaixo da casaca de um dos coronéis da época: César Cals (que foi governador biônico do Ceará e ministro de Estado) e filiado ao partido da ditadura: ARENA (rebatizado de PDS). Por esta agremiação partidária, se torna deputado estadual, pela primeira vez. Com a chamada “transição democrática”, teve o seu nome potencializado pela nova vertente dominante no xadrez político cearense: a do agrupamento chefiado pelo truculento Tasso Jereissati. Nessa toada, se fez presidente da assembléia legislativa, prefeito de Fortaleza e governador do Ceará.

Gradativamente, começou a se projetar no cenário nacional. Foi ministro da fazenda do governo Itamar Franco, somando forças com FHC. Com a eleição deste à presidência, passou, pouco a pouco, a se diferenciar dos “tucanos de São Paulo”, enquanto permanecia, no Ceará, aliado politicamente ao PSDB. Com efeito, a perda de espaço na esfera federal contribuiu para o seu gradual afastamento do tucanato, pelo menos, nacionalmente. Junto disso, veio o projeto de alçar vôos mais elevados, o que, decerto, concorreu para estabelecer discórdias pontuais e retóricas com o governo Fernando Henrique.

É quase desnecessário dizer que logo muda de partido, entrando, em 1997, no PPS. Assim, Ciro Gomes concorre duas vezes à presidência da república: 1998 (PPS) e 2002 (PSB). Hoje, é deputado federal e tem o irmão – Cid Gomes – como governador do Ceará.

Uma liderança política a serviço da ordem burguesa
Em três décadas de vida política, Ciro Gomes sempre se colocou como um político da ordem, obviamente, da ordem burguesa. Em seu governo, enfrentou as greves com inigualável ferocidade, chamando professoras de “mal amadas” e comparando médico a sal, pois segundo ele, é branco, barato e se encontra em cada esquina. Como se isso fosse pouco, ameaçou descer de um palanque na cidade do Crato(Ce) para enfrentar uma mobilização de professores e estudantes da Universidade Regional do Cariri (URCA), que lutavam em defesa de mais verbas para educação. Não desceu, é claro, mas pintou de valente em cima do palanque e cercado de seguranças.

Para ser breve, basta lembrar que ele serviu à ditadura militar, à geração empresarial que se apossou da máquina do estado no Ceará, e no episódio da parabólica (governo Itamar), assumiu o ministério da fazenda para ajudar na eleição de FHC. Depois de flutuar entre o PSDB e o PT, virou o ministro da integração nacional de Lula, se mantendo durante o primeiro mandato da frente popular.

Nos últimos anos, defendeu as reformas que retiravam os direitos dos trabalhadores e um modo de administrar o Estado cuja referência é o estilo “gerentão”, inaugurado, no Ceará, por Tasso Jereissati.

Agora, tudo será diferente?
Certamente, Ciro Gomes dirá que agora será diferente, que ele amadureceu etc. Os trabalhadores não podem acreditar nesse discurso. Dentro dele, não há nada que possa ser aproveitado pelos milhões de explorados desse país.

Ja está em movimento um esforço para reforçar essa velha alternativa burguesa disfarçada de uma grande novidade, supostamente sensível às reivindicações populares. Um dos argumentos dos ciristas é exatamente o de que ele teria condições de aliar “o melhor” do PSDB com “o melhor do PT”. Nessa direção, é como se Tasso fosse “o bom” e Serra “o mal”, quando no fundo defendem o mesmo programa e estratégia. Quer dizer, são farinha do mesmo saco, vinho da mesma pipa. Quem não acompanhou os acontecimentos recentes no senado e não observou a prepotência coronelística que tem caracterizado a prática política de Tasso Jereissati? E o que seria “o melhor” do PT? Exatamente a sua banda mais próxima dos tucanos. A fusão dessas duas bandas seria o pior dos mundos para a classe operária e demais assalariados.

Um dos principais propagandistas de Ciro é o próprio irmão, Cid Gomes, o mesmo que declarou para Carta Capital que “Tasso é o maior político cearense vivo”. Essa afirmativa vale por dez programas. Significa que um governo do irmão não deveria nada ao que Tasso fez no Ceará, beneficiando ao empresariado e reprimindo os setores populares. Diga-se, de passagem, que todos eles têm uma regra de ouro: a de não negociar com grevistas. Esse método seria reproduzido nacionalmente.

Por fim, um governo de Ciro significaria uma maior dinamização das ditas “reformas estruturais”, iniciadas por Collor, ampliadas e reforçadas por Fernando Henrique Cardoso e mantidas e complementadas por Lula. Tanto o seu irmão, na entrevista a Carta Capital, quanto o próprio Ciro Gomes, ouvido pela FSP, insistem na necessidade de uma nova reforma da previdência. Por trás de uma linguagem cifrada se organiza a intenção de levar a cabo uma terceira etapa da reforma iniciada por FHC e aprofundada por Lula, que atacou direitos históricos de “ativos” e “inativos”. Eis o verdadeiro significado da síntese entre os governos de FHC e Lula, entre PSDB e PT. Os trabalhadores não podem se enganar, devem confiar somente em suas próprias forças e organizar uma alternativa classista, de esquerda e socialista para eleição de 2010.