Catástrofe no Rio mostra que capitalismo destrói meio ambiente e mata os pobres

O discurso de que os desastres acontecidos nos últimos anos são problemas da natureza, controlada apenas por Deus, de que fenômenos da natureza não têm culpados ou que os culpados são aqueles que vão morar em áreas de risco, e outras desculpas mais, já começam a entrar em descrédito entre a população.

Nada mais correto, já que não é de hoje que vários estudos desenvolvidos por cientistas de várias partes do mundo e do Brasil alertam para as consequências da exploração sem limites dos recursos naturais do planeta e, aqueles que deveriam tomar atitudes, nossos governantes, não fizeram nada.

Desde 1972, o mais conhecido estudo do Clube de Roma denominado “Limites do Crescimento” já apontava para a necessidade de pensar sobre o desenvolvimento econômico de forma séria, considerando os impactos sobre a natureza. Como resposta a essa discussão criou-se o famoso conceito “Desenvolvimento Sustentável” (1), que no sistema que vivemos, onde os valores são o consumo, o lucro e o individualismo, só pode ser utilizado como marketing e, nisso ficou, durante esses quase 40 anos.

O desenvolvimento sustentável não aconteceu na prática e continuou no discurso dos grandes líderes mundiais que todos os anos realizam conferências para resolver os problemas ambientais e, se mostram incapazes de chegar a qualquer acordo, pois suas prioridades estão relacionadas a medidas que permita a obtenção de altos lucros. Essas duas questões são incompatíveis.

Enquanto isso, outros estudos já nos trazem números relacionados às conseqüências do desequilíbrio provocado pela exploração irresponsável, incontrolável e irracional dos recursos naturais. Infelizmente esses números tratam de perdas de vidas humanas e, em sua maioria, a vida daquelas pessoas já condenadas a uma situação precária, marginalizadas, que não tem possibilidade de escolher onde morar, o que vestir ou o que comer.

As catástrofes são efeitos das mudanças climáticas

O PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) em um estudo (2) sobre os efeitos das mudanças climáticas para América Latina e Caribe, apresentado na Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas em Cancun, México realizada em 2010, diz que estas “se manifestam em um aumento gradual, mas constante de temperatura, em modificações nos padrões de precipitação, elevação do nível do mar, na redução da criosfera e na modificação dos padrões dos eventos extremos.” e que, embora o continente contribua com pequena parte das emissões dos gases de efeito estufa, as consequências das transformações climáticas serão significativas. Isso mostra que tanto no mundo, como no interior dos países a maior contribuição para o desequilíbrio ambiental vem dos ricos, no entanto, as maiores consequências sofrem os pobres.

De acordo com o mesmo estudo, na América Latina e Caribe, se percebe um aumento recente nos eventos climáticos extremos, concluindo que, se comparadas com o período de 1970 a 1979, as tempestades ocorridas se multiplicaram por doze e as inundações ocorridas se multiplicaram por quatro entre 2000 e 2009.

O número de pessoas atingidas pelas catástrofes passou de cinco milhões na década de 70 para 40 milhões na última década. O mapa apresentado no estudo, que indica a estimativa de mortes devido à mudança climática, mostra que no ano 2000 os países mais vulneráveis foram aqueles localizados ao sul do planeta, como já era de se esperar.

O estudo também cita as doenças, que devido às mudanças climáticas, podem ter sua amplitude geográfica aumentada em função do aumento vetorial da transmissão como febre amarela, dengue e malária. Comparado com 1970, o mosquito transmissor da dengue e febre amarela se ampliou de uma parte pequena do continente para a quase totalidade em 2002.

A ONG Oxfam em um artigo (3) elaborado em novembro de 2010 com o título “Agora mais que nunca: umas negociações a favor de quem mais necessita”, referindo-se a necessidade de que a Conferência do Clima realizada em Cancun tomasse medidas contra o desequilíbrio ambiental, o que mais uma vez não aconteceu, apresenta também os números de 2009 e 2010 para o mundo.

Primeiros nove meses de 2010 Ano de 2009
– Fenômenos meteorológicos extremos= 725 Fenômenos meteorológicos extremos= 850
– Perda de vidas humanas= 21.000 Perda de vidas humanas= 10.000
Fonte. Oxfam International

De acordo com a OXFAM, “as mudanças climáticas são uma carga a mais para aqueles que vivem afundados na pobreza” e diz que é difícil dizer que todos os desastres acontecidos são resultado das mudanças climáticas, no entanto é o que os cientistas vêm prevendo e, além disso, dizem que serão cada vez mais frequentes e rigorosos.

Vários estudos anteriores já alertavam para a possibilidade de desastres e sobre a necessidade de tomar providências para impedir que a população mais exposta aos riscos das catástrofes ambientais sofra as piores conseqüências. Entre eles estão estudos de cientistas brasileiros como “Economia do Clima” sobre os efeitos das mudanças climáticas no país e “Vulnerabilidade das Megacidades Brasileiras” que apresenta um estudo sobre a região metropolitana de São Paulo.

E as mudanças climáticas? De onde vem? Quem são os culpados?

O mesmo estudo já citado, elaborado pelo PNUMA diz que os responsáveis pela mudança climática são “o maior uso dos combustíveis fósseis, a mudança de uso do solo, a agricultura e a disposição dos resíduos sólidos”.

Se formos procurar esse tal de maior uso dos combustíveis fósseis ou essa tal de disposição dos resíduos sólidos, etc. vamos encontrar um sistema econômico denominado capitalismo. O capitalismo é impulsionado pela acumulação, não concebe a possibilidade de uma economia planificada, onde as necessidades da humanidade possam ser sanadas e onde todos tenham oportunidade de melhorar sua qualidade de vida, sem que os recursos naturais sejam explorados até o seu fim ou o seu desequilíbrio.

Ao contrário, no capitalismo os investimentos são para as técnicas e tecnologias que permitam que o capital possa obter lucros cada vez maiores e mais rápidos. Um exemplo do investimento no avanço tecnológico a favor do capital foi a elaboração e utilização do processo denominado obsolescência programada dos produtos, que cria necessidades de consumo na população reduzindo a vida útil das mercadorias. A cada ano o fabricante diminui o tempo ótimo para que o produto deixe de funcionar corretamente, obrigando a que o consumidor compre outro.

Quem ainda não percebeu que, nas últimas décadas, os produtos que compramos como carros, computadores, celulares, eletrodomésticos, etc. diminuíram seu tempo de utilização? Em poucos anos acaba sua vida útil ou caem no desuso, se tornam antiquados. E nada pode ser aproveitado, pois não vale a pena, somos obrigados a comprar outro.

A aplicação desse método na produção, além de pressionar a retirada dos recursos naturais que compõe a matéria prima dos produtos, também aumenta a retirada dos combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral) necessários para todo o processo de concepção, realização e distribuição de mercadorias. E, por fim, gera uma quantidade enorme de resíduos que contribui ainda mais para o deterioro do meio ambiente.

Essa é a dinâmica do sistema capitalista, o consumo, e centrado nessa engrenagem de transformar cada vez mais rapidamente os recursos naturais em mercadorias e as mercadorias em capital concretizando assim o lucro, já não desenvolve as técnicas e tecnologias em benefício do bem estar do ser humano e do equilíbrio da natureza, mas sim de seu aniquilamento e destruição e, o pior, com uma velocidade impressionante.

Para o futuro imediato, ou seja, para os próximos 40 anos as previsões são catastróficas. O estudo citado acima, realizado pelo PNUMA diz que haverá aumento na intensidade dos furacões, secas em algumas áreas e aumento das chuvas em outras, ondas de calor e um longo etc…

Ou seja, já estamos sofrendo as consequências e estas tendem a piorar no futuro se não forem tomadas providências, por um lado, no sentido de proteger a população pobre que é a mais afetada e, por outro, medidas globais no sentido de diminuir a emissão de gases de efeito estufa que são os responsáveis pelas mudanças climáticas.

Quem poderá colocar em prática essas medidas que representam concretamente o tão famoso Desenvolvimento Sustentável?

O capitalismo é incompatível com desenvolvimento sustentável

O desenvolvimento econômico e social com condição digna de vida para todos, respeitando os limites dos recursos naturais e assegurando para aqueles que virão depois de nós, as condições necessárias para uma vida com qualidade, só pode ser garantido por aqueles, que dentro do país e em nível mundial, sofrem com a perda de vidas, fome, falta de água e de moradia provocados pelas catástrofes ambientais.

Nas conferências internacionais sobre o meio ambiente temos visto prevalecer os interesses dos detentores do capital, representados por governos como o de Lula/Dilma. No discurso eles defendem a proteção dos recursos naturais, mas na prática definem políticas que tem como objetivo impulsionar o modelo econômico atual que, para obter altos lucros, necessita destruir a natureza e como consequência a vida da população pobre.

Portanto, se queremos preservar-nos, devemos defender também os recursos naturais, que embora existam para todos, não são tratados por todos da mesma forma e os efeitos de seu deterioro não incide sobre todos da mesma maneira.

Os que defendem o desenvolvimento sustentável sob o capitalismo, como diz Luis Vitale (4), ocultam “de forma deliberativa ou não, que a deterioração é precisamente o resultado do tipo de desenvolvimento que dizem defender”. Desta forma, a esperança de mudanças reais e concretas para modificar essa situação está depositada na população pobre que é a única que pode mudar esse sistema econômico chamado capitalismo por outro sistema econômico que realmente garanta o desenvolvimento sustentável.

Considerando que os recursos naturais, o ser humano e o desenvolvimento da tecnologia compõem as forças produtivas da sociedade, podemos citar a atualidade de Marx quando escreve:

“Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução social” .(5)

O sistema capitalista não só se converteu em uma trava para o desenvolvimento das forças produtivas, mas se transformou em seu destruidor. Novas relações sociais de produção que garantam o desenvolvimento do ser humano e ao mesmo tempo o respeito aos limites da natureza devem estar baseadas no planejamento da produção, na igualdade de direitos sociais e na preocupação de garantir a qualidade de vida para a atual geração mantendo os recursos que garantam qualidade de vida também para as futuras gerações.

Uma sociedade com estas características dará a maioria da população o poder de tomar as decisões sobre a produção e o consumo levando em consideração suas necessidades e não os benéficos aos donos do capital.

Uma sociedade assim só pode ser baseada em relações socialistas de produção e distribuição. Só pode ser garantida por um sistema socialista em nível mundial.


(1) Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações.
(2) Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA). Gráficos Vitales del Cambio Climático para América Latina y el Caribe. 2010. Acessível em: http://www.pnuma.org/informacion/comunicados/2010/6Diciembre2010/1cpb35n_i.htm

(3) OXFAM International Media Briefing. Ahora más que nunca: Unas negociaciones a favor de quienes más lo necesitan. Novembro de 2010. Acessível em. http://www.oxfam.org/es

(4)Luis Vitale – Introducción de “Hacia una historia del ambiente en América Latina” Acessível em: http://el-radical-libre.blogspot.com/2010/07/luis-vitale-introduccion-de-hacia-una.html

(5) Karl Marx- Prefácio à “Contribuição à Crítica da Economia Política., 1859. Acessível em: http://www.marxists.org/portugues/marx/1859/01/prefacio.htm