Casamento real: show midiático e “contos de fadas” para aliviar a monarquia

Casamento tenta recriar conto de fadas

No dia 29 de abril, o casamento do príncipe herdeiro do trono britânico, William, e a suposta plebéia Kate Middleton, levou quase um milhão de pessoas às ruas de Londres, literalmente paralisou a Inglaterra e deixou cerca de dois bilhões de pessoas com os olhos grudados nas telas de TV.

Para se ter uma idéia do impacto e da repercussão da festa vale citar um levantamento feito pela Webtrends, que acompanha a movimentação no Twitter: nos 30 dias que antecederam o casório foram escritos 911 mil “tweets”, ou seja, mais de 30 mil por dia, um número muitíssimo superior ao registrado em eventos como o terremoto no Japão e a queda de Mubarak, no Egito. Já o site da ABCNews, que acompanha o Twitter em tempo real, divulgou que, durante a cerimônia, foram feitos nada menos do que 13 mil tweets por minuto.

O interessante é que toda esta tecnologia e “modernidade” fizeram parte de um espetáculo midiático montado para celebrar o que há de mais tradicional, antigo e conservador na sociedade britânica: sua anacrônica e opressora monarquia e seus valores aristocráticos. Uma mistura aparentemente contraditória, mas que se demonstrou ideal para um momento em que a “coroa britânica” é abrigada a enfrentar uma onda de manifestações que, há um mês, por exemplo, reuniu quase meio milhão de pessoas em protestos contra a política anti-social e os cortes orçamentários que vêm sido promovidos pelo Estado.

Tratado, literalmente, como “assunto de Estado” e concebido como um espetáculo destinado a dar ares modernos e simpáticos à monarquia e, ao mesmo tempo, reafirmar seus valores e poder, o casamento do jovem e belo príncipe com uma mulher tida como “plebéia” ganhou ares de um daqueles “conto de fadas” produzidos pela Disney. Uma fantasia enorme e descaradamente incentivada pela mídia mundial.

E já que estamos tratando quase de algo que se assemelhou tanto a uma megaprodução teatral ou cinematográfica, talvez a melhor forma para comentar o evento seja exatamente tratando-o como tal, como um espetáculo para o qual não faltaram enredo, personagens, figurino, roteiro e platéia.

Enredo: um conto de fadas moderno
Quem quer que seja que tenha pensado no “roteiro” do casamento real, certamente tinha como idéia criar uma história cujo tom mesclasse um grande evento para a mídia e um conto de fadas moderno; tudo isto embalado numa “história simples”, capaz de dar um toque de “frescor” à (já há muito) mofada monarquia britânica.

Construir o roteiro não deve ter sido difícil, até mesmo porque os personagens centrais eram ideais para os papéis: um “príncipe encantado” e uma “cinderela moderna”. Para compor o show, bastou rechear a cerimônia de celebridades, contar com a vastíssima cobertura da mídia mundial, decretar feriado nacional e rechear a cerimônia de símbolos.

Evidentemente, como em toda megaprodução, os custos não foram baixos. Calcula-se que a festa consumiu cerca de 40 milhões de dólares, oito milhões deles somente com o monstruoso aparato de segurança que transformou Londres em uma cidade sitiada, tomada por 5 mil policiais e um sem-número de agentes das forças armadas e “serviços especiais”.

Tudo isto foi colocado a serviço de uma “fantasia” construída em base a alguns dos mais importantes valores da elite britânica: respeito à hierarquia, à ordem e à disciplina; exaltação das diferenças sociais como sendo o “jeito natural” das coisas e, acima de tudo, reafirmação da legitimidade e poder da família real.

Roteiro: um futuro para a coroa britânica
Os propósitos políticos e ideológicos da cerimônia eram tão óbvios que ninguém fez muito esforço para dissimulá-los, a começar pela imprensa britânica. O ultra conservador e monarquista “The Times”, por exemplo, foi direto ao ponto: “Em um momento tão difícil para a Grã-Bretanha, quando a moral nacional está baixa, o sol brilhou e todo o mundo pôde compartilhar os risos e a felicidade (…) O casamento demonstrou de forma poderosa o valor da monarquia”.

Essa demonstração de “força” da monarquia foi milimetricamente construída no decorrer do evento, principalmente através de “símbolos” destinados a reviver ou relembrar as “glórias do Império”. Todos os homens da família real estavam ostensivamente fardados; no decorrer do espetáculo não faltaram saudações e beija-mãos reais; o percurso feito pelos noivos privilegiou os principais símbolos de poder de Londres (das casas do Parlamento ao Palácio real) e, também, continências e paradas militares, sobrevôos de jatos e uma infinidade de outros rituais não deixavam ninguém se esquecer do poder da realeza britânica.

Evidentemente, ninguém acredita que isto seja o suficiente para fazer com que a população britânica “se esqueça” da crise. Contudo, se é verdade que a cerimônia cumpriu um papel decisivo para “aliviar” o governo na conjuntura atual, o que se pretende com o novo casal – que foram presenteados com os títulos de Duque e Duquesa de Cambridge – não é algo para o presente imediato e, sim, para o futuro próximo, como destacou o tablóide “The Sun”, o jornal mais vendido da Inglaterra.

Depois de lembrar que o país está enfrentando níveis recordes de desemprego e os mais severos cortes públicos em décadas, o jornal ressaltou o que se espera para a “sequência” do espetáculo iniciado na sexta: “Nossos novos e jovens duque e duquesa têm um papel importante a desempenhar em nossa recuperação”.

Essa pretensão também ganhou uma simbologia curiosa no decorrer do evento. Depois de desfilarem em carruagens que mais pareciam ter saído de um desenho Disney, no final do dia, para o “delírio” da platéia e telespectadores, o casal saiu do palácio no melhor estilo das comédias românticas de Hollywood: em um conversível, cheio de balõezinhos e com direito a uma placa onde se lia “recém-casados”. Uma demonstração de vitalidade e “sangue-novo” extremamente adequados para um momento em que o que se vê no cenário econômico e social é a estagnação e a decadência.

Evidentemente, como estamos falando de símbolos, é totalmente incerto se o “plano” da monarquia irá vingar. Até mesmo porque a realidade tende a manter uma distância quilométrica dos contos de fada, algo que foi destacado pelos jornais que têm uma linha editorial mais crítica, como o antimonárquico “The Guardian”: “No mundo real, debaixo da fina camada de pompa, há desajustes sociais cujas brechas começam a aparecer (…) a renda da maioria das residências está caindo de uma maneira que não acontecia desde os anos 1920. Estão sendo eliminados serviços e centenas de milhares de trabalhos”.

Personagens: um “príncipe encantado” e uma falsa plebéia
Independentemente do que venha pela frente, dificilmente a monarquia poderia ter melhores protagonistas para esta história. Jovem, “bom-moço” (ao contrário do irmão Harry, tido como “rebelde”) simpático e atraente, William ainda tem sua imagem associada à de sua mãe, a falecida Diana, que, na sua época – e antes da sucessão de escândalos que transformaram seu conto de fadas numa tragédia bizarra – também simbolizou uma injeção de “frescor” na monarquia.

Kate Middleton, a escolhida do “príncipe encantado”, também parece que nasceu para o papel. Igualmente jovem, formada em História da Arte e celebrada mundialmente como “a primeira plebéia” a entrar para a realeza britânica em 350 anos, a candidata a futura-rainha, que trabalhou durante anos como webdesigner nas empresas da família, exala modernidade e simpatia, caindo como uma luva no papel de Cinderela destinada a alimentar as fantasias de milhões de jovens mundo afora.

Contudo, como em todo espetáculo, os personagens reais por trás da maquiagem e figurino não são exatamente o que parecem. Isto, com certeza, pode ser dito em relação à noiva, que, de plebéia, não tem absolutamente nada.

Apresentada ao mundo como filha de um ex-piloto e de uma ex-aeromoça da principal empresa de aviação do país, a British Airways, a atual Duquesa de Cambridge, na verdade, sempre teve profunda intimidade com o mundo aristocrático, sua fortuna e valores.

Os pais, além do trabalho de “classe-média”, sempre puderam contar com uma fortuna herdada de mercadores imperialistas do século 19, dinheiro que foi investido para a criação de uma empresa, a “Party Pieces”, especializada em todo e qualquer tipo de parafernália para festas. Um detalhe que fez a alegria da imprensa mundial: um dos carros-chefe do negócio era a produção de festas infantis baseadas em histórias de princesa.

Devido às leis inglesas, é impossível saber o valor atual do negócio, mas, de acordo com o jornal britânico Daily Mail, a fortuna dos Middleton deve chegar a, no mínimo, 50 milhões de libras (cada libra está valendo R$ 2,64), dinheiro suficiente para que Kate tenha passado praticamente a vida inteira em uma propriedade avaliada em 1 milhão de libras e tenha estudado somente em escolas e universidades (como a de Saint Andrews, onde conheceu William) exclusivas para milionários, aristocratas e membros da realeza.

Para se ter uma idéia do quão distante a jovem está de uma “cinderela”, vale lembrar, também, que quando ela e seu príncipe decidiram morar juntos, os pais da moça deram um “presentinho” (ou fizeram um investimento…): compraram para o casal, à vista, um apartamento, no centro de Londres, também no valor de um milhão de libras.

De certa forma, a união entre a Família Real e os Middleton também é um “símbolo” do papel que este casamento pretende cumprir na sociedade britânica. Se, no passado, casamentos reais serviam para selar alianças entre estados monárquicos, o de William e Kate foi uma espécie da celebração de uma união fundamental para que Elizabeth I e sua turma continuem no poder: o da nobreza com a “nova” burguesia neoliberal.

A identidade de Mike e Carole Middleton com os valores do neoliberalismo, inclusive, são mais do que explícitos. Sintonizados com a máxima “o que importa é o lucro”, os pais de Kate não se contentaram com o fato de terem sua filha associada a uma das maiores fortunas do mundo e decidiram aproveitar a oportunidade para ampliar os seus próprios negócios e lucros.

Desde o começo do relacionamento, os Middleton ampliaram seus estoques e produtos vinculados às festas infantis com temas principescos. Na semana em que o enlace foi anunciado, as visitas ao site da empresa saltaram em nada menos do que 163% e, nos meses que antecederam o casório, fotografias tiradas nos depósitos da empresa revelaram um gigantesco estoque de bandeirinhas britânicas e toda espécie de coisas que poderiam ser ver vendidas em torno do casamento: de balões coloridos a canecas de plástico.

A noiva, por sua vez, não mediu esforços na construção de seu personagem. Enquanto noiva, foi “moderna” o suficiente para romper com a tradição (hipócrita e moralista) e compartilhar a cama com o príncipe antes de terem sua união abençoada pelo Estado e pela Igreja. Agora, no papel de futura-rainha, Kate já decidiu que irá representar o personagem mais próximo do ideal machista e tradicional, que sobrevive tanto numa monarquia dirigida por uma Elizabeth, quanto numa democracia presidida por uma Dilma: vai deixar seu trabalho e dedicar-se exclusivamente ao marido e à “caridade”.

Figurino: vestidos para reinar
Não é nossa intenção repetir a mídia burguesa e fazer intermináveis (e fúteis) comentários sobre os modelitos usados durante o casório, mas, também, vale lembrar que, em todo espetáculo, o figurino sempre cumpre um papel importante e isto não poderia ser diferente neste caso. E, tratando-se de um casamento, foi no vestido da noiva que se concentraram as intenções de transmitir a idéia central da festa: a tal mescla entre modernidade e tradição.

Neste sentido, a escolha de Kate foi “perfeita”. O modelo foi criado por Sarah Bruton, estilista que, hoje, é o principal nome da equipe de criação de Alexander McQueen, que se matou no ano passado. A escolha de um nome identificado com um estilista gay, considerado o “infant-terrible” (garoto-mal) da moda britânica, evidentemente, não foi um acaso e teve o efeito desejado: todos os “modernos” ficaram encantados.

Ao mesmo tempo, o modelito era pra lá de “tradicional” e bastante parecido ao de outra “plebéia” famosa (e adorada pelos “súditos”), a atriz Grace Kelly, transformada em Rainha de Mônaco, na década de 1950. E como toque final, Kate ainda carregou um buque de murta (o mesmo usado pelas “noivas reais” desde a toda poderosa rainha Vitória, no século 19).

No mais, não dá para não comentar que o ridículo de tudo isto, como não poderia deixar de ser, também podia ser visto aqui e ali. E, com certeza, foi no “figurino” que a extravagância, ostensividade e exibição de “status” e poder econômico dos ricos e famosos ficaram mais evidente, principalmente nos bizarros chapéus usadas pelas damas da realeza e sua “corte”, alguns deles ao custo de nada menos do que US$ 1,5 mil.

Bastidores: a realidade para além da fantasia
Toda pompa e entusiasmo que cercaram a cerimônia não foram suficientes, contudo, para abafar as contradições da realidade. Problemas pipocaram por todos os lados, a começar pela lista de convidados, que causou protestos ao incluir quase uma dezena de governantes e cabeças coroadas publica e mundialmente conhecidos como tiranos sanguinários e que, exatamente por isso, estão enfrentando verdadeiras revoluções.

Um destes ditadores, o príncipe Bahrein, por exemplo, se viu obrigado a declinar do convite, exatamente por estar ocupado reprimindo o povo que ele tiraniza com punhos de ferro. A lista, contudo, ainda continha pelo menos 8 outros tiranos-convidados, de países como Arábia Saudita, Suazilândia, Brunei e Marrocos.

E enquanto os genocidas eram recebidos com pompa e circunstância, trabalhadores e jovens estudantes eram reprimidos e presos nas ruas de Londres. Foram divulgadas “apenas” 56 prisões realizadas na sexta-feira. O número relativamente baixo, contudo, esconde uma realidade um tanto pior: Londres virou uma cidade sitiada e o direito democrático de protesto foi, literalmente, suspenso.

O forte aparato repressivo colocado nas ruas apoiou-se em decretos que permitiam aos policiais e soldados dispersar e impedir qualquer tipo de agrupamento ou manifestação. Com uma hipocrisia asquerosa, o decreto permitia apenas “protestos estáticos” (como ficar parado e quieto segurando um cartaz) que fossem realizados fora da área do cortejo e da festa.

Mesmo com todas as limitações, vários grupos anarquistas, socialistas e anti-monarquistas em geral (reunindo dezenas ou centenas cada um deles), se espalharam por pontos da cidade, sob forte vigilância da polícia. Diante do forte aparato repressivo, muitos limitaram seus protestos a cartazes ou à ironia, andando pelas ruas, por exemplo, com “sacos de vômito”, estampados com a foto do casal, onde se lia “Carregue com você durante o dia do casamento”.

E, mesmo assim, muitos foram presos, em situações absurdas: dez pessoas cometeram o “crime” de carregar cartazes antimonarquia na estação ferroviária de Charing Cross; outros três “suspeitos de planejar a decapitação de estátuas reais”, foram detidos por “suspeita de conspiração para causar uma perturbação da ordem pública e violação da paz”, a quilômetros de distância da cerimônia.

Por ora, a monarquia ainda está colhendo os frutos do evento bem-sucedido e a elite local também está celebrando os milhões de libras que foram injetados no país com o turismo e a venda de toda espécie de bugigangas. Contudo, como em todo casamento, a “lua-de-mel” pode acabar em breve, principalmente porque, “conto de fadas” à parte, a realidade britânica e a crise econômica e social que afeta o país, principalmente sua juventude e setores mais explorados, como a população imigrante, estão longe de prenunciar um “e viveram felizes para sempre”.