O Instituto Moreira Salles, em São Paulo, vai abrir, em 25 de setembro, uma exposição sobre a obra da gigante Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977), imortalizada no livro-diário “Quarto de despejo: diário de uma favelada” (lançado há pouco mais de seis décadas, em 19 de agosto de 1960), que já foi traduzido para 13 línguas, mas também foi autora de uma obra que inclui romances, poesias, peças de teatro, provérbios e contos, além de ter se atuado como artista circense.

A exposição intitulada “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros” ficará aberta (com entrada franca) até janeiro de 2021. O título é uma referência a um dos textos escritos por Carolina e que só foi publicado postumamente e um de seus destaques é o resgate do lamentavelmente pouco conhecido álbum “Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus cantando suas composições”, lançado pela RCA Victor, com 12 canções, arranjos do maestro Francisco Moraes e direção artística de Júlio Nagib.

Ao ler a notícia, corri pra escutar novamente o LP que, confesso, também não ouvia há tempos. E, com as músicas ao fundo, não deu como não pensar em escrever sobre essa “pérola negra” e socializá-la, com alguns comentários. E espero que leiam o artigo na mesma toada.

As letras e o próprio cantar de Carolina são exemplares de porque, mesmo invisibilizada pelo ódio de classe e pelo racismo, ela é imortal, exatamente por, mesmo sendo semialfabetizada, ter transformado em textos, versos, poesia, música e arte as dores e sonhos do povo pobre, periférico e negro, particularmente das mulheres.

A poderosa voz dissonante que vem das margens

Com a mesma linguagem banhada pela poesia da vida, dos barracos e das ruas que emerge no livro “Quarto de despejo”, as composições de Carolina às vezes soam com uma melancolia que lembra os “cantos de trabalho” e os lamentos de quem conhece as correntes e açoites da opressão e outras tantas são ritmadas pelo gingado das rodas de samba e da resistente alegria arrancada da insistência em celebrar a vida e o amor. Ou, ainda, pela simples ironia típica de quem aprende a lidar com as contradições sem deixar se abater.

As canções, que passeiam por vários ritmos e gêneros musicais, ganham dimensão, beleza e profundidade especiais ao serem entoadas pelo vozeirão da própria Carolina, que também empunha o violão.

Como destacado por Carla Lavorati, do Departamento de Letras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no artigo “Uma voz que vem das margens: Carolina Maria de Jesus, a cantora improvável”, publicado na Revista Antares (Vol. 6, Nº 12, jul/dez 2014), suas composições brotam das mazelas da vida pobre, das injustiças e dos preconceitos e seu cantar é representante da “voz dissonante do povo e das próprias dissonâncias do mundo e das relações sociais” (p. 170)

Um lamento contra a exploração

Dissonâncias que reverberam os constantes embates de uma mulher negra, favelada, mãe solo e catadora de papel com um capitalismo que se fazia cada vez mais selvagem no final dos anos 1940 e decorrer das duas décadas seguintes, quando as composições foram escritas à margem do tão aclamado “desenvolvimentismo” cantado em verso e prosa pela burguesia nacional.

Neste sentido, os versos de “Pobre e rico”, cantados no ritmo de um batuque, tocam profundamente nas feridas abertas naquele período. Ecoando ainda as perdas sofridas durante a Segunda Guerra Mundial, Carolina localiza nos “ricos” e no poder que concentram as fontes de todas as mazelas sociais que sufocam os “pobres”: “(…) É triste a condição do pobre na terra / Rico quer guerra pobre vai na guerra / Rico faz guerra pobre não sabe por que / Pobre vai na guerra tem que morrer / Pobre só pensa no arroz e no feijão / Pobre não [se] envolve nos negócios da nação / Pobre não tem nada com a desorganização (…)”

Assim como nessa música, o samba de toada “Moamba” também tem uma pegada próxima das “canções de trabalho” da época da escravidão – que, nos Estados Unidos, vale lembrar, estão nas raízes do jazz e do blues. E não por acaso. A letra é quase uma declaração autobiográfica que, ao mesmo tempo, expressa, até (e principalmente…) hoje em dia, a situação da maioria de nosso povo pobre, preto e periférico: “(…) Eu não tenho casa / Nem comida pra comer / Ai, meu Deus, trabalho tanto / E vivo nesse misere / Eu sofro tanto / Dura a minha provação / Todo mundo come carne / Eu só como arroz e feijão / Não tenho vestido / Nem sapato nem chapéu (…)”.

E, como não poderia deixar de ser, Carolina também nos lembra que o mesmo sistema que marginaliza, explora e oprimi o povo pobre, sempre que pode o reprime, particularmente através das forças policiais, como ela canta, não por acaso, no gênero que brotou nos morros e cortiços: os sambas “Simpliço” e “O malandro”.

Um cantar banhado pela consciência da opressão

O álbum abre com a marchinha “Rá, ré, ri, ró, rua…”, uma satírica declaração da insatisfação das mulheres diante de companheiros relapsos e abusivos e, acima de tudo, da consciência de Carolina sobre sua própria independência: “(…) Ra, ré, ri, ró, rua / Você vai embora / Que esta casa não é tua / Você chega de madrugada / Fazendo arruaça e xaveco / Além de não comprar nada /Ainda quebra o meus cacareco (…)”.

Na mesma linha, a marcha “Pinguço” antecipa, em décadas, “Maria de Vila Matilde”, cantada por uma das herdeiras quilombolas da Carolina, Elza Soares: “… chega em casa, não compra nada e quer comer / Bate na mulher, põe os filhos pra correr (…) / Eu é que não sirvo pra ser mulher de pinguço”.

Ao mesmo tempo, Carolina não deixa de saudar, com a alegria malemolente de um baião, as parcerias que podem ser construídas por aqueles e aquelas que, não tendo suas relações afetivas pautadas nas poses, no patrimônio compartilhado e hipocrisias afins, se apoiam mutuamente e aquecem seus corações e corpos ligados pela solidariedade e pelo carinho, como ela canta em “Acende o fogo”: “(…) Mané tá lá na lavoura / Precisa de almoçar / Mané sai de madrugada / Sai antes do sol nascer / Ele não deixa faltar /Nada pra eu comer (…) / Me chama de minha amada/ Dona do seu coração (…) / Quando ele vem da lavoura / Me traz um ramo de flor”.

Como também, a mulher negra que conheceu de perto as agruras do serviço doméstico e a frivolidade das “patroas-sinhás” não perde a oportunidade para destilar afiada ironia contra “As granfinas”, uma moda de viola que descortina o abismo de classe que também separa as mulheres e descamba aquelas que, herdeiras das que cresceram na Casa-Grande, não “sabem como viver” sem amas-de-leite e mucamas.

A letra é impagável, principalmente porque Carolina canta a história como fruto de uma conversa com o “Cumpadre Sebastião”, que se casou “com uma granfina que da vida não tem noção” e, agora, se queixa porque a mulher, enquanto se entrega a futilidades e roda pela alta sociedade, “não lava, não passa roupa, pra não estragar a mão”, “para não ficar feia, não quer dar de mamar, não quer o filho no colo, para o vestido não ‘marrotar’”, o que leva o homem a concluir que “se tivesse consciência, não sofria tanto assim”.

Se voltando para outra faceta das duras experiências das mulheres negras, Carolina canta a solidão e o abandono, mas também o amor próprio, entoados no ritmo de uma valsa, em “Quem assim me vê cantando”: “(…) Foi tão grande a minha dor / Eu perdi toda a ilusão / Nem todos merecem amor / Quando vem do coração / Não sabes tu como eu fico / Tristonha e desiludida / Este amor que eu te dedico E não ser correspondida / Vai, vai, vai-se embora, me deixa em paz / Vai, vai e não voltes nunca mais”.

O orgulho da ancestralidade e da negritude

Num momento em que um racista, fundamentalista e candidato a ditador ocupa a presidência, tendo um auxiliar como o capitão-do-mato Sérgio Camargo, que pisoteia a história e as culturas negras, tentando ridicularizar até mesmo os símbolos de nossas tão duramente conquistadas autoestima e identidade racial, ouvir Carolina e resgatar toda sua obra é quase uma obrigação.

Suas canções são carregadas de orgulho racial e fincadas nas nossas raízes ancestrais. Algo, diga-se de passagem, que ela sintetizou de forma extremamente singela no seu famoso livro-diário: “(…) adoro minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho cabelo de negro mais iducado do que cabelo de branco. Se é que existem reencarnações, eu quero voltar sempre preta”

Quando de seu lançamento, a contracapa do vinil trazia um texto de Audálio Dantas (1929-2018), o jornalista que “descobriu” Carolina de Jesus na favela do Canindé –  localizada na Favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, e varrida pelas já poluídas águas do Rio Tiête, em uma das muitas enchentes que invadiam a área, pouco depois do lançamento do livro –  que traça um paralelo bastante pertinente entre o livro e as canções.

Nele, Audálio nos lembra que livro e disco brotaram de uma mesma situação entranhada nas veias desta mulher excepcional: “(…) no princípio era angústia pura, depois esta angústia foi registrada em folhas sujas apanhadas no lixo” e foram nelas que floresceram textos, poesias e letras que, ao mesmo tempo, são “uma revelação de uma realidade desgraçada” e aquilo que permitiu com que Carolina não sentisse mais os pés atolados na lama, elevando-se por sobre os tetos escuros para se deixar levar por uma “brisa boa”, exatamente porque “a música nascida no ‘Quarto de despejo’ é boa e autêntica, com gosto de povo.”

Uma brisa que, felizmente, ainda chegar até nós através da voz, melodia, ritmo e poesia que Carolina Maria de Jesus deixou registrados.