Brasil já sente os efeitos da crise

Crise já afeta a Bovespa
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Crise já ressuscitou as reformas sindical e trabalhista; ministro apresenta propostas para fazer avançar as reformasNas últimas semanas, já deu para perceber uma mudança no discurso de Lula. Apesar de o governo orientar seus ministros a manter o tom de otimismo, ninguém mais toca na tese do descolamento da economia nacional da crise financeira e econômica.

Se antes Lula mandava os jornalistas perguntarem sobre a crise a Bush, agora já admite que ela “vai bater em todo mundo, da China ao Brasil”. A verdade é que já está batendo.

Internamente, o governo já estuda reduzir as expectativas de crescimento de 2008 e do próximo ano. Ao mesmo tempo, o Banco Central já reviu para cima sua estimativa de inflação para esse período. Nem mesmo o maior projeto do governo Lula, o PAC, deve escapar.

Até a tão falada exploração do petróleo do pré-sal corre perigo. Segundo o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, a crise também vai afetar os investimentos na exploração da megajazida. Ele lembrou que os investimentos no pré-sal vão demandar empréstimos externos.

Debandada
Só em setembro, os investidores estrangeiros já mandaram mais de R$750 milhões para fora do Brasil. Entre junho e agosto, mais de R$16 bilhões saíram do país para cobrir parte do rombo causado pela crise internacional.

Se no mercado financeiro brasileiro a crise já é uma realidade, na chamada economia real a situação não é das mais tranqüilas. A crise internacional deve diminuir e encarecer o crédito bancário às empresas. Inúmeros projetos já estão sendo revistos.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, citando um estudo de Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), 25% de todos os investimentos realizados no Brasil vêm do exterior. O governo afirma que o BNDES cobriria uma possível falta de crédito no país. O próprio banco, entretanto, reconhece que não tem condições de substituir o total de investimentos privados estrangeiros.

Com pouco crédito externo, as empresas pagam mais para conseguir empréstimos. Segundo o Correio Braziliense, as empresas têm arcado com maiores custos para financiamentos, com juros de 28,4% em média ao ano, os maiores desde julho de 2006.

Endividados
Enquanto a crise avança, dados do Banco Central mostram que o brasileiro nunca esteve tão endividado. Segundo o relatório de inflação do terceiro trimestre, o crédito avançou 31,8% nos últimos 12 meses, impulsionado pelo crescimento da economia. Em termos absolutos, bateu novo recorde: chegou a R$1,11 trilhão. Também foi recorde na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB): passou de 24%, em 2003, para 38% em agosto deste ano.

Os juros para os consumidores também aumentaram neste segundo semestre. Estão em média a 52,8% ao ano, também os maiores desde 2006. Ao mesmo tempo em que sobem os juros, sobe também a inadimplência, que está hoje em 7,5%. Os juros e a inadimplência são os maiores desde janeiro de 2007.

Tudo isso significa que os trabalhadores brasileiros estão mais endividados do que nunca. Com a crise que se avizinha, terão dificuldades para honrar seus empréstimos. Por isso, são criminosas as declarações do governo Lula de que a crise não chegará ao Brasil. O presidente mente aos trabalhadores que, enganados, poderão se endividar mais.

Reformas ressuscitadas
O anúncio da crise já ressuscitou as reformas sindical e trabalhista, deixadas agora com o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger. Ele apresentou no último dia 17 algumas propostas ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) para fazer avançar as reformas. O ministro defendeu o aprimoramento da relação entre capital e trabalho.

Um estelionato eleitoral em curso
Ainda que a maioria dos trabalhadores não perceba, a crise já é realidade. Em todos os acordos salariais deste segundo semestre, os patrões afirmaram que não poderiam conceder maiores reajustes devido à crise.

O governo e seus candidatos, assim como a oposição de direita, seguem fazendo promessas que sabem ser impossíveis de cumprir. Tal discurso representa um verdadeiro estelionato eleitoral, amparado na atual estabilidade da economia e nos altos índices de popularidade de Lula.

É necessário, desde já, um programa dos trabalhadores contra a crise. Isso não será possível sem uma profunda mudança na política econômica e a ruptura com o imperialismo. É preciso estatizar o sistema financeiro, impedindo a fuga dos lucros para as multinacionais. Da mesma forma, é preciso congelar os preços dos alimentos e fazer a reposição automática dos salários de acordo com a inflação.

Post author Diego Cruz e Jeferson Choma, da redação
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