Bolsonaro trata soropositivos como despesa e fortalece preconceitos

Agência Brasil

Felipe Peixoto Fernandes e Tiago Silva, do Setorial LGBT da CSP-Conlutas

O presidente Jair Bolsonaro declarou nessa quarta-feira (5) que pessoas com HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) são uma “despesa para o Brasil”. O comentário foi realizado enquanto o presidente defendia o projeto de abstinência sexual para prevenir a gravidez na adolescência da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, lançado na segunda-feira (3).

Com essa declaração, Bolsonaro tira a responsabilidade do Estado com a Saúde e reafirma que essa área social não é sua prioridade. Além disso, ajuda a fortalecer estereótipos sobre as pessoas soropositivas.

De acordo com o Ministério da Saúde, a situação de infecção por HIV no Brasil é mais preocupante entre jovens. Dos casos de infecção pelo vírus, 52,7% são pessoas com idade entre 20 e 34 anos. Ainda segundo o Ministério, em 2018, o Norte e o Nordeste apresentaram as maiores taxas, com 87,5% e 118,1%, respectivamente.

O Boletim Epidemiológico de HIV e Aids de 2018 mostra que a epidemia no Brasil está estabilizada. Estima-se que, atualmente, por volta de 866 mil pessoas vivem com HIV no País. Em 2017, foram diagnosticados 42.420 novos casos de HIV e 37.791 casos de Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida).

HIV versos Aids

Ter o HIV não é o mesmo que ter Aids. O HIV ataca o sistema imunológico e deixa o organismo vulnerável a várias doenças. A Aids é o estágio mais avançado. Muitas pessoas vivem durante anos com o vírus e não apresentam sintomas ou desenvolvem Aids. O tratamento ajuda a pessoa a não desenvolver a Síndrome.

O preconceito ainda é uma das maiores barreiras no combate ao HIV. As pessoas soropositivas sofrem preconceito na escola, na família, no local de trabalho. Têm dificuldade de relacionar-se afetivamente, são tachadas de promíscuas e são mais propícias a cometer suicídio.

Estereótipo do “câncer gay” tem que acabar

As LGBTs são as mais estigmatizadas. O estereótipo do “câncer gay” disseminado pela mídia burguesa no início da epidemia ajudou a fortalecer esse preconceito.

Bolsonaro alterou a estrutura do Departamento de IST (Infecção Sexualmente Transmissível), Aids e Hepatites Virais, por meio de decreto, no dia 17 de maio do ano passado. O órgão passou a se chamar Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, rebaixando a área de HIV/Aids a uma coordenação. E colocou sob responsabilidade do departamento doenças como tuberculose e hanseníase, que não são relacionadas a contágio sexual. Essas doenças ficavam sob responsabilidade Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis.

Essa não é a primeira declaração preconceituosa de Bolsonaro sobre soropositivos e seu governo não está comprometido a desconstruir esses preconceitos. O projeto da ministra Damares Alves de abstinência sexual para evitar a gravidez precoce, por exemplo, não cita o uso de preservativos ou outros tipos de prevenção. O governo prefere não investir em educação sexual e propaga o mito da “ideologia de gênero” para que o debate sobre gênero e sexualidade não seja colocado nas escolas.

Estigma contra LGBTs é culpa dos governos

Os governos do PT sempre estiveram ao lado dos conservadores. Marcelo Crivella, por exemplo, que ano passado mandou recolher HQs com personagens LGBTs na Bienal, foi ministro da Pesca do governo Dilma. A ex-presidente chegou a divulgar a “Carta ao Povo de Deus”, para conseguir apoio da bancada evangélica para governar. O PT é, inclusive, responsável pela eleição de Bolsonaro à Presidência, pois traiu a classe trabalhadora e não conseguiu resolver nossos problemas. Governou para os ricos e cometeu os mesmos métodos de corrupção dos partidos ditos de “direita”.

Políticas públicas, já!

O governo deve cumprir com sua responsabilidade com a Saúde, criar e fortalecer políticas públicas para as pessoas soropositivas. Ele deve impulsionar campanhas de prevenção ao HIV, como também oferecer assistência de qualidade, com infectologistas, psicólogos e assistentes sociais. É importante ainda capacitar os profissionais da saúde para lidarem especificamente com pacientes soropositivos. Por fim, fortalecer o SUS (Sistema Único de Saúde), não pagar a dívida pública e reduzir a os salários do Legislativo e do Judiciário.