“Black Woodstock”: o poder das flores negras

Em 1969, a profunda segregação racial que marcou a história dos Estados Unidos também ecoava nos festivais de músicas e manifestações artístico-culturais em geral. O rock n´ roll, apesar de suas raízes negras (sedimentadas por gênios como Chuck Berry e Littel Richard), havia embranquecido bastante desde o surgimento de ídolos da classe média, como Elvis Presley. Os movimentos hippie e beatnik, boa parte daquilo que era chamado de contracultura, tinham brotado em universidades e comunidades majoritariamente brancas, apesar de seus membros serem coerentes ativistas antirracistas.

Além disso, e ainda mais importante, o país estava em plena campanha pelo black power, o poder negro, expresso nas roupas, nos cabelos afros e numa afirmação ultrapositiva da negritude. Exatamente por isso, o fato de terem existido festivais especificamente organizados por e direcionados para negros e negras não pode ser visto como um simples reflexo da discriminação. Era também parte da luta pela afirmação black is beautiful e esta maravilha e orgulho também tinham de tomar uma forma musical.

No final dos anos 1960, a própria realidade impunha este sentimento de reafirmação. Afinal, apesar de toda simpatia dos brancos, foram os negros que perderam dois de seus principais líderes naquele período. Malcolm X foi assassinado em 1965 e Martin Luther King, em 1968.

O Festival Cultural do Harlem
Foi neste contexto que foi organizado, quase paralelamente a Woodstock (em vários domingos, nos meses de julho e agosto) o Festival Cultural do Harlem. Centro nervoso da cultura negra desde a virada do século 20, o principal e mais tradicional bairro negro dos EUA serviu de palco para as apresentações gratuitas de músicos excepcionais como Nina Simone, B.B. King, Sly & the Family Stone, Abbey Lincoln & Max Roach, The 5th Dimension, Stevie Wonder e Mahalia Jackson.

Conhecido como o Black Woodstock, o evento teve um caráter eminentemente político. Diante da recusa da polícia de Nova York em garantir a segurança, um esquema foi montado por militantes dos Panteras Negras. No microfone, músicos se revezavam com a fala de ativistas, como Jesse Jackson e os cerca de 100 mil presentes formavam um mar negro, salpicado pelas cores do panafricanismo (preto, verde, vermelho e amarelo) mescladas aos trajes multicoloridos daquela geração.

Uma geração que, também através de músicas como “R-E-S-P-E-C-T”, cantada pela poderosa voz de Aretha Franklin, “What´s going on”, apresentada por Marvin Gaye, ou “Happy birthday”, escrita por Stevie Wonder em homenagem a Martin Luther King, também se utilizou para música para mandar seu grito por liberdade ao mundo.