Battle Royale ou a Reforma Educacional

Cartaz do filme

O último filme do diretor Fukasaku Kinji, Battle Royale, estreou nos cinemas japoneses em 2000 e está para ser lançado no Brasil. Foi exibido no final do primeiro semestre no Cineclube Subterrâneos, que acontece todas as sextas-feiras na reitoria da UFPR. O filme é a adaptação de um romance muito conhecido no Japão que também ganhou uma adaptação em mangá. Sucesso de público, retrata, em um tempo fictício, uma juventude sem perspectivas em um país com crises econômico-sociais, altas taxas de desemprego, crise das instituições e rebeliões estudantis. A solução encontrada pelo governo é uma reforma que dá nome ao título do filme.

Battle Royale causa muita estranheza na maioria das pessoas que o assistem, talvez pelo excesso de violência e pelas críticas ácidas à sociedade em crise, tanto pela forma quanto pela temática. É impossível não pensar em nossa sociedade e em nosso sistema educacional, principalmente pelo fato de que, no filme, se institui uma reforma educacional com o objetivo de solucionar um problema de origem econômica, social e cultural, chamado “delinqüência juvenil”. Aqui, a justificativa para uma reforma educacional (baseada em algumas diretrizes), dentre outras, é a solução de um problema que os governantes do país têm chamado de “elitismo social”. No Chile, o problema talvez tenha um outro nome, mas a sua origem é compartilhada com os demais países e a solução encontrada é bastante semelhante. Há alguns meses, estudantes chilenos saíram às ruas para questionar a reforma educacional proposta por Michelle Bachelet. Aqui, a Reforma Universitária continua sendo implementada.

Pensar em Battle Royale e não lembrar da reforma universitária proposta no Brasil é impossível por vários motivos, dentre eles a individualização e competição a que se submetem os estudantes do filme para sobreviver ao jogo, em que as regras foram instituídas pelo governo e são religiosamente ditadas pela instituição de ensino.

A reforma educacional de Battle Royale é instituída pelas autoridades governamentais e consiste em organizar um jogo, em que uma turma aleatoriamente escolhida é isolada em uma ilha. Na ilha, cada estudante recebe uma arma que o auxiliará na eliminação de seus colegas até que, ao final de três dias, aquele que sobreviver será o vencedor. Uma única pessoa deverá permanecer viva, caso contrário um dispositivo detona os explosivos que cada um deles possui no pescoço, em uma coleira. A turma escolhida, não por acaso, é a do 9º ano, último ano da escola mantida pelo Estado. Nos anos seguintes o ensino no Japão é subsidiado pelo setor privado e extremamente concorrido.

No filme, a reforma vem como uma medida de extrema violência para conter uma onda de delinqüência juvenil. A violência é um dos pontos mais chamativos do filme, mas a violência é apenas uma arma, no caso dos estudantes, para sobreviver. E para quem organiza o jogo (o Estado e a instituição de ensino), a violência é a solução para um problema social. No nosso caso, a reforma educacional proposta, parece não ter nada a ver com a violência exposta no filme, mas em essência compartilha da mesma lógica: a da individualização dos problemas sociais coletivos. Por exemplo, o que impera hoje frente aos problemas enfrentados pela universidade, como a falta de estrutura, professores e bolsas de pesquisa, recai sobre o indivíduo aluno, que certamente se põe a buscar soluções isoladamente e a pensar que por “falta de capacidade” não conseguiu a única vaga a uma bolsa de pesquisa, quando na realidade o problema é a falta de bolsas. Este ar de individualidade frente aos problemas coletivos maiores, da busca do “vencer o jogo a qualquer custo”, e “extermínio de inimigos” está presente em nossos cursos, no dia-a-dia da universidade, de forma mais tênue é claro, quase imperceptível, pois aparentemente normal.

O que o filme faz é levar ao extremo a concepção de educação que já vem sendo implementada nas universidades. Cabe ressaltar que esta concepção de educação, de universidade e por conseqüência de conhecimento, segue a mesma concepção da lógica do mercado, da competitividade, da individualidade, das saídas rápidas e soluções práticas, utilitárias e fragmentadas.

O conceito de instituição social substituído pelo conceito de organização social traz implicações na própria concepção de conhecimento e da relação da universidade com a sociedade e conseqüente relação do seu corpo discente e docente com a mesma. Marilena Chauí em A universidade pública sob nova perspectiva[1] faz uma distinção entre a mudança da concepção de universidade como instituição social para a de organização social, que nos ajuda a compreender os projetos de universidade que se contrapõem e o tipo de conhecimento que produz a universidade em decorrência dos mesmos:

“Uma organização[2] difere de uma instituição por definir-se por uma prática social determinada por sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios (administrativos) particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. Por ser uma administração, é regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe.

A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições e sim vencer a competição com seus supostos iguais.”

Há uma mudança na concepção de conhecimento e do papel da universidade, que se aprofunda com a reforma universitária. Essa adaptação se contrapõe à produção do conhecimento universal, pois impera o conhecimento específico, utilitário, e forma-se um corpo discente que responde a essas mudanças. Seria então compreensível a fragmentação do comportamento e pensamento na vida acadêmica. Mas compreensível é muito distinto de aceitável e há quem ainda queira discutir e questionar para além do individual e competitivo. A repressão em Battle Royale é feita por homens armados militarmente. Aqui, é feita por homens mudos.

[1] Marilena Chauí. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Conferência de abertura da 26ª. Reunião Anual da ANPEd. Poços de Caldas, MG, 05 de outubro de 2003.
[2] A distinção entre instituição social e organização social é de inspiração francfurtiana, feita por Michel Freitag em Le naufrage de l´université. Paris: Editions de la Découverte, 1996.