Balcão de negócios não evita criação da CPI

A criação da CPI dos Correios marcou mais uma derrota do governo Lula no Congresso Nacional. O esforço de guerra governista para evitar a sua criação não foi o bastante. Tanto no Senado como na Câmara dos Deputados, foram colhidas assinaturas a mais do que o necessário para o requerimento da Comissão.

`SeverinoO partido que durante anos se construiu em torno da defesa da “ética” na política e que sempre foi vanguarda quando se tratava de defender a criação de CPIs, ontem fez de tudo para impedir uma delas. Institucionalizando uma prática recorrente no governo FHC, o governo petista liberou recursos e subvenções a rodo para comprar os parlamentares da base governista e impedir, dessa forma, que o requerimento tivesse as assinaturas necessárias. Levantamentos dão conta de que foram liberados até R$ 12 milhões em emendas para os deputados. Durante a sessão que instalou formalmente a CPI no Congresso, um deputado ironizou: “Eu também quero minha emenda! Eu também assinei, também posso revisar minha assinatura”.

Uma outra declaração de um parlamentar governista, feita um dia antes da criação da CPI, dá a medida exata dos meios empregados pelo governo na operação abafa: “Olhei hoje o Siafi e não vi nenhuma mudança; então, por que vou pedir aos meus deputados para retirar seus nomes?”. O Siafi é o sistema de acompanhamento dos gastos federais que lista a liberação de recursos para as emendas feitas pelos parlamentares ao Orçamento.

De joelhos
Como se não bastasse, os líderes governistas, Aldo Rebelo e José Dirceu, protagonizaram cenas humilhantes diante de inescrupulosos políticos. Um exemplo foi a conversa entre eles e o deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB e pivô do escândalo dos Correios, onde ficou acertado que os parlamentares petebistas retirariam suas assinaturas. “Eles faltaram se ajoelhar para pedir a retirada das assinaturas”, confessou Jefferson depois da reunião. Outro episódio aviltante se deu com o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Segundo ele, José Dirceu ligou quatro vezes para “suplicar” pelo apoio do PMDB para abafar a CPI dos Correios. Contudo, o ex-governador, que acusa o PT de estar por trás da decisão judicial que o torna inelegível, permaneceu renitente.

Plano B
Mas nada consiguiu impedir que a CPI fosse criada. Derrotado, Arlido Chinaglia, líder do governo no Congresso, teria dito a Dirceu pelo celular: “pega leve. Não dá para fazer mais nada, é a vida. Não deu. Isso só aumenta o vexame“.

Agora o governo começa por em prática seu plano B para tentar impedir o avanço da CPI. Combinando manobras regimentais e articulando a nomeação de parlamentares confiáveis para compor a Comissão, a estratégia de Lula visa agora tentar adiar ao máximo a sua instalação. O resultado da CPI do Banestado pode fornecer uma pálida idéia do que pode acontecer a nova CPI. O governo teme que uma investigação profunda feita em meio à disputa presidencial possa revelar o esquema de distribuição de cargos entre os partidos burgueses aliados, base das atuais denúncias de corrupção. Como disse Dirceu, “uma investigação minimamente bem feita” atingiria Delúbio Soares e Silvio Pereira, tesoureiro e secretário-geral do PT, respectivamente.

Mas o desgaste político acumulado pelo governo na desesperada tentativa de abafar os escândalos de corrupção é enorme e, até agora, é difícil de medir sua real extensão. Ao contrário do caso Waldomiro Diniz, o governo Lula já não goza da popularidade daqueles tempos. A imagem do PT como partido da “ética” se desmanchou perante os olhos de milhões de trabalhadores. As promessas de Lula de que seu governo combaterá a corrupção no país soam tão falsas quanto as do PSDB de acabar com as enchentes do rio Tietê, em São Paulo. Para sair da sua maior crise política, o governo está disposto a continuar protegendo os maiores corruptos desse país. Como se pode ver, a lama não é exclusividade de São Paulo no dias de enchente, ela infesta todas as instituições da democracia burguesa.