Bacurau e a violência nossa de todos os dias

Wilson Honório da Silva, da Secretaria de Formação do PSTU

O longa-metragem dirigido Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é o que podemos chamar de “experiência cinematográfica”. Para apreciar Bacurau, é preciso vê-lo muito além daquilo que em geral prende a atenção no cinema, é preciso mergulhar em suas camadas, que são muitas.

O enredo tem início com a chegada de Teresa (Bárbara Colen) ao povoado de Bacurau, para o funeral de Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), a matriarca do vilarejo. O enterro é sucedido por uma descoberta desconcertante: a cidade sumiu do mapa, e começam a surgir cadáveres por todos os lados. Os celulares silenciaram, e drones (com jeito de discos voadores de filmes dos anos 1950) pairam sobre a cabeça dos moradores. Uma situação que leva a uma inevitável conclusão: Bacurau está sob ataque.

O mistério sobre os autores do ataque não é mantido por muito tempo. Logo somos apresentados a um grupo de “gringos” que está na região promovendo um “safári humano”, no qual cada corpo abatido conta pontos. Para o povo, não há muita margem de manobra. É deixar-se abater ou resistir. Bacurau, felizmente, é uma terra de sertanejos, de negros e indígenas, de mulheres porretas e trans libertas. Enfim, de gente que nunca se deixa abater fácil.

A força, beleza e importância do filme, reconhecidas por milhares que já assistiram ao filme, os prêmios que ganhou (como o do Júri em Cannes, na França, e de melhor filme nos festivais de Munique e Lima) e os elogios nas redes sociais e na imprensa brotam de coisas que extrapolam a história contada, os personagens fantásticos (defendidos de forma visceral por uma excepcional trupe de artistas) e o trabalho competente da equipe técnica dirigida pelos pernambucanos que já nos brindaram com outros trabalhos excelentes como O som ao redor (2013) e Aquarius (2016).

Bacurau é genial não por ser perfeito ou um marco na história do cinema, mas por conseguir escancarar (inclusive na forma como o filme é construído) a insanidade do mundo em que vivemos, e faz isso prestando uma curiosa homenagem à chamada sétima arte.

Reveladores estranhamentos
Dizer que Bacurau é um filme “estranho” é um lugar-comum, mas é necessário. Muito da esquisitice brota da interessantíssima mescla de influências culturais, estilos e gêneros cinematográficos com os quais o filme dialoga.

Uma das músicas-tema, “Réquiem para Matraga”, composta por Geraldo Vandré em 1965, conecta-se com o filme A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, um dos marcos do cinema nacional. Acumulam-se, também, citações aos cangaceiros criados por Glauber Rocha em filmes como Deus e o diabo na terra do sol (1964) e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969); ao que foi produzido por movimentos artísticos e culturais dos anos 1960-1970, como o Cinema Novo, o Cinema Marginal e o Tropicalismo; a obras como Os condenados da Terra (1961), do psiquiatra e militante revolucionário negro Frantz Fanon; ao sadismo demencial dos soldados que massacram e são massacrados no Vietnam em Apocalypse Now (Coppola, 1979).

As primeiras cenas de Bacurau, localizado num futuro próximo, já colocam os espectadores num estado de estranhamento fundamental para embarcar numa viagem que, apesar de fincada na realidade do mundo em que vivemos, é tecida com contornos surrealistas, ou seja, para além da realidade. É assim que, tal como ETs chegando ao planeta, a câmera nos conduz do espaço sideral à aridez do sertão, nos jogando dentro de um carro-pipa que sai atropelando caixões no meio do agreste.

Aí estão sintetizados alguns temas vistos no decorrer do filme: dos poderes invisíveis que tentam manipular o destino da humanidade (prestem atenção, por exemplo, na história dos fones de ouvido que comandam a milícia assassina) à carência absoluta com a qual a maioria é obrigada a conviver, atingindo seu ápice na explosão de violência e morte transformadas num jogo.

A violência nossa de todos os dias
Há quem defenda que a violência que toma conta da tela é um exagero ou um convite à lógica do “olho por olho, dente por dente”. Para além do resignado pacifismo que se esconde por trás desse tipo de argumento, seus defensores menosprezam o que a gangue formada pelo alemão Michel (Udo Kier) e seus comparsas estadunidenses e britânicos, com seus aliados locais, representa.

Alvos de tão brancos, são a personificação dos mesmos que promoveram alguns dos maiores e mais brutais crimes contra a humanidade. São os Bolsonaro, os Trump, os Macri e Macron mundo afora. Só se pode elogiar uma das opções estéticas mais interessantes dos diretores: a diferença que se estabelece na representação da violência que atinge os opressores e a que vitima os oprimidos.

Um presente próximo…
Kleber e Juliano começaram a escrever o roteiro há dez anos. O filme estava pronto antes de Bolsonaro chegar ao Planalto. Coincidência? Não! O nome disso é Arte no sentido mais profundo do termo: a capacidade de dar forma àquilo que está pairando no ar, cutucando corações e mentes.

No enredo, o futuro próximo no qual a história se passa ecoa tanto um passado não tão distante quanto um presente que parece ter sido aprisionado e estar sendo abatido de forma violenta dia após dia. Por isso mesmo, Bacurau é um filme necessário.

Necessário pela história que conta e pela forma como o faz. Por ser expressão de como o cinema (uma das vítimas preferenciais do governo miliciano brasileiro) pode levar-nos a refletir sobre o mundo e nos ajudar a combater a lógica mercenária de um sistema em crise. Necessário por expor sem rodeios a violência que caracteriza um sistema cujas vítimas mais frequentes são os direitos mais básicos e as liberdades democráticas mínimas. Uma violência que precisa ser detida.

Neste sentido, é bom que os que odeiam Bacurau tenham entendido o recado. O futuro, mais ou menos próximo, nos pertence.