Ato em Itabira (MG) reúne milhares contra demissões na Vale

Marcha percorre ruas de Itabira (MG)
Diego Cruz

Manifestação na cidade berço da companhia exigiu estabilidade no emprego, sem flexibilizaçãoA pequena cidade mineira que viu surgir o poeta Carlos Drummond de Andrade e a Vale do Rio Doce foi palco do primeiro grande ato contra as demissões neste ano. Organizado e realizado através de uma ampla frente em defesa do emprego, a mobilização ocorreu durante todo o dia 8 de janeiro e teve à frente o Metabase, sindicato de Itabira e região que representa os trabalhadores das minas, filiado à Conlutas. A Frente em Defesa do Emprego reúne de sindicatos a igrejas, partidos e a prefeitura da cidade.

Jornada
O dia começou cedo, com um ato público em frente à mina de Conceição, ainda de madrugada. À tarde o protesto teve início na Praça Acrísio, no centro da cidade. Reunindo uma ampla gama de entidades, o ato contou com a participação de sindicatos de várias partes de Minas e de estados como Rio e São Paulo, representando a Conlutas, CUT e CTB. Reunidos, os manifestantes assistiram a apresentações culturais, enquanto chegavam mais pessoas para a caminhada rumo à praça da Rodoviária.

Trabalhadores demitidos pela empresa também compareceram ao protesto. “Me demitiram no dia 12 de novembro, disseram que eu não atendia mais às expectativas da empresa”, afirmou ao Portal do PSTU um ex-funcionário da Vale, técnico em mecânica na mina de beneficiamento, que não quis se identificar. Com dois filhos pequenos, um de sete anos e outro de apenas oito meses, o ex-funcionário da mineradora estava indignado. “O sentimento é de frustração, nunca tive sequer uma advertência nesses 21 anos e 10 meses em que trabalhei na Vale, é muito injusto”, diz, relatando o enorme sentimento de medo e apreensão em que estão os trabalhadores da empresa.

Apesar de ter demitido pouco mais de 70 funcionários na cidade, a Vale já mandou embora cerca de 1500 trabalhadores terceirizados. Em Itabira, algo como 20% da população trabalha na mineradora, direta ou indiretamente. A Vale faz uma enorme campanha de mídia omitindo essas demissões, mas o clima de tensão na cidade mostra a gravidade da situação.

Participação
A população itabirana, preocupada com as demissões da mineradora, cuja atividade representa algo como 80% da economia da cidade, compareceu em massa ao protesto. Até mesmo o comércio foi fechado. Já quase no final da tarde, os manifestantes realizaram um abraço simbólico na praça e iniciaram a marcha, percorrendo as principais ruas de Itabira. Nem mesmo o sol e o calor, que contrastaram com as chuvas dos últimos dias, tiraram o ânimo das milhares de pessoas que engrossavam o ato. Segundo o presidente do Metabase, Paulo Soares de Souza, o protesto reuniu 2.500 pessoas. Jornais mineiros chegaram a anunciar a participação de três mil, mas o certo é que a cidade já não recordava ter visto um protesto desta dimensão.

As poucas lojas que permaneciam abertas foram fechadas com a pressão dos manifestantes. A cidade praticamente parou. “Nossa luta não é apenas contra as demissões, mas também contra qualquer tipo de flexibilização de direitos, que a Vale quer fazer, e também para exigir do governo Lula a estabilidade nos empregos”, afirmou Paulo Soares, presidente do Metabase de Itabira e região.

O ato terminou na praça da Rodoviária, aonde um grande palco esperava os manifestantes, que puderam ver apresentações de artistas locais. O protesto não repercutiu apenas na cidade, mas já se desdobra em ações em outras cidades. No dia seguinte ocorreu um ato na cidade mineradora de Congonhas, que reuniu também uma ampla frente de entidades e prefeituras.

Continuidade da luta
Na própria manifestação, a Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais, filiada à Conlutas, anunciou que trabalha para reproduzir a mobilização nos municípios em que ocorrem demissões de metalúrgicos. A Federação também deve realizar, no próximo dia 12 de fevereiro, um protesto em frente à Fiemg (Federação das Indúsitras do Estado de Minas Gerais), contra as demissões e a flexibilização.

O sindicato mandou carta pedindo uma audiência com o presidente Lula a fim de cobrar um decreto que imponha a estabilidade. Nessa semana, a secretaria da presidência respondeu afirmando que irá marcar a data da audiência. Já a Vale até agora pressiona para a suspensão temporária dos contratos de trabalho, mas ainda não apresentou uma proposta fechada, o que deverá fazer na próxima semana.

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    * Texto alterado no dia 12 de janeiro, às 12h