Até a vitória, companheiro Júnior!

Conheci o Júnior quando ele chegou em Sampa, no início dos anos 1990. De imediato nos tornamos “companheiros-amigos”. Companheiros, primeiro, na direção da Juventude da Convergência Socialista, depois em várias outras frentes, lutas e tarefas, em diversos congressos, na periferia da Zona Sul da cidade. Amigos, que compartilhavam o gosto pelos longos e infindáveis papos sobre a vida, sobre política, sobre livros e tudo mais que pintasse pela frente.

Sempre achei que nossa amizade “natural” brotou, além da proximidade na idade, de algo que sempre admirei nele e que, de certa forma, sempre tivemos em comum: o “espírito” moleque, a tendência a viver com a tomada “nos 220”, a solidariedade militante na luta contra todo tipo de opressão, a crença inabalável na necessidade da revolução para que o ser humano pudesse se realizar na sua inteireza.

Fruto dessa amizade, nunca o chamei de “Júnior Bacana” (apelido simpático e totalmente sintonizado com sua personalidade “gente-boa”). Pra mim ele sempre foi o Júnior “Novelo”, forma como eu o provocava toda vez que nos víamos. Não me lembro quando a história começou, mas me recordo que quando dirigíamos a juventude juntos, diante de um monte de diferentes “Juniores”, ele virou Júnior “Linha” (tipo, Jr’).
Eu, como sempre posso perder o amigo, mas nunca a piada, logo comecei a tratá-lo como “Jr. Novelo”.

“Novelo”, porque nosso amigo e companheiro era “enrolado” como poucos. Mas no melhor no sentidos: “enrolado” como todos aqueles que não têm medo de se arriscar; de buscar novos caminhos (alguns ultra-inusitados) para aquilo que parece ser impossível. Enrolado como ficam todos que não se negam a viver de acordo com as regras “certinhas”, ordeiras e em “linha reta”, coisas que nos vendem como sendo a única forma de se viver.

Sempre correndo atrás do “fio da meada”, Júnior foi um cara exatamente assim. Não só na sua vida militante, como também profissional e intelectual. Se lançou em aventuras, atravessou o Atlântico, militou aqui e acolá, nas mais diversas frentes, tarefas e funções.

Contudo, o que sempre nos manteve companheiros foi o fato de que, principalmente no que se refere àqueles da “minha geração” (os atuais quarentões), Júnior foi um dos poucos que, nunca, em nenhum momento, nem diante de qualquer problema, deixou de ter no centro de seu “novelo” um núcleo forte e orientador de todas suas escolhas, caminhos e, também, tropeços e descaminhos: a paixão desenfreada pela vida e pela humanidade, a certeza de que a Revolução é uma necessidade que se impõe sobre todos que são tomados por esta paixão e a disposição ilimitada para que consigamos cumprir nosso papel nesta História.

Não foi por acaso, portanto, que muitos de nós se emocionaram e aplaudiram com vontade quando o Júnior foi homenageado, no aniversário dos 15 anos do PSTU, como exemplo de um daqueles que lutam sem tréguas pela vida. Ele era exatamente isto. Um lutador.

E também por conhecer o Júnior, eu, pessoalmente, não fiquei nada surpreso (apesar de, sinceramente, um tanto abalado) quando ao visitá-lo, logo depois de sua primeira operação, o peguei no quarto, sentado ao lado de sua companheira, Mariane, assistindo no computador sua própria cirurgia, que mostrava claramente o terrível tumor que estava em seu cérebro. Passado o “susto”, pensei que aquele tipo de doideira tinha tudo a ver com o meu amigo: um doido, com um senso de humor um tanto destrambelhado, mas um marxista até mesmo no tratamento da doença. Para ele, era preciso conhecer o “inimigo”, estudá-lo, até mesmo para poder enfrentá-lo.

Histórias como estas, são muitas, mas, hoje, neste momento de dor pela perda, tristeza pelo amigo com o qual não teremos mais o prazer de dividir os momentos – e pensando principalmente na Mariane e no seu filho, o Ricardinho – queria deixar como registro o que talvez tenha sido a sua última e mais difícil luta: o teimoso combate que ele travou contra a morte para que ele pudesse conhecer seu filho.

Ciente sobre sua própria situação, dos riscos, das possíveis seqüelas, das dores e tudo mais, Júnior não titubeou um segundo em fazer tudo o que estivesse a seu alcance para se manter vivo, consciente e presente nos primeiros momentos da vida do Ricardinho.

Pra mim, foi isso, além da sua já mencionada paixão pela vida, que, na luta contra o câncer, transformou sua usual teimosia em força. E por isso mesmo, tenho um orgulho especial por ele e, sinceramente, sinto-me “menos” triste por sua morte (se é que possível dizer algo como isto). O fato, é que, infelizmente, sabemos o quanto é difícil arrancar um vitória num mundo como esse. Mas, exatamente por isso, precisamente porque a vida e o mundo que nos cercam são tão cruéis, sabemos valorizar os que lutam e as pequenas batalhas que conquistamos.

E, neste sentido, o Júnior partiu “vitorioso”. Sei que ele estava feliz. Tive o prazer de ver seus olhos brilharem diante dos olhinhos lindos do filhote. Tive a oportunidade de ver, também nos olhos do Júnior, a felicidade e orgulho de ser pai, vencendo a natureza no seu próprio campo: o da vida contra a morte.

Hoje, quando olhamos ao redor de nós, mergulhados nas muitas mazelas do sistema, estarrecidos pela tragédia do Haiti, angustiados pelas incertezas no futuro, lembrar do Júnior, é um motivo a mais de tristeza, não posso negar.

Mas, também (e é isso que queria compartilhar com seus amigos, companheiros e família) a forma como ele viveu, suas muitas lutas, o jeito como ele encarou a doença, o fato de ele ter se feito revolucionário, internacionalista, amigo leal e pessoa amada e querida por muitos são todos eles sinais de quem teve uma vida pra lá de vitoriosa. Pelo menos naquilo que, de fato, interessa.

Então, meu adeus é mais uma “saudação” do que um “fechamento”. Espero, acima de tudo, que ele sirva para que, daqui alguns anos, quando o Ricardinho puder ler, ele saiba que teve um pai fantástico; um cara que foi amado e amou; um sujeito que lutou sem tréguas; um baixinho feroz na luta de suas idéias; um amigo leal e irresistivelmente divertido. Um cara que nós do PSTU orgulhamos de ter tido, por duas décadas, como “um dos nossos” e que sempre será lembrado como um daqueles que foi até o limite nos seus esforços para construir um melhor, não pra ele, pro seu tempo de vida ou qualquer outra mesquinharia, mas pra todos que ainda estão por vir.

Até a vitória, querido amigo!