Associação da Parada do Orgulho GLBT, Prefeitura e Governo do Estado de são Paulo: intolerância na comemoração do Orgulho Gay

Reinaldo Chagas sendo agredido por policial
Luciana Candido

Carro da Conlutas é impedido de participar do evento. Ativistas foram violentamente espancados e presosPROTESTE AQUI CONTRA A REPRESSÃO À CONLUTAS

A intolerância das autoridades paulistas foi exercida com toda a sua força na 12ª edição da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo neste domingo, 25 de maio. Sem nenhum motivo concreto e convincente, a organização da Parada, encabeçada pela Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT), proibiu o carro de som e, conseqüentemente, o Bloco da Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) de entrar na Avenida Paulista. O Bloco da Conlutas foi organizado pelo grupo de trabalho GLBTT da entidade – que organiza mais de 700 entidades dos movimentos sindical, estudantil, popular e, também, de mulheres, negros e GLBTT.

Diante da indignação e da resistência dos ativistas, a Polícia Militar – bem mandada pelos organizadores do evento, pela Prefeitura e pelo governo do Estado – partiu para a agressão. Com uma violência desproporcional, os policiais, comandados pelo coronel PM Telhada e pelo major PM Pedro, espancaram os participantes. Uma militante do PSTU teve a mão quebrada e terá de passar por uma cirurgia. Outros tantos ficaram feridos em diferentes graus.

Quatro militantes foram presos: Zé Maria de Almeida, da Conlutas, Paulo Barela, dirigente sindical e servidor do IBGE, Altino de Melo Prazeres Júnior, metroviário da Oposição, e Reinaldo Chagas, militante do movimento estudantil e estudante de História da fundação Santo André. O motivo das prisões não é conhecido até o momento.

Ao ser perguntado, um policial informou que “eles resistiram à prisão”. Questionado por uma jornalista o motivo da prisão a qual resistiram, o mesmo policial não soube responder.

Da delegacia, Zé Maria conversou com o Portal do PSTU. Ele informou que ainda não foram ouvidos. A alegação para as prisões foi resistência ao comando policial e, posteriormente, resistência à prisão.

“O que aconteceu foi uma manifestação de intolerância inacreditável por parte da empresa que organiza a marcha”, disse. “A marcha é uma manifestação contra a intolerância e, no entanto, foi proibida a participação da Conlutas mesmo tendo atendido a todos os procedimentos e exigências da marcha”, acrescentou.

Ele defende que a APOGLBT atua como uma empresa, se apropriando de uma manifestação que é pública – o Dia do Orgulho Gay – demonstrando que “sua luta contra a intolerância é bem relativa” e nem um pouco conseqüente.

Zé Maria também condenou o papel da Polícia Militar que, segundo ele, “se prestou a servir de ‘bate-pau’ pra uma empresa privada, seguiu ordem de uma empresa privada que negocia e vende a luta contra a opressão”.

O que aconteceu de fato
Ao contrário de certas versões já divulgadas, o carro da Conlutas estava totalmente legalizado, o que, inclusive, fez com que, durante toda a semana, ele aparecesse, tanto no site da Associação quanto em toda a imprensa, como o 4º a sair pela Paulista.

Douglas Borges, organizador do Bloco da Conlutas, contou que, no horário marcado, o carro estava no estacionamento para a vistoria. A organização alegou que o carro não poderia entrar na marcha porque não tinha a documentação necessária. A Conlutas, então, apresentou os documentos, mas teve de esperar duas horas para que fossem analisados.

Com os documentos aprovados, uma nova desculpa: a organização continuou proibindo a entrada, alegando que faltava uma corda de isolamento do veículo. A Conlutas apresentou a tal corda e não havia mais o que pudesse impedir a sua participação. O último recurso da organização da Parada foi utilizar a força para proibir que o bloco se manifestasse. O carro da Conlutas, que seria o quarto de 22 carros, acabou ficando na décima segunda posição.

Após longo período de impasse e tentativas de negociação com a organização da parada, o carro foi retirado da avenida sob protestos e vaias. Os ativistas que estavam no chão, contudo, permaneceram no local. O carro que vinha atrás do Bloco da Conlutas recebeu ordem direta da PM para avançar, segundo presenciou uma repórter. Ao ver que os ativistas da Conlutas não deixavam a rua, a polícia iniciou a pancadaria.

Os policiais estavam armados com cacetetes, armas de fogo e de borracha e bombas de efeito moral. Os manifestantes, com suas bandeiras, palavras-de-ordem e indignação.

Zé Maria, da Coordenação Nacional da Conlutas, foi brutalmente espancado. Reinaldo recebeu um “mata-leão”, técnica de esganadura que pode levar à asfixia. Paulo Barela teve o olho esquerdo gravemente ferido. Altino também foi bastante espancado e ficou ferido. Todos foram levados à 78ª delegacia.

Censura e autoritarismo
As causas dessa arbitrariedade estão longe de ser meramente burocráticas. O que aconteceu neste domingo foi, vergonhosamente, um ato de censura política.

Em nota de divulgação do Bloco, anterior à Parada, a Conlutas dizia que seu objetivo era “rejeitar a mercantilização do movimento e as políticas demagógicas dos governos federal, estaduais e municipais, que longe de acabarem com a homofobia e a violência contra nós, a mascaram” e pedia o “fim de toda a violência que os GLBTs trabalhadores sofrem no seu dia-a-dia”.

Para a Conlutas, “é impossível acabar com toda a homofobia sob o capitalismo, porque o capitalismo é o reino da desigualdade, onde imperam e são fomentados todos os preconceitos para aumentar a exploração dos trabalhadores e dar lucro para os burgueses”.

O Bloco Classista, Independente e Combativo na Parada do Orgulho Gay de São Paulo, como estava sendo chamado, pretendia resgatar o espírito de luta contra a homofobia, não sendo apenas uma megafesta patrocinada por empresas. A origem do Dia do Orgulho Gay vem sendo desvirtuada pela APOGLBT que, sistematicamente, tenta impedir manifestações políticas durante o evento, esvaziando seu caráter reivindicatório e, conseqüentemente, transformando-o num evento submetido à lógica do mercado e vinculado aos governos e grandes empresas, incentivando, inclusive, a mercantilização da sexualidade.

A Conlutas se opõe a isso. Hoje, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo é a maior do mundo e transformou-se numa verdadeira atração turística. Os donos de empresas, lojas e hotéis faturam alto com toda essa movimentação. A APOGLBT tem acordo com isso e não interessa a ela que ninguém faça críticas, pois tem muito a perder.

Nesse sentido, a Conlutas alertava para o fato de que “a política de ter lucro com uma parcela dos gays, através do ‘mercado rosa’, criando caríssimos guetos gays para gays e lésbicas da classe dominante, não resolvem o preconceito e a violência contra a maioria”.

A data surgiu na revolta de gays, lésbicas e travestis de Stonewall contra a repressão policial, nos Estados Unidos e é assim que deve ser lembrada. Ainda hoje, há muito pelo que lutar.

A partir deste episódio lamentável, fica questionada de cima a baixo a autoridade da Associação da Parada GLBT de SP. Quem pratica a intolerância, não pode lutar contra ela em nenhuma circunstância.

Como disse Zé Maria, “essas pessoas não têm condições morais de seguir organizando esta atividade, não têm autoridade para representar a luta contra a opressão”. A Conlutas vai lançar uma ampla campanha contra o ocorrido na Parada e questionando a Associação como organizadora do evento. “Vamos denunciá-los amplamente e acioná-los juridicamente também, a eles e ao comando da polícia”, informou Zé Maria.

Agora, é preciso que todas as organizações combativas dos movimentos sindical, popular e estudantil e todos aqueles que defendem a liberdade de manifestação denunciem a repressão e o cerceamento político à Conlutas. E, mais do que isso, questionem a autoridade política da APOGLBT, que se declarou proprietária do Dia do Orgulho Gay, decidindo quem participa ou não de uma manifestação que é mundialmente pública.

Neste exato momento, a grande festa da APOGLBT, com a participação dos governos municipal e estadual e da polícia, continua. Entretanto, lá não estão aqueles que têm críticas, que fazem oposição e que acreditam que o único caminho para acabar com a homofobia e com qualquer forma de opressão, porque foram censurados, proibidos de participar. Porém esta será uma mancha que ficará na história da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo e que dificilmente as autoridades oficiais do evento apagarão.

  • Não à homofobia!
  • Não à repressão!
  • Pela livre manifestação!
  • Liberdade imediata aos presos da Parada do Orgulho GLBT!

  • PROTESTE AQUI CONTRA A REPRESSÃO À CONLUTAS