Foto Carolina Antunes/PR

A mais recente pesquisa do Datafolha mostrando a recuperação na popularidade de Bolsonaro, poucos dias depois de o país registrar a marca oficial de 100 mil mortos pela pandemia, surpreendeu a muitos. Realizado entre os dias 12 e 13 de agosto, a pesquisa mostra o aumento da avaliação de “bom” e “ótimo” de 32% para 37%.  Ao mesmo tempo, “ruim” e “péssimo” diminuem de 44% para 34%, voltado aos patamares anteriores ao início da pandemia.

Dos cinco pontos do aumento da avaliação positiva, três vêm de trabalhadores e desempregados com renda mensal de até três salários mínimos. Só entre os desempregados, a avaliação positiva subiu 12 pontos, enquanto a negativa caiu 9. Justamente os setores mais atingidos pelo auxílio emergencial de R$ 600, dentre os quais a avaliação positiva do presidente chega a 42%.

Não se pode dizer que seja uma situação confortável para Bolsonaro, mas é inegável que representa uma recomposição significativa de uma base social de apoio que o garantiria, caso as eleições fossem hoje, num segundo turno. Por que Bolsonaro cresce em meio a uma política genocida, prisão do miliciano Queiroz e sucessivos ataques às liberdades democráticas?

As razões da “recuperação” de Bolsonaro

É incontestável a influência do auxílio emergencial na movimentação de 15 pontos na avaliação de Bolsonaro. E não é difícil entender o motivo. Por mais insuficiente que seja (tanto no valor quanto no número de beneficiados), o auxílio chega a 65 milhões de pessoas, impactando no total 40% da população do país. No Nordeste, chega a 60%. Se quase 12 milhões de trabalhadores tiveram redução salarial, e 41 milhões se vejam sem trabalho, para os setores mais empobrecidos, já historicamente fora do mercado de trabalho, houve até um ganho na renda.

Estudos apontam uma redução histórica na desigualdade social, nivelado por baixo: os trabalhadores mais pobres e remediados ficam muito mais pobres, e os miseráveis ficam um pouco menos miseráveis. Mais do que o impacto do auxílio emergencial, isso revela a brutal desigualdade, pobreza e miséria num país em que, antes mesmo da pandemia, mais de 60% da população sobrevivia com até um salário mínimo.

Se isso explica grande parte da melhora da popularidade do governo, não explica tudo, já que houve um aumento em praticamente todos os estratos de renda e em todas as regiões. E isso decorre, muito provavelmente, da própria postura de Bolsonaro que, após a prisão de Queiroz e o inquérito das fake news, deu uma trégua nas ameaças diárias de golpe e ditadura. Assim como ocorreu nas eleições, em que fugiu dos debates e da exposição pública, agora ironicamente se beneficia dos seus próprios infortúnios, reduzindo as manchetes negativas. E possibilitando que a maioria da burguesia, incomodada com um cenário de crise diária, retomasse um apoio mais enfático de seu governo.

Nesse quadro, as mais de 100 mil mortes pela pandemia e a mortandade diária vão sendo, em boa medida, normalizadas pela população, ainda que com contradições.  Aqui também não é difícil de encontrar a razão. No início da pandemia Bolsonaro encontrou um contraponto nos governadores, que impuseram algum tipo de isolamento social, ainda que completamente insuficiente. A pressão do empresariado pelo retorno da economia de forma completamente precipitada, porém, fez com que essa diferença desaparecesse. Está se retornando à “normalidade” sem que sequer a curva de contágio tivesse sido derrubada.

A quarentena “fake” dos governadores, aliado aos inúmeros casos de corrupção e a abertura precipitada desembocaram nesse platô altíssimo de mortes. Deram base, com isso, à narrativa de Bolsonaro, provocando certa resignação na população, como se, afinal, não fosse mesmo possível fazer grandes coisas. Isso ainda que a maioria da população trabalhadora saiba que não se trata de uma “gripezinha” e queira medidas para evitar o contágio e um número ainda maior de mortes, como ficou evidente na pesquisa que revela que 80% da população é contra a volta às aulas durante a pandemia.

Perspectivas

É importante se afastar de qualquer impressionismo com a pesquisa do Datafolha. Bolsonaro ganha um respiro se atirando aos braços do centrão e, com esse patamar de apoio social, sai das cordas afastando por enquanto a ameaça de perder seu mandato. Mas está longe de ter motivos para soltar fogos.

Primeiro porque estamos vendo uma fotografia do momento. O auxílio emergencial de R$ 600 tem um prazo para acabar e a crise aprofundada pela pandemia provoca importantes cisões dentro do governo. Bolsonaro, que por ironia se enfrentou com o auxílio de R$ 600, agora vê no mecanismo uma possibilidade de se reeleger e vai tentar manter esse apoio através de um Bolsa Família turbinado renomeado de “Renda Brasil”.

O problema é que isso não entra na conta da política ultraliberal de Paulo Guedes ou da maioria da burguesia. Não seria um empecilho caso a extensão do auxílio não mexesse em seus lucros, ou seja, se fosse bancado por uma nova rodada de rebaixamento de salários e renda dos trabalhadores empregados e setores médios. Por isso mesmo estuda-se a possibilidade de bancar essa política com aumento nos impostos, inclusive na cesta básica, fim das deduções no Imposto de Renda da classe média e severos ataques aos trabalhadores como o fim do PIS, além de uma reforma administrativa contra os servidores públicos.

A questão é que nem isso seria capaz de bancar a extensão do auxílio com os valores e a abrangência de hoje, e ainda provocaria a reação de amplos setores e da classe trabalhadora da classe média.

O governo, de qualquer forma, na impossibilidade de manter os R$ 600,00 estuda ampliar o “Bolsa Família”, que seria renomeado para “Renda Brasil” tornando-se marca de Bolsonaro como o BF foi marca dos governos petistas. Mesmo que seja concretizado, isso por si só já representaria um abalo pois algo como 2/3 dos que hoje estão recebendo o auxílio emergencial, sem emprego, passarão a receber nada. E mesmo os que estão recebendo R$ 600 e passarão a receber metade ou pouco mais disso.

Mas, não é apenas essa questão da renda emergencial ou básica que compõe a situação do país, do mundo e de sua inserção nele.  A tentativa de reeditar uma política “lulista” esbarra na conjuntura nacional e internacional que já não é mais aquela que embalou o governo social liberal do PT. Na época, havia uma conjuntura muito favorável: um ciclo de crescimento econômico capitalista mundial, junto com um boom nos preços das matérias primas. E, claro, não havia uma pandemia mundial.

O “PAC” de Bolsonaro e a falta de gasolina do Posto Ipiranga

Bolsonaro e a ala militar do governo buscam manter-se no poder aproximando-se do centrão, do velho toma-lá-da-cá, da manutenção e ampliação da política de distribuição focalizada de renda na extrema pobreza e, na contra mão do ultraliberalismo de Paulo Guedes, de uma política “neodesenvolvimentista”, como a de Dilma, centrada em tocar algumas obras. Aproveitam, para isso, que a pandemia levou ao esgotamento da política ultraliberal “pura” de Guedes.

Paulo Guedes, porém, ainda é o fiador do governo Bolsonaro junto aos banqueiros e grandes empresários, e a sua saída indisporia o governo com esses setores (a não ser que fosse substituído por algum outro de seus expoentes). Essa briga entre esses setores burgueses, entre uma política puramente ultraliberal e outra “keynesiana”, está muito longe de representar projetos distintos de país e ainda mais longe de beneficiar a classe trabalhadora. Ambos preveem que os pobres e os trabalhadores continuem a pagar a conta dessa crise, mas expõe diferenças que não são menores no andar de cima e tem potencial de trazer problemas adicionais ao governo.

Desenha-se, portanto, um cenário de equilíbrio muito instável e precário para o governo devido à magnitude da crise econômica mundial do sistema e também nacional; da crise sanitária e a dimensão da pandemia; da crise social e política. Junto a isso, os escândalos de corrupção envolvendo Queiroz e suas relações com as milícias trazem ainda mais incertezas e gestam futuros abalos.

A responsabilidade da oposição liberal burguesa e também dos setores de conciliação de classes

Não são poucos os que culpam a própria população pelos resultados mostrados pelo Datafolha. Posição que vem tanto da imprensa como da oposição burguesa de centro-direita, como Dória, Rodrigo Maia, PSDB ou mesmo Ciro Gomes; como também da oposição de conciliação de classes, como o PT, PCdoB, PSOL, além de setores da burocracia sindical. A verdade é que os partidos de colaboração de classes, e a chamada esquerda parlamentar tem grande responsabilidade nisso. Por exemplo, quando foi aprovado o auxílio emergencial de R$ 600, cantaram vitória como se isso resolvesse os problemas históricos do país. E agora que o governo encampou o projeto? E incrivelmente, grande parte desses setores continuam defendendo apenas uma “renda básica” como alternativa.

Evidentemente devemos nos opor a que o governo retire os R$ 600. Mas, é obrigação dizer que isso é pouco, atinge menos gente do que deveria e poderia e que, mesmo que fosse até maior, não basta e não resolve a pobreza e a desigualdade. Que é necessário ter pleno emprego, diminuição da jornada de trabalho sem diminuição do salário e que os ricos é que devem pagar pela crise de verdade, não apenas com mera taxação de irrisória de suas fortunas. Mas com medidas profundas e eficazes, que possam iniciar um caminho de verdadeira transformação dessa sociedade desigual.

A realidade é que essa esquerda não apresenta uma alternativa de classe a esse governo e ao modelo econômico dos capitalistas, que faça com que sejam eles a pagarem pela crise.  Ao contrário, muitas vezes se colocam ao lado de Rodrigo Maia e do velho establishment, mirando as eleições como estratégia. Nos estados, reproduzem a política de reabertura da economia e a política econômica de Guedes. Com um projeto nos limites da ordem vigente e do sistema, da mesma forma como os governo do PT, não tocam nos 1%, que lucram muito e sempre, com a tremenda desigualdade e sofrimento dos trabalhadores e da maioria da população brasileira.

Enquanto isso, Bolsonaro, ao mesmo tempo em que se lança de cabeça no centrão, continua a monopolizar o discurso cínico antissistema para boa parte de seu eleitorado já bombardeado por fake news. E, pelas beiradas, avança em medidas autoritárias como a tentativa de ressuscitar o famigerado SNI da ditadura, produzindo dossiês contra opositores políticos.

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