As principais milícias em luta na revolução Síria

Este artigo, publicado em setembro pela LIT-QI, busca dar um panorama geral das frentes de batalha e das milícias revolucionárias e contrarrevolucionárias envolvidas, sem desenvolver uma análise

Esta não é uma tarefa fácil. Devido à natureza desta revolução, bem como o ingresso de diversas forças estrangeiras que têm como objetivo liquidá-la, é necessário ter em mente que há uma miríade de organizações, tanto a favor como contra o regime, que surgem e desaparecem conforme encontram apoio material e militar. E também os avanços e retrocessos em cada front se modificam a cada dia. Por exemplo, há operações de mudança demográfica feitas pelo regime para expulsar a população local, como ocorreu em Daraya e Muadamiyat al-Sham em agosto de 2016. Estes dados foram coletados a partir de informações disponíveis em várias mídias, tanto a favor como contra o regime, e também a partir de relatos de jovens ativistas em cada região. Tem como base o dia 1 de setembro de 2016.

Damasco e arredores
O regime de Bashar al-Assad controla toda a capital, enquanto forças ligadas ao Exército Livre da Síria (ELS) controlam apenas o bairro de Joubar. Ao sul da capital, a força predominante nas áreas liberadas é o ELS. O Daesh (organização autodenominada de Estado Islâmico) está presente em pequenas localidades (Al-Hajar al-Aswad, Tadamoun e Al-Kadam), e a Frente da Conquista do Levante (FCL – Jabhat Fatah al-Sham) está presente no campo de refugiados de Yarmouk, ainda que em menor número que o ELS.

A oeste, o regime controla a maioria das localidades. As diferentes organizações do ELS predominam em Khanshih, e Ahrar al-Sham em Zabadani. Qalmoun, a noroeste de Damasco, é disputada pelo regime, Hezbollah, Daesh, ELS e FCL.

O Exército do Islã é a principal força em Ghouta oriental, que também tem a presença de pequenos grupos, como a Brigada al-Rahman, a União Islâmica do Exército do Levante (Ithad al-Sham al-Islami), e a Brigada dos Mártires do Islã (Liwa Shuhada al-Islam).

Deraa e Sweda
As forças do regime controlam Sweda e o centro de Deraa. Já a Frente Sul, sob a hegemonia do ELS, controla quase todos os bairros e arredores de Deraa e a FCL e o Ahrar al-Sham têm presença limitada às áreas rurais a oeste. Os grupos ligados ao Daesh, como o movimento al-Mutanna e a Brigada dos Mártires de Yarmouk (Liwa al-Shuhadat al-Yarmouk), foram derrotados pelo ELS nas áreas fronteiriças com a Jordânia e têm pequena presença na região.

Latakia, Homs e Hama
As forças do regime controlam Latakia e Tartous.

Homs está sob o controle do regime, com exceção do distrito da floresta, onde predomina o ELS. Nos arredores da cidade, há muitas áreas liberadas onde operam o ELS, o Exército da Conquista (Jeish al-Fatah) e o Exército dos Imigrantes (Jeish al-Muhajerin).

Em Hama, o Exército da Vitória (Jeish al-Nasr), liderado pelo ELS, controla áreas rurais a norte, oeste e sul, em conjunto com a FCL, o Jund al-Aqsa, o Ahrar al-Sham e outras organizações menores, como o Jeish al-Izza e o Feilaq-Sham.

Idlib e Alepo
Toda a região de Idlib está sob o controle do Exército da Conquista (Jeish al-Fatah), que consiste em oito organizações incluindo a FCL e o ELS, cujas divisões mais importantes (a Divisão Norte e a 13a Divisão) estão espalhadas pelas montanhas de Zawiya, Jisr al-Shukhur e Maarit al-Nomen.

Em Alepo, o regime controla a zona oeste da cidade e os “rebeldes” controlam a zona leste, bem como a maior parte de toda a zona rural. A Frente do Povo (Jabhat Shamie) é a principal força, mas há várias outras forças “rebeldes”, tais como: a FCL, o movimento Nuraddin al-Zinqi, o Exército da Conquista (Jeish al-Fatah), Kataib al-Safwa, Liwa Sultan Murad, Ahrar al-Sham e Feilaq Sham.

Raqqa e Deir al-Zour
O Daesh controla Raqqa, Deir al-Zour, Markada e alguns vilarejos na zona rural de Hasaka. Apenas o aeroporto de Deir al-Zour está sob o controle do regime.

O YPG (milícias curdas sob o comando do PYD, partido curdo na Síria com relações com o PKK, partido curdo na Turquia) controla as cidades e a região na fronteira com a Turquia nas províncias de Hasaka, Raqqa e Alepo, além de compartilhar o controle da cidade de Qamishli com forças do regime sírio. Também controla Afrin na fronteira noroeste da Síria com a Turquia.

Espaço aéreo
As forças aéreas do regime, em conjunto com a russa, hegemonizam o espaço aéreo, o que lhes dá grande vantagem militar sobre os “rebeldes”. Os Estados Unidos lideram uma coalizão com a França e países do Golfo, que fazem incursões aéreas para bombardear posições do Daesh e de algumas milícias rebeldes, como a FCL.

Breve descrição das organizações militares
Há quatro grandes campos militares: o regime e seus aliados nacionais e estrangeiros, as milícias “rebeldes” que lutam para derrubar o regime, o Daesh e as milícias curdas.

Forças militares do regime e seus aliados

Forças Armadas da Síria (Jeish al-Arabi al-Suri)
Até setembro de 2015, era uma das forças mais debilitadas devido aos múltiplos fronts de batalha e à pequena capacidade de recrutamento. Domina importantes territórios e está atrás apenas do Daesh. Após a intervenção russa a partir de setembro de 2015, fortaleceu-se particularmente na região de Latakia e em áreas de Homs após impor um cerco à cidade e um “acordo” para transferência da população para outras áreas.

O regime controla Damasco e parte de Qalmoun, Latakia, Tartous, Hama, Homs, Sweda e partes de Alepo e Deraa. Os números oficiais dão conta de 300 mil soldados, sem contar reservistas. Mas o número real deve estar ao redor de 10% desse total.

Brigadas do partido Baath (Kitaib al-Baath)
Formada em 2012, somente entraram em ação a partir de 2015. Seu contingente formado por integrantes do partido Baath é estimado em cinco mil combatentes.

Brigadas Deraa e Litoral (Liwa Deraa al-Sahel)
Formada para combater os importantes avanços dos rebeldes nas áreas rurais de Latakia, contava com 2.500 combatentes. Hoje, aparentemente se dissolveu.

Forças de Defesa Nacional (Kuuat al-Difah al-Watanyi)
Criada em meados de 2012 devido ao enfraquecimento do regime, são milícias organizadas principalmente em áreas sob controle dos rebeldes. Estima-se que sejam cerca de 60 mil componentes em várias regiões, como Damasco, Latakia, Tartous, Homs e Hama.

Forças de autoproteção (Jeish al-Himaia al-Shaabie)
O regime promoveu o alistamento de vários jovens para formar as brigadas de autoproteção em Deraa em dezembro de 2015. O objetivo anunciado era controlarem barreiras e checkpoints, liberando soldados para as frentes de batalha. Apesar do grande alarde feito pelo regime, não há números disponíveis sobre seus integrantes. Aparentemente, a maioria deles vem de áreas onde foram impostos “acordos” para a transferência da população local.

Força Quds (Feilaq al-Qods)
Liderada pelo capitão iraniano Qassem Soleimani, é, segundo a mídia, parte do serviço de inteligência militar iraniano. Conta com cerca de dez mil combatentes operando em Alepo, Damasco, Qalmoun e Deraa. Além disso, “coordena” as várias milícias sectárias, que seguem abaixo.

Hezbollah (Líbano)
O Hezbollah começou suas operações ao lado das forças do regime em 2012. Após a intervenção em al-Qusair (província de Homs), em 2013, não foi mais possível esconder sua intervenção maciça. Segundo fontes da mídia, há entre sete e dez mil combatentes atuando em Qalmoun, Homs, Damasco e Alepo. Em Madaya, realizam um cerco assassino que impede a chegada de ajuda humanitária. Estima-se que tenham perdido cerca de mil combatentes.

Brigada Abu al Fadl al Abbas (Iraque)
Iniciou sua intervenção na Síria no distrito de Sayeda Zeinab (sul de Damasco) em 2012. Seu líder, Ahmed Hassan Kierh, foi morto em conflitos na zona rural de Damasco. Integrante do movimento Sadrista, ela atua em conjunto com outras brigadas iraquianas (Hezbollah iraquiano, Liga dos Justos, Exército de Mahdi e a organização Badr) intervindo em várias batalhas ao redor de Damasco (aeroporto internacional próximo do distrito de Sayeda Zeinab, Qalmoun e outras áreas ao sul) e teve muitos combatentes mortos. Participou da batalha de Maliha, que durou 135 dias e levou à destruição de 85% da cidade, das batalhas de Joubar, do cerco de Ghouta, inclusive durantes os ataques levados a cabo pelo regime com armas químicas em agosto de 2013.

Brigada Zulfikar (Iraque) 
Surgida em junho de 2013, trata-se de uma ruptura da Brigada Abu Fadl al Abbas com combatentes do Exército de Mahdi e da Liga dos Justos. Liderou batalhas nas regiões de Adra e Nabek.

Brigadas do Hezbollah (Iraque)
Chegou à Síria em março de 2013 e anunciou que combateria todos que tentassem derrubar o regime de Bashar al-Assad. É liderada pelo iraquiano Hashem al-Hamdani.

Brigadas Senhor dos Mártires (Iraque) (Ktaib Seyid al-Shuhada)
Começou sua participação em setembro de 2013, em Ghouta Oriental, com fortes conexões com o Hezbollah libanês.

Forças Mártir Mohammed Baqir al-Sadr (braço militar da organização Badr)
Participou em várias batalhas, em julho de 2003, em Ghouta Oriental e na área do aeroporto. Estima-se que contem com 1.500 a 2.000 combatentes.

Brigada Padrinho Zeinab (Iraque) (Liwa Kafil Zeinab)
Braço da Liga dos Justos, foi fundada por Qais al-Khazali, em junho de 2013, sob a alegação de defesa dos locais sagrados e do regime de Bashar al-Assad. Segundo o centro de pesquisa e estudos estratégicos, seus combatentes recebem remuneração atrativa, o que lhe permite contratar muitos mercenários. Atua na região do aeroporto internacional, Ghouta Oriental, Qalmoun e Alepo.

Movimento Sábios do Hezbollah (Iraque) (Harakat Hezbollah al-Nujabaa)
Composto por três brigadas, atua desde 2013 em batalhas no sul de Alepo e nas zonas rurais de Homs e Idlib.

Corpos da Promessa Verdadeira (Iraque) (Feilaq al-Waad al-Sadeq)
Iniciou sua intervenção em setembro de 2013. É liderada por Mohammed Hassan al-Tamimi e participou de combates em Damasco, Qalmoun e Alepo.

Brigada Asadullah (Iraque)
Sua participação foi anunciada por uma declaração pública assinada por Abu Fatima al-Musawi em janeiro de 2013. Além do distrito de Sayeda Zeinab, intervém em Alepo. Estima-se que tenha entre 300 e 500 combatentes bem armados e com uniformes similares aos das forças expedicionárias do Iraque.

Milícia Imã Hussein (Iraque) (Liwa al-Iman al-Hussein)
Começou em julho de 2013, liderada por Amjad Bahadli. Tem cerca de mil combatentes iraquianos e atua em conjunto com o Exército Mahdi (organização iraquiana liderada por Moqtada al-Sadr). Um de seus líderes, Ladhim Jawad (conhecido por Balkhal), foi responsável por vários crimes sectários em Husseinia e Ziabiya (Ghouta) e foi morto em combate pelo ELS na região de Zibdeen.

Regimento de Intervenção Rápida (Iraque) (Fauje al-Tadakhol al-Saryia)
Liderado por Hajji Ahmed al-Saadi, muito próximo de Muqtada al-Sadr, participou de batalhas no aeroporto internacional e no distrito de Sayeda Zeinab, e é apoiado pelo Exército Mahdi.

Grupos “Vatmeon” e “Zanbion” (Afeganistão e Paquistão)
O primeiro grupo é formado por prisioneiros levados ao Irã pelo grupo étnico afegão Hazara. O segundo é formado por combatentes xiitas paquistaneses.

Há ainda algumas milícias pequenas oriundas do Bahrein, de palestinos seguidores de Ahmed Jibril e o “Ansar Allah al-Huthi” do Iêmen.

Milícias “rebeldes”

Exército Livre da Síria (ELS – Jeish al-Horr)
Foi formado em 29 de julho de 2011 por um grupo de oficiais dissidentes do exército sírio liderados pelo Coronel Riad al-Asaad, com o objetivo de proteger as manifestações contra o regime. Algumas fontes da imprensa afirmam que inicialmente recebeu apoio, ainda que limitado, da Arábia Saudita.

Inicialmente, efetuou vários ataques a centros dos temíveis serviços de segurança do regime chamados de Mukhabarat. Fortalecido pela deserção em massa do exército sírio, formou 14 batalhões no final de 2011. A imprensa noticiou que cerca de 70 mil soldados desertaram e se uniram ao ELS até março de 2012, o que levou à formação de sete brigadas (Liwa) em meados de 2012. Após esse período, houve um processo de fragmentação com a formação de várias organizações militares por fora do ELS, principalmente as que se autodenominavam islâmicas.

O ELS ainda se uniu à Coalizão Nacional Síria (CNS – Itlaf Wattaniya Suryia) e houve a formação do alto comando do Conselho do ELS, bem como a divisão de sua atuação em cinco departamentos.

Entre as organizações islâmicas, ganharam proeminência a Frente al-Nusra (atual FCL) e o Daesh.

Frente Islâmica (al-Jabha al-Islamie)
É uma das principais forças militares contra o regime. Formada ao final de 2013, afirma que seu objetivo é unir as forças militares para derrubar o regime. É composta por Jeish al-Islam, Ahrar al-Sham, Ansar al-Sham, Liwa al-Haq e Liwa al-Tawhid.

Exército do Islã (Jeish al-Islam)
É uma das forças militares mais importantes operando desde o Leste de Ghouta, passando pelo sul de Damasco até as montanhas do Houran no sul do país. Fundada em setembro de 2013, conta com 10 mil combatentes. Em 2015, organizou uma parada militar em Ghouta Oriental para marcar a graduação de 1.300 novos combatentes. Seu líder, Zahran Aloush, foi morto recentemente em bombardeio aéreo russo no centro de operações de El-Marj. Seu novo líder é Essam Albweidani.

Ahrar al-Sham
Fundada no final de 2012, conta com 30 mil combatentes e opera em toda a Síria. Ela também inclui a Liwa al-Haq em Homs, o Ansar al-Sham em Idlib, o Jeish al-Tawhid em Hama. Teve papel decisivo na libertação de Idlib e de áreas de Hama e Latakia. Está presente no sul de Damasco e em áreas de Alepo. Conduziu vários atentados bem-sucedidos contra líderes do Exército Sírio em Damasco.

Frente de Conquista do Levante (FCL – Jabhat Fatah al-Shams)
Foi formada como Frente al-Nusra em 2012, filiada à Al-Qaeda. Atuava, inicialmente, em 11 distritos em Idlib, Alepo e Deir Al-Zour. Rompeu com a Al-Qaeda e hoje controla muitas áreas no norte da Síria, onde oferece serviços de assistência social, além da proteção militar. Seu líder, Abu Mohammad Joulani, recusou-se a se unir ao grupo autodenominado Estado Islâmico da Síria e do Levante, liderado pelo iraquiano Abu Bakr Bagdadi, também filiado à Al-Qaeda. Há ativistas do campo de refugiados de Yarmouk que entendem que a FCL e o Daesh possuem a mesma visão, ainda que atuem em campos militares distintos, como ocorreu em Alepo, onde a FCL e o ELS, juntos, expulsaram o Daesh. A FCL tem ao redor de cinco mil combatentes, a maioria sírios.

Outros campos militares

Daesh (grupo autodenominado Estado Islâmico)
Foi oficialmente lançado em 2013, após combater forças rebeldes nas áreas liberadas e a recusa de Joulani em aderir à nova organização que se formou no Iraque. Após a tomada de Palmira na província de Homs, o Daesh passou a controlar quase metade de todo o território sírio (95 mil quilômetros quadrados). Segundo fontes da mídia, possui cerca de 60 mil combatentes entre a Síria e o Iraque, dez por cento dos quais são ocidentais (alguns oficiais iraquianos afirmam que o número de ocidentais atinge metade do contingente), um grande número de iraquianos e de outros países árabes e outros como afegãos e chechenos, mas uma minoria de sírios. Hoje, controla Raqqa, Deir al-Zour, áreas rurais a leste de Homs e ao redor de Palmira. Cedeu suas posições em Palmira e no sul de Damasco após um acordo com o regime. Também perdeu várias áreas ao norte sob combate de milícias curdas do YPG apoiadas pela coalizão militar liderada pelos Estados Unidos. É conhecido pelas execuções espetaculares, como corte de cabeças, esquartejamento e afogamento, muitas das quais amplamente publicizadas, como a execução do piloto jordaniano Maaz Kasasbeh.

YPG/YPJ (Unidades de Proteção do Povo) e as Forças Democráticas da Síria (FDS)
O YPG e o YPJ são milícias curdas ligadas ao PYD, partido irmão do PKK. Controla amplas áreas em Afrin, Ayn al-Arab (Kobani) e Qamishli (Hasaka). Conta com 60 mil combatentes. Tem um acordo de não agressão com o regime desde 2011 em troca de não apoiar as forças “rebeldes”. Recentemente, após a aproximação da Turquia com a Rússia, o regime efetuou um ataque contra o YPG em Hasaka. Segundo a imprensa, são a principal força que combate o Daesh, com apoio militar dos Estados Unidos.

As FDS se autodefinem como uma coalizão de milícias curdas, árabes, siríacas, armênias e turcomenas que se formaram durante a “guerra civil” na Síria. Na verdade, trata-se de milícias associadas ao YPG/YPJ. Seu objetivo declarado é expulsar o Daesh de Raqqa e de toda a Síria. A quantidade de integrantes não é conhecida.

Victorios Bayan Shams, publicado originalmente no site da LIT-QI

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